terça-feira, 29 de março de 2011

Terra das Sombras - Capítulos 13 ao 15

Capítulo 13


Minha intenção, naturalmente, era acordar cedo e telefonar ao padre Dominic para avisá-lo sobre a Heather. Mas de boas intenções o inferno está cheio e vai ver eu não presto mesmo para nada, pois só fui acordar com minha mãe me sacudindo, e àquela altura já eram sete e meia e minha carona já estava indo embora.
Ou pelo menos era o que eles achavam. Eles se atrasaram à beça quando o Soneca descobriu que tinha perdido as chaves do Rambler, de modo que deu tempo de eu me ar­rastar da cama e enfiar-me numa roupa qualquer - não me perguntem qual. Fui descendo a escada quase sem me agüentar, e parecia que alguém tinha batido várias vezes na minha cabeça com um saco de pedras enquanto o Mestre contava para todo mundo que a irmã Ernestine tinha avisa­do que se ele faltasse a mais uma formatura teria de repe­tir o ano.
Foi aí que eu lembrei que as chaves do Rambler estavam no bolso da minha jaqueta de couro desde a noite anterior.
Discretamente, fui subindo de novo a escada e fingi que tinha achado as chaves no patamar. O pessoal comemorou um pouco mas reclamou um bocado, pois o Soneca jurava que as tinha deixado penduradas no gancho da cozinha e não sabia como tinham ido parar no patamar.
- Deve ter sido o fantasma do Dave - disse o Dunga, olhando de soslaio para o Mestre, que ficou totalmente sem graça.
Então entramos no carro e fomos embora.
Claro que estávamos atrasados. Na Academia da Missão Junipero Serra, a formatura começa às 8 horas em ponto. Nós chegamos uns dois minutos depois. Nessa formatura, que dura mais ou menos quinze minutos antes do início das aulas, é feita a chamada e são lidas comunicações aos alunos, enfileirados separadamente por sexo, os garotos de um lado e as garotas de outro, como se fôssemos missionários quacres ou algo assim. Quando nós chegamos, claro que a formatura já tinha começado. Eu pretendia passar agacha­da direto para o gabinete do padre Dominic, mas evidentemente não tive a menor chance. Irmã Ernestine nos apa­nhou em cheio e nos fulminou com um olhar furibundo até que cada um de nós entrasse em forma. Eu não estava ligando muito para o que irmã Ernestine anotava a meu respeito em seu caderninho negro, mas percebi que seria impossível chegar ao gabinete do diretor, por causa das fitas isolantes amarelas que impediam a passagem pelos arcos ao redor do pátio - e, naturalmente, por causa de todos aqueles guardas que estavam lá.
Só posso deduzir que todos os padres e freiras e o pes­soal todo se levantou para as matinas, que é como eles chamam a primeira missa da manhã, e deram lá fora com a estátua do fundador da igreja sem cabeça, a fonte quase sem água nenhuma, o banco onde eu estivera sentada com­pletamente retorcido e revirado e a porta da sala de aula do professor Walden em pandarecos.
Compreensivelmente, eles surtaram e chamaram a polí­cia. O pessoal de uniforme estava por toda parte, colhen­do impressões digitais e tirando medidas, como a distância que a cabeça de Junipero Serra percorrera e a velocidade em que precisava ter voado para fazer tantos buracos numa por­ta feita de madeira com espessura de sete centímetros, e coisas assim. Eu vi um sujeito metido num jaquetão de cou­ro azul-marinho conversando com o padre Dominic, que parecia mesmo muito, mas muito cansado. Não consegui que ele me visse, e concluí que teria de esperar o fim da for­matura para sair de fininho e me desculpar com ele.
Na formatura, a irmã Ernestine, que era a vice-diretora, disse que aquilo tinha sido feito por vândalos. Um bando de vândalos tinha invadido a sala de aula do professor Walden e cometido aquele desatino todo na escola. Felizmente, acrescentou, o cálice e a bandeja de ouro maciço usados para o vinho e as hóstias do sacramento não tinham sido roubados e continuavam em seu devido lugar no altar da igreja. Os vândalos tinham decapitado violentamente o fundador do nosso colégio, mas deixaram em paz o que era realmente valioso. Se algum de nós soubesse alguma coisa sobre aquela terrível violência, deveria informar imedia­tamente. E se não nos sentíssemos à vontade para fazê-lo pessoalmente, poderíamos informar anonimamente - monsenhor Constantine estaria ouvindo confissões duran­te toda a manhã.
Corta essa... Não era culpa minha se a Heather tinha ensandecido completamente. Nada disso. Se alguém tinha que se confessar era ela.
Ali na formatura eu estava bem atrás da Cee Cee que mal conseguia esconder sua felicidade com o que tinha acontecido; dava até para ver a manchete se formando em sua mente: "Vândalos arrancam a cabeça do padre Serra". Estiquei um pouco o pescoço para tentar ver os veteranos. E se o Bryce estivesse lá? Eu não estava conseguindo vê-lo. Talvez o padre Dom já tivesse falado com ele e ele tivesse voltado para casa. Ele não podia deixar de ter visto que aquele estrago todo ali no pátio decorria de muita agitação espiritual, e não humana. E eu esperava que o padre Dom não tivesse recorrido aos piolhos.
Tudo bem, era mais em mim do que no Bryce que eu es­tava pensando. Eu queria muito que o nosso encontro de sábado desse certo, e não que fosse cancelado por causa de piolhos. Por acaso é algum crime? Não é possível que uma garota comum tenha de passar o tempo todo enfrentan­do distúrbios psíquicos. Um pouquinho de romance também não faz mal nenhum.
Mas é claro que assim que a formatura acabou e eu ten­tei me encaminhar depressinha para o gabinete do padre Dom, a irmã Ernestine me apanhou com a boca na botija, no exato momento em que eu tentava passar por baixo de uma das fitas amarelas, e foi dizendo:
- Espera aí um pouquinho, senhorita Simon. Talvez lá em Nova York as pessoas possam ignorar fitas de isolamento da polícia, mas aqui na Califórnia não é nada recomendável.
Eu me endireitei. Quase tinha conseguido... Fiquei pen­sando umas coisas nada agradáveis sobre a irmã Ernestine, mas consegui dizer educadamente:
Puxa, irmã, sinto muito. É que eu preciso chegar ao gabinete do padre Dominic.
O padre Dominic - disse friamente irmã Ernestine - está muito ocupado esta manhã. Ele está reunido com os policiais por causa do lamentável incidente da noite passa­da. Não vai poder falar com ninguém mais pelo menos até depois do almoço.
Eu sei que provavelmente não é certo ficar pensando em dar um golpe de caratê no pescoço de uma freira, mas não conseguia me impedir. Ela estava me deixando nervosa.
- Deixa eu lhe dizer uma coisa, irmã - continuei. - O padre Dominic pediu que eu viesse falar com ele hoje de manhã. Ele quer ver uns... uns documentos que eu trouxe da minha antiga escola. Eu tive de pedir que mandassem esses documentos por correio especial lá de Nova York, e eles acabam de chegar...
Fiquei achando que tinha reagido com incrível rapidez mental, inventando aquela história de documentos e cor­reio especial, mas a irmã Ernestine esticou o braço e disse:
- Entregue-os a mim e eu os faço chegar ao padre. Droga!
- É... - disse eu, recuando. - Pode deixar. Acho que eu vou... vou então falar com ele depois do almoço.
Irmã Ernestine me olhou com um jeito de "eu sabia" e voltou sua atenção para o inocente garoto que caíra na besteira de ir ao colégio de jeans, uma falta imperdoável. O guri tentou se justificar humildemente, dizendo que eram as únicas calças limpas que tinha naquele dia, mas a irmã Ernestine ficou firme. Firme, infelizmente, no exato lugar por onde eu poderia passar a caminho do gabinete do di­retor, tratando de anotar a falta do aluno.
Eu não tinha outra opção senão ir para a sala de aula. Afinal, que poderia dizer ao padre Dominic que ele já não soubesse? Eu tinha certeza de que ele sabia que a Heather é que tinha devastado o colégio, e que eu tinha quebrado a janela da sala do professor Walden. Provavelmente ele nem ia estar assim tão satisfeito comigo, logo, por que me preocupar? O que eu devia estar fazendo mesmo era tratar de fazer com que ele esquecesse de mim.
A não ser que... onde andaria a Heather?
Pelo que eu podia imaginar, ela ainda devia estar se recuperando de sua fúria assassina da noite anterior. Não vi qualquer sinal dela quando me encaminhei para a sala de aula do professor Walden para o primeiro período, o que era bom sinal: significava que o padre Dominic e eu teríamos tem­po para fazer algum plano antes que ela voltasse a atacar.
Enquanto assistia à aula tentando me convencer de que tudo ia dar certo, eu não podia deixar de sentir uma certa pena do professor Walden. Ele estava com a porta da sua sala razoavelmente destruída. Até que nem parecia estar se importando tanto com a janela quebrada. Claro que todo mundo no colégio estava comentando o que havia acon­tecido. As pessoas estavam dizendo que a decapitação de Junipero Serra tinha sido uma piada de mau gosto. Mas uma piada e tanto. Uma vez, há alguns anos, contara-me Cee Cee, os veteranos tinham amarrado travesseiros nos badalos dos sinos da igreja, de modo que quando foram to­cados só saiu um ridículo som abafado. Acho que as pes­soas ficaram achando que era uma gracinha do mesmo gênero.
Se eles soubessem a verdade... O lugar da Heather, ao lado da Kelly Prescott, continuava vazio, enquanto o seu armário - que agora era meu - ainda não podia ser usado por causa do amassão provocado pelo impacto do seu corpo.
Não deixou de ser irônico que, enquanto eu estava pen­sando exatamente nisto, a Kelly levantasse o braço e, rece­bendo autorização do professor Walden para falar, pergun­tasse se ele não achava injusto que monsenhor Constantine decidisse que não haveria nenhum serviço religioso em memória da Heather.
O professor Walden recostou-se na cadeira e pôs os pés em cima da mesa. E tratou de tirar o corpo fora:
Não pergunte a mim. Eu só trabalho aqui.
Mas o senhor não acha que é injusto? - insistiu a Kelly, voltando-se para o resto da turma com seus enormes cílios cheios de rímel piscando muito. - A Heather freqüentou este colégio durante dez anos. Não dá para entender que ela não possa ser homenageada em seu próprio colégio. E para dizer a verdade eu acho que o que aconteceu ontem foi um sinal...
O professor Walden parecia estar se divertindo horrores:
Um sinal, Kelly?
Exatamente. Tenho certeza de que o que aconteceu aqui ontem à noite, inclusive aquela tora de madeira que quase matou o Bryce, tem ligação. Não acho mesmo que a estátua do padre Serra tenha sido depredada por vândalos, e sim por anjos. Anjos que estão muito danados com o fato de monsenhor Constantine não permitir que os pais da Heather realizem seu funeral aqui.
A turma toda começou a cochichar. As pessoas ficavam olhando nervosas para o lugar vazio da Heather. Geralmente eu não falo muito no colégio, mas aquela eu não podia deixar passar. Disse então:
- Você está dizendo então que foi um anjo que quebrou esta janela aqui atrás de mim, Kelly?
Ela precisou virar-se para me ver:
Bem... - fez ela. - Pode ter sido...
Certo. E você acha que foram anjos que arrombaram a porta da sala, arrancaram a cabeça da estátua e arrasaram o pátio?
Kelly esticou o queixo para a frente.
- Sim - disse. - Acho sim. Foram anjos inconformados com a decisão de monsenhor Constantine de não permitir que a gente homenageie a Heather.
Eu balancei a cabeça.
- Besteira - disse.
Kelly levantou as sobrancelhas:
Como?!
Besteira, Kelly. Acho que a sua teoria é pura besteira. A Kelly adquiriu uma coloração avermelhada das mais interessantes. Acho que ela provavelmente estava lamen­tando ter-me convidado para a festa na piscina.
Você não pode ter certeza de que não foram anjos, Suze - disse ela toda azeda.
Na verdade posso, pois pelo que sei anjos não san­gram, e o carpete estava cheio de sangue desde o lugar on­de o vândalo se cortou ao arrombar a janela até aqui. Foi por isto que a polícia cortou pedaços do carpete para exa­miná-los.
A Kelly não foi a única a engolir em seco. Todo mundo meio que surtou. Provavelmente eu não devia ter falado do sangue, ainda mais porque era meu, mas não podia deixar que ela ficasse dizendo que era tudo por causa dos anjos. Anjos uma droga. O que ela estava pensando? Que estava no cinema?
- Muito bem, muito bem - interrompeu o professor Walden. - Agora, pessoal, está na hora do segundo perío­do. Suzannah, posso falar com você um instantinho?
Cee Cee virou-se para ficar abanando aqueles cílios dela na minha direção.
- Agora chegou a sua vez, otária - disse.
Mas ela nem estava sabendo como podia estar certa. Bastava que qualquer um desse uma olhada nos band-aids que estavam no meu pulso, e ficaria sabendo que eu sabia por experiência própria de onde vinha aquele sangue.
Por outro lado, ninguém podia ter algum motivo para suspeitar de mim, confere?
Fui me aproximando da mesa do professor Walden com o coração na boca. Ele vai te entregar, pensei, furiosa. Você é uma negação, Suzannah.
Mas o professor Walden só queria me cumprimentar pelas notas de pé de página da minha redação sobre a bata­lha de Bladensburgo, que ele havia notado quando eu a en­treguei.
Ah... - disse eu. - Não é nada demais, professor.
Sim, mas notas de pé de página... - suspirou ele. - Desde que eu dava aulas para adultos na escola comuni­tária, nunca mais tinha voltado a ver notas de pé de pági­na serem usadas corretamente. Realmente, você fez um excelente trabalho.
Eu balbuciei um modesto obrigado. Eles não precisavam ficar sabendo que eu entendia tanto da batalha de Bladensburg porque uma vez tinha ajudado um veterano da guer­ra a levar dois antepassados dele até o local onde fora en­terrado um saco de dinheiro que ele deixara cair na luta. Podem ser mesmo bem engraçadas as coisas que ficam impedindo as pessoas de seguirem com sua vida... ou melhor, com sua morte.
Eu estava quase dizendo ao professor Walden que gostaria muito, em condições normais, de ficar batendo um bom papo sobre grandes batalhas americanas, mas que tinha de ir (eu ia ver se a irmã Ernestine ainda estava montando guarda no caminho para o gabinete do padre Dom), quan­do ele me deteve com estas simples palavras:
- É engraçado, realmente, que a Kelly tenha se referido daquela maneira à Heather, Suzannah.
Eu olhei para ele desconfiada:
Ah, é? Como assim?
Bem, não sei se você sabia, mas a Heather era vice-presidente da turma dos segundanistas, e agora que não a temos mais aqui eu estou recolhendo indicações para o cargo. E acredite ou não, você foi indicada. Doze vezes por enquanto.
Meus olhos devem ter saltado da órbita. Esqueci com­pletamente que eu tinha de me arrancar dali para ir falar com o padre Dominic.
- Doze vezes?!
- Sim, é estranho, não é mesmo? Eu não conseguia acreditar.
Mas eu só estou aqui há um dia!
O fato é que você causou uma forte impressão. Eu mesmo me arriscaria a dizer que você não fez exatamente inimigos ontem quando ameaçou quebrar os dedos da Debbie Mancuso depois da aula. Ela não é das colegas mais queridas...
Eu fiquei olhando para ele. Quer dizer então que o pro­fessor Walden realmente tinha ouvido a minha ameaça. O fato de ele ter ouvido e não me ter mandado direto para o castigo me fez admirá-lo de uma maneira que nenhum pro­fessor antes havia merecido.
E acho também que o fato de você ter empurrado o Bryce Martinson quando aquela tora de madeira vinha na direção dele também deve ter ajudado um pouco - acres­centou.
Uau! - fiz eu.
Provavelmente nem preciso lembrar aqui que na minha antiga escola eu não era certamente aquela que ganhava os concursos de popularidade. Eu nem me dava ao trabalho de me oferecer para ser líder de torcida ou madrinha do time. Mesmo considerando que na minha escola antiga ser líder de torcida era considerado uma enorme perda de tem­po e que no Brooklyn não é exatamente um elogio ser cha­mada de madrinha de alguma coisa, o fato é que eu nun­ca teria conseguido ser qualquer das duas coisas. E ninguém - mas ninguém mesmo - nunca tinha me indicado antes para o que quer que fosse.
Eu estava orgulhosa demais para seguir meu instinto, que me dizia: agradeça, mas diga que não, e saia correndo.
- Bem... - comecei. - Quais são as obrigações do vice- presidente?
O professor Walden explicou:
- Ajudar o presidente a decidir como gastar a verba da turma, principalmente. Não é muita coisa, um pouco mais de três mil dólares. A Kelly e a Heather estavam planejan­do promover uma festa no Carmel Inn, mas...
Três mil dólares!? - repeti, provavelmente com o queixo caído.
É, eu sei que não é muito...
E a gente pode gastar como quiser? - Minha mente estava girando. - Quer dizer que se a gente quisesse fazer uma série de festinhas na praia poderíamos?
O professor Walden me olhou com curiosidade.
- Claro. Mas o resto da turma precisa aprovar. Desconfio que pode estar rolando na administração um papo sobre usar o dinheiro da turma para consertar a estátua do padre Serra, mas...
O que quer que o professor Walden fosse acrescentar, no entanto, não conseguiu. A Cee Cee voltou correndo para a sala, os olhos muito arregalados por trás das lentes de seus óculos de vidro colorido:
- Venham, venham depressa! - berrava ela. - Aconteceu um acidente! O padre Dominic e o Bryce...
Eu saí correndo feito uma bala:
O quê? - perguntei, com muito mais ênfase do que seria desejável. - Que aconteceu com eles?
Acho que estão mortos!


Capítulo 14



 Eu corri tão depressa que mais tarde a irmã Mary Claire, a treinadora de corrida, perguntou se eu queria entrar para a equipe.
Mas a Cee Cee estava completamente enganada. Padre Dominic não estava morto. Nem o Bryce.
E o que havia acontecido não tinha nada a ver com aci­dente.
Como podia imaginar praticamente qualquer um, acon­tecera o seguinte: o Bryce entrou no gabinete do diretor por algum motivo, ninguém sabe qual. Talvez um passe de atra­so, já que ele tinha perdido a formatura - só que não, como eu esperava, porque o padre Dom o tivesse encontrado. O Bryce estava de pé em frente à escrivaninha da secretária, embaixo do crucifixo gigante que, segundo o Adam, derra­maria lágrimas de sangue se alguma vez houvesse uma formanda virgem na Academia da Missão (a secretária não estava lá porque estava servindo café aos guardas que continua­vam lá pelo pátio) quando aquela enorme cruz de quase dois metros de altura de repente se desgarrou da parede. Padre Dominic abriu a porta do seu gabinete exatamente na hora em que ela estava caindo para a frente, a ponto de esmagar o crânio do Bryce. Mas, como o padre Dominic deu um empurrão nele, só a sua clavícula foi atingida.
Infelizmente, o padre Dominic acabou recebendo todo o peso da cruz, que o projetou no chão, esmagou suas coste­las e quebrou uma de suas pernas.
O professor Walden e um grupo de irmãs ficou tentan­do fazer com que voltássemos para a sala de aula em vez de ficar atravancando a galeria, à espera de que o padre Dom e o Bryce saíssem do gabinete. Uma parte do pessoal se afastou quando a irmã Ernestine ameaçou todo mundo de castigo, mas não eu. Eu não dava a menor bola se ficas­se de castigo. Eu precisava saber se eles estavam bem. Irmã Ernestine disse alguma coisa desagradável, dando a enten­der que talvez a srta. Simon não se desse conta de como era ruim ficar de castigo na Academia da Missão. Eu respondi que, se ela estivesse me ameaçando com castigos corporais, eu diria à minha mãe, que era apresentadora de um jornal local e chegaria lá com um câmera tão depressa que não daria nem tempo para alguém dizer uma Ave Maria.
Irmã Ernestine ficou bem calada depois disso.
Foi pouco depois que eu vi que o Mestre estava pertinho de mim. Como as crianças menores têm de ficar bem longe, do outro lado do colégio, eu olhei para ele e disse:
E o que você está fazendo aqui?
Quero ver se ele está bem - respondeu, com as sardas se destacando mais que nunca, tão pálido ele estava.
Você vai arranjar problema - adverti. Irmã Ernestine estava ocupadíssima anotando os nomes das pessoas.
Não dou a mínima - fez o Mestre. - Eu quero ver.
Eu dei de ombros. Aquele Mestre era mesmo um cara en­graçado. Não tinha nada a ver com seus irmãos e não era só por causa do cabelo ruivo. Lembrei-me do comentário maldoso do Dunga sobre as chaves do carro e o "fantasma do Dave", e fiquei me perguntando até que ponto Mestre sabia alguma coisa, se é que sabia, sobre o que estava acon­tecendo ultimamente em seu colégio.
Finalmente, quando parecia que já tinham passado várias horas, eles saíram lá de dentro. Bryce foi o primeiro a apare­cer, amarrado a uma maca e gemendo, lamento dizer, como um bebezinho. Eu já quebrei e desloquei um bocado de os­sos, e podem ficar sabendo que dói, mas não a ponto de ficar lá deitada gemendo. Geralmente, quando me machuco eu nem me dou conta. Como ontem à noite, por exemplo. Quando realmente me machuco eu só consigo ficar rindo, pois dói tanto que chega a ser engraçado.
E vou ter de reconhecer que eu meio que parei de gostar tanto do Bryce depois de vê-lo agir daquela maneira como um bebê...
Especialmente quando vi o padre Dom, que foi trazido em seguida pelos paramédicos numa cadeira de rodas. Ele estava inconsciente, com os cabelos brancos caindo para o lado de um jeito tão triste e um corte parcialmente cober­to por gaze acima do olho direito. Em minha pressa de che­gar ao colégio, eu não tinha comido nada de manhã, e te­nho de reconhecer que a visão do pobre padre Dominic com os olhos fechados e sem os óculos me fez sentir meio tonta. Na realidade, pode ser que eu tenha vacilado um pouco, e provavelmente teria caído se o Mestre não tivesse apanhado a minha mão e dito, confiante:
- Fique tranqüila. Eu também fico enjoado quando vejo sangue.
Mas não foi a visão do sangue do padre Dom vazando pelo curativo em sua cabeça que me deixou enjoada. Foi a constatação de que eu havia fracassado. Eu tinha fracassado terrivelmente. Foi por pura sorte que a Heather não tinha conseguido matar os dois. Era exclusivamente por causa da rápida reação mental do padre Dom que ele e Bryce ainda es­tavam vivos. E não havia sido por minha causa. Não mesmo.
Pois se na noite anterior eu tivesse agido melhor aquilo não teria acontecido. Não teria acontecido mesmo.
Foi aí que eu fiquei danada. Danada para valer.
De repente, entendi o que eu tinha de fazer. Olhei para o Mestre e perguntei:
Há algum computador aqui no colégio? Um compu­tador com acesso à Internet?
Claro - respondeu Mestre, parecendo surpreso. - Na biblioteca. Por quê?
Eu larguei sua mão.
- Esquece. Volte para sua sala.
Suze...
Quem não estiver na sala de aula dentro de um minuto será suspenso por tempo indeterminado - anunciou irmã Ernestine imperiosamente.
Mestre puxou a minha manga.
O que está acontecendo? - quis saber. - Para que você quer um computador?
Para nada - respondi. Por trás do portão de ferro batido que dava para o estacionamento, os para-médicos esta­vam fechando as portas das ambulâncias que levariam padre Dom e o Bryce. Um segundo depois, estavam se afastando em meio a sirenes e luzes piscando.
É que... São coisas que você não entenderia, David. Não são coisas científicas.
Mestre respondeu, muito indignado:
- Sou capaz de entender muita coisa que não é científi­ca. Música, por exemplo. Aprendi sozinho a tocar Chopin em meu teclado eletrônico. Isto não tem nada de científi­co. O gosto pela música é puramente emocional, assim como o gosto pela arte. Sou capaz de entender arte e músi­ca. Portanto, corta essa, Suze. Pode me contar. Tem alguma coisa a ver com... aquilo que a gente estava comentando na outra noite?
Eu baixei o rosto e olhei para ele surpresa. Ele deu de ombros.
- Era a conclusão lógica. Fiz um rápido exame da está­tua (rápido porque não consegui me aproximar como gostaria, por causa das fitas isolantes e da equipe que recolhia provas) e não encontrei marcas de serra ou qualquer outro sinal da maneira como a cabeça foi cortada. Não existe a menor possibilidade de cortar bronze tão certinho sem usar instrumentos pesados, que nunca poderiam ter sido leva­dos até ali...
- Sr. Ackerman! Está querendo ser anotado! - ameaçou irmã Ernestine, que não parecia estar brincando.
David fez um ar de irritação.
Não - respondeu.
Não o quê?
Não, irmã. - Ele olhou em minha direção, como se pedisse desculpas. - Acho melhor ir andando. Mas será que podemos voltar a falar deste assunto à noite em casa? Eu descobri umas coisas sobre... bem, sobre aquilo que você me pediu. Você sabe. - E arregalou os olhos, cúmplice. - Sobre a casa.
Ah, sim - respondi. - Genial. OK.
Sr. Ackerman!
David voltou-se para ver a freira.
- Espere só um minuto, OK, irmã? Estou tentando con­versar aqui com ela.
O rosto dela, uma mulher de meia-idade, ficou comple­tamente lívido. Parecia incrível. Ela reagiu da maneira mais infantil, como se fosse ela que tivesse doze anos, e não o David.
- Faça o favor de me acompanhar, rapazinho! - disse, puxando-o pela orelha.
- Estou vendo que sua meia irmã pôs na sua cabeça algumas idéias muito interessantes da cidade grande sobre como os meninos devem falar com os mais velhos...
David emitiu um ruído como se fosse um animal ferido, mas a acompanhou, recurvado como um camarão de tan­ta angústia que estava sentindo. Eu juro que não teria feito nada, nada mesmo, se de repente não tivesse visto a Heather de pé por trás do portão, rindo às gargalhadas.
- Minha nossa! - exclamou ela, meio engasgada, de tan­to que estava rindo. - Se você tivesse visto a sua cara quan­do disseram que o Bryce estava morto! Juro! Foi a coisa mais engraçada que eu já vi! - Ela parou de rir para ajeitar seus longos cabelos e prosseguiu: - Sabe o que mais? Acho que vou esmagar mais algumas pessoas hoje. Talvez comece com aquele carinha ali...
Eu avancei em direção a ela.
- Se encostar a mão no meu irmão eu enfio a sua cara de volta naquele túmulo de onde saiu rastejando.
Heather limitou-se a rir, mas a irmã Ernestine, que, só então me dei conta, pensou que eu me dirigia a ela, soltou o David tão depressa que parecia que o garoto de repente tinha pegado fogo.
- O que foi que disse?
Irmã Ernestine estava ficando meio roxa. Atrás dela, Heather se escangalhava de rir,
- Agora você conseguiu mesmo. Detenção por uma semana!
E sem mais nem menos desapareceu, deixando mais uma barafunda dos diabos para eu resolver.
Para surpresa tanto minha quanto, suponho, dela pró­pria, irmã Ernestine só conseguia ficar olhando para mim. David estava ali esfregando a orelha com ar de espanto. Então eu disse o mais depressa que pude:
- Agora vamos voltar para a sala. Só estávamos preocu­pados com o padre Dominic e queríamos acompanhá-lo até a saída. Obrigada, irmã.
Irmã Ernestine continuou olhando fixo para mim sem dizer nada. Era uma mulher grande, não tão alta quanto eu em minhas botas negras de salto alto, mas muito mais cor­pulenta, com aqueles seios enormes. Entre os dois pendia uma cruz de prata. Inconscientemente, irmã Ernestine to­cava a cruz com os dedos enquanto me olhava. Mais tarde, Adam, que tinha visto a cena toda, diria que irmã Ernestine segurava com força a cruz, como se quisesse proteger-se de mim. O que não é verdade. Ela limitou-se a tocar a cruz, como se quisesse ter certeza de que continuava lá. E esta­va. Com toda certeza.
Acho que foi naquele momento que o David deixou de ser Mestre para mim, e passou a ser mesmo David.
- Não se preocupe - disse-lhe pouco antes de nos separar­mos, pois ele parecia tão preocupado e tão engraçadinho com seu cabelo ruivo, suas sardas e suas orelhas pontudas. Estiquei a mão e desarrumei aquela cabeleira vermelha: -Vai dar tudo certo.
David olhou para mim.
- Como você sabe? - perguntou.
Eu recolhi minha mão.
Pois é claro que a verdade é que eu não sabia. Quer di­zer, que tudo ia dar certo. Muito pelo contrário, na reali­dade.


Capítulo 15


O almoço já tinha quase acabado quando eu finalmente consegui pegar o Adam de jeito. Eu tinha passado quase a aula inteira com a cara enfiada num computador na biblioteca. Ainda não tinha comido, mas a verdade é que não estava com a menor fome.
- Ei - chamei, sentando ao lado dele e cruzando as per­nas de um jeito que minha saia preta subisse só um pouqui­nho. - Você veio de carro para o colégio hoje de manhã?
Adam bateu no peito. Ele tinha começado a beliscar um salgadinho no exato momento em que eu me sentei. Quan­do finalmente conseguiu que ele descesse, disse, todo orgu­lhoso:
- Claro que vim. Agora que estou com a minha carteira, sou uma verdadeira máquina de dirigir. Você devia ter saído com a gente ontem à noite, Suze. Foi o máximo! Depois que a gente saiu do Café Clutch, fomos dar uma volta pela Avenida Dezessete. Você já fez isso alguma vez? Cara, com a lua que estava fazendo ontem à noite, o mar estava tão bonito...
- Será que você topava me levar a algum lugar depois das aulas?
Adam levantou-se de repente, assustando duas enormes gaivotas que estavam perto do banco onde ele se sentara ao lado de Cee Cee.
Está brincando? Aonde quer ir? É só dizer, Suze, e eu te levo. Las Vegas? Quer ir a Las Vegas? Nenhum proble­ma. Eu tenho 16 anos, você tem 16 anos. Podemos nos casar lá com a maior facilidade. Meus pais deixam a gente morar com eles, sem problema. Algum problema em ficar no meu quarto? Juro que a partir de agora eu tomo cuida­do com as coisas...
Adam - interferiu a Cee Cee. - Deixa de ser espaçoso. Duvido muito que ela queira casar com você.
Não acho uma boa idéia casar de novo antes de conse­guir divórcio do meu primeiro marido - disse eu, com a cara mais séria. - O que eu estou querendo mesmo é ir ao hospital visitar o Bryce.
Os ombros do Adam caíram.
- Ah - fez ele, sem conseguir esconder o desânimo. - Só isso?
Aí eu saquei que tinha dito a coisa errada. Mas não dava para voltar atrás. Felizmente, a Cee Cee veio em meu so­corro, dizendo, bem estudada:
- Sabe o que mais, uma matéria sobre o Bryce e o padre Dominic bravamente lutando para se recuperar dos ferimentos não seria uma má idéia para o jornal. Você se im­porta se eu for com você, Suze?
- Claro que não - respondi, o que era, naturalmente, uma mentira. Com a Cee Cee do lado, seria difícil fazer tudo que eu tinha de fazer sem precisar explicar um monte de coisas...
Mas que escolha eu tinha? Nenhuma.
Como eu já tinha garantido a minha carona, comecei a procurar o Soneca. Encontrei-o cochilando e o cutuquei com a ponta da bota para acordá-lo. Quando ele começou a piscar para mim por trás dos óculos escuros, eu disse que não esperasse por mim depois das aulas, pois já tinha ar­ranjado carona. Ele resmungou e voltou a dormir.
Dei um jeito então de achar uma cabine telefônica. É es­tranho quando a gente não sabe o telefone de nossa própria mãe. Quer dizer, eu ainda sabia de cor o nosso número lá no Brooklin, mas não tinha a menor idéia de qual era meu novo número de telefone. Ainda bem que o havia anota­do em minha caderneta. Fui até a letra S, de Simon, encon­trei o número e disquei. Eu sabia que não tinha ninguém em casa, mas queria me garantir por todos os lados. Aí dei­xei gravada na secretária eletrônica a mensagem de que talvez me atrasasse na volta do colégio, pois estava saindo com dois novos amigos. Eu tinha certeza de que a minha mãe ia adorar quando voltasse da estação e ouvisse aquela mensagem. Quando a gente ainda morava no Brooklin, ela estava sempre preocupada, achando que eu era anti-social. Estava sempre dizendo:
- Suzinha, você é uma moça tão bonita... Não entendo por que nenhum rapaz telefona para você. Quem sabe se você não parecesse tão... bem, tão durona?... Que tal deixar a jaqueta de couro descansar um pouco?
Ela provavelmente morreria de alegria se estivesse no estacionamento depois das aulas e ouvisse o Adam quan­do eu me aproximei do seu carro.
- Olha só, Cee, aqui está ela - disse ele, abrindo a porta do carona do seu carro, que era simplesmente um New Beetle, o novo fusca (acho que os pais do Adam não estavam propriamente passando necessidade). - Venha, Suze, você vai sentar bem aqui ao meu lado.
Através dos meus óculos escuros - como sempre, a bru­ma da manhã já se dissipara, e agora, às três da tarde, o sol estava castigando do alto de um céu de um azul perfeito -eu vi a Cee Cee esparramada no banco de trás.
Hmm, é mesmo? - disse. - Mas a Cee Cee chegou pri­meiro. Eu fico lá atrás mesmo. Não dou a mínima.
Não quero nem saber - cortou o Adam, segurando a porta aberta para mim. - Você é que é a garota nova. A garo­ta nova sempre senta no banco da frente.
Isso mesmo, até se recusar a dormir com ele - soltou a Cee Cee lá do fundo do banco de trás. - Aí também será relegada ao banco de trás.
Adam retrucou com voz cavernosa:
- Finja que não está ouvindo esta voz das profundezas. Eu sentei no banco da frente e Adam educadamente fe­chou a porta para mim.
- Está falando sério? - perguntei a Cee Cee, virando-me para trás enquanto o Adam dava a volta no carro para entrar.
Cee Cee piscou por trás de suas lentes protetoras:
- Você acha realmente que alguém seria capaz de dormir com ele?
Tratei de processar a resposta.
Quer dizer então que a resposta é não - disse.
Acertou na mosca - respondeu a Cee Cee no exato mo­mento em que o Adam entrava no carro.
Muito bem - disse o motorista, aquecendo os dedos antes de ligar a ignição. - Acho que essa história toda com a estátua, o padre Dom e o Bryce deixou todo mundo muito estressado. Meus pais têm uma jacuzzi, o que é perfeito para a tensão que todos nós sofremos hoje, e sugiro então que a gente passe primeiro lá em casa para um bom banho...
Sabe o que mais? - disse eu. - Vamos deixar a jacuzzi para outra vez e ir direto para o hospital. Talvez depois, se der tempo...
Uau! - fez o Adam, parecendo que estava nas nuvens. - Existe um deus lá no céu!
Lá do banco de trás, a Cee Cee cortou a animação dele:
- Ela disse talvez, seu otário. Minha nossa, tente se controlar.
Adam me deu uma olhada enquanto ia saindo da vaga:
Estou forçando a barra?
Hmm - disse eu. - Talvez...
O problema é que há muito tempo não aparecia uma garota nem de longe interessante por aqui. - Enquanto o Adam dizia isto, eu constatava algo aliviada que ele dirigia com muito cuidado. - Há dezesseis anos eu estou cercado de Kellys e Debbies. É um enorme alívio ter uma Suzannah Simon por perto para variar. Você simplesmente acabou com a Kelly hoje de manhã quando disse que anjos não deixam marcas de sangue.
Adam continuou com seu discurso até o hospital. Eu não entendia como a Cee Cee era capaz de agüentar aquilo. A menos que eu estivesse muito enganada, ela sentia por ele exatamente o mesmo que ele sentia por mim. Só que eu não achava que o interesse dele por mim era muito sério, pois se fosse ele não estaria brincando com o assunto. Já o interesse da Cee Cee por ele me parecia ser verdadeiro. Claro que ela o provocava e até o insultava, mas eu tinha olha­do pelo espelho retrovisor umas duas vezes e vi que ela esta­va olhando para ele de um jeito que só podia ser conside­rado apatetado.
Mas só quando ela sabia que ele não estava olhando.
Quando o Adam parou em frente ao hospital de Carmel, eu pensei que ele tinha parado num clube ou numa casa particular por engano. Claro que seria uma casa daquelas muito grandes mesmo, mas lá na Califórnia não seria as­sim nada de mais...
Foi então que eu vi uma discreta plaqueta com a inscri­ção "Hospital". Saímos do carro e atravessamos um jardim impecável, com canteiros cheios de flores brotando. O lugar estava cheio de beija-flores e eu voltei a ver algumas daque­las palmeiras que nunca esperara ver tão ao norte do Equador.
No balcão de informações, perguntei pelo quarto de Bryce Martinson. Eu não tinha certeza de que ele havia dado en­trada, mas sabia por experiência própria, infelizmente, que, em caso de acidente com ferimentos de cabeça, geralmente a pessoa passa a noite no hospital para observação. E esta­va certa. Bryce estava lá, assim como o padre Dominic, em quartos bem em frente um do outro.
Nós não éramos os únicos a estar visitando os dois, nem de longe. O quarto do Bryce estava cheio. Aparentemente não havia limite para o número de pessoas autorizadas a entrar num quarto de paciente, e parecia até que quase toda a classe dos veteranos da Academia Missionária Junipero Serra estava ali no quarto do Bryce. Bem no meio daquele quarto ensolarado e alegre, com flores por todo lado, o Bryce estava deitado com o ombro engessado e o braço direito pendurado acima da cabeça. Estava com aparência muito melhor do que de manhã, principalmente, suponho, porque o haviam enchido de analgésicos. Quando me viu na por­ta, ele abriu aquele sorriso largo e disse, prolongando bem as sílabas:
Suze!
Puxa, e aí, Bryce? - disse eu, encabulada. Todo mundo tinha se voltado para ver com quem ele estava falando. Quase só havia garotas ali. E todas fizeram o que tantas garotas costumam fazer: me filmaram da cabeça aos pés (eu nem tinha tomado banho ao acordar porque estava tão atrasada, de modo que não estava exatamente com o cabelo em seus melhores dias...).
E todas deram aquele sorrisinho afetado.
Não de um jeito que o Bryce tivesse notado. Mas deram.
Mas ainda que não desse a menor bola para o que pudesse estar pensando de mim um bando de garotas que nunca tinha encontrado e provavelmente nunca voltaria a encon­trar, eu fiquei vermelha.
Pessoal - disse o Bryce, parecendo meio alto, mas de um jeito simpático. - Esta é a Suze. Suze, é o meu pessoal.
Ah - respondi. - Tudo bom?
Uma das garotas, que estava sentada na beira da cama do Bryce num vestido de linho branco muito engomadinho, foi dizendo:
Ah, você é a garota que salvou a vida dele ontem. A meia-irmã do Jake.
Isso aí, eu mesma - disse. Não havia a menor, mas a menor possibilidade de que eu conseguisse perguntar ao Bryce o que precisava perguntar-lhe com todas aquelas pes­soas ali no quarto. Cee Cee tinha empurrado o Adam para o quarto do padre Dom, para que eu pudesse ficar um pouco sozinha com o Bryce, mas parecia que não tinha adiantado nada. Não havia a menor possibilidade de eu conseguir ficar um minuto sozinha com o cara. A menos que...
A menos que eu pedisse.
- Bom - fui dizendo. - Preciso falar com o Bryce um instantinho. Será que vocês se importam?
A garota que estava na beira da cama foi apanhada de surpresa.
- Pode falar. Não somos nós que vamos impedir.
Eu a olhei bem nos olhos e disse, com minha voz mais firme de mediadora:
- Preciso falar com ele sozinha.
Alguém deu um assobio longo e profundo. Ninguém se mexeu. Até que o Bryce falou:
- Olha aí, rapaziada. Vocês ouviram o que ela disse. Po­dem ir saindo.
Deus abençoe a morfina, é tudo que posso dizer.
A classe dos veteranos foi então saindo de má vontade, todo mundo me lançando olhares fulminantes. Bryce er­gueu uma das mãos, que estava presa a alguma coisa, e disse:
- Vem cá, Suze. Dá uma olhada só nisso.
Eu me aproximei da cama. Agora que estávamos sozi­nhos, dava para ver que o Bryce conseguira um quarto bem grande. Era também muito alegre, pintado de amarelo, com a janela dando para o jardim.
- Viu só o que eu consegui? - perguntou Bryce, mostrando-me um pequeno aparelho que cabia na palma da mão, com um botão no alto. - Uma bomba de analgésico só para mim. A qualquer momento que eu sentir dor, basta aper­tar este botão e ela libera codeína direto no meu sangue. Legal, não?
O cara estava em outra. Estava mais que evidente. De re­pente, eu me dei conta de que minha missão não seria as­sim tão difícil, no fim das contas.
- Beleza, Bryce - respondi. - Fiquei mesmo muito chatea­da quando soube do seu acidente.
Uau! - fez ele, com um risinho de satisfação. - Pena que você não estava lá. Talvez pudesse ter me salvado como da outra vez.
É - disse eu, pigarreando meio sem jeito. - Você parece que está atraindo acidentes ultimamente...
É mesmo - respondeu ele, fechando os olhos e deixando-me em pânico ante a idéia de que estivesse adorme­cendo. Mas logo depois abriu os olhos e me olhou com ar meio triste. - Suze, acho que não vou conseguir, não.
Eu fiquei olhando para ele. Caramba, que bebezão!
- Claro que vai. Você só está com a clavícula quebrada, mais nada. Não demora nada e vai estar bom.
Ele deu um risinho:
Não, não... Estou dizendo que acho que não vou con­seguir ir ao nosso encontro de sábado à noite.
Ah!... - disse eu, piscando. - Claro, claro que não. Nem eu estava mais pensando nisso. Preciso te pedir um favor, Bryce. Talvez você ache estranho... (na verdade, dopado do jeito que estava, duvido que achasse estranho) mas eu es­tava aqui me perguntando se, quando você e a Heather ain­ da namoravam, ela não... nunca lhe deu nada?
Ele ficou piscando para mim meio desorientado.
Nunca me deu nada? Você quer dizer um presente? - Sim.
Claro. Ela me deu um suéter de caxemira no Natal. Eu fiz que sim com a cabeça. Um suéter de caxemira não ia adiantar nada para mim.
-Tudo bem. Mais alguma coisa? Talvez... um retrato dela?
Ah, sim! - respondeu ele. - Claro, claro. Ela me deu seu retrato no colégio.
É mesmo? - fiz eu, tentando não parecer muito excitada. - E por acaso você está com ele aqui? Na sua carteira, talvez?
Era uma aposta arriscada, eu sabia perfeitamente, mas muitas pessoas só arrumam suas carteiras uma vez por ano, se tanto...
Ele fez uma careta. Provavelmente pensar era doloroso para ele, pois logo em seguida tratou de injetar o analgési­co umas duas vezes. Em seguida, ficou com a expressão re­laxada.
- Claro - disse então. - Ainda tenho a foto dela. Minha carteira está naquela gaveta ali.
Eu abri a gaveta da mesa ao lado de sua cama. E lá esta­va realmente a carteira, fininha, de couro preto. Eu a apanhei e a abri. A foto da Heather estava entre um cartão American Express e um bilhete de teleférico de estação de esqui. Ela estava cheia de glamour, com toda aquela cabeleira loura caindo num dos ombros e olhando insinuante para a câ­mera. Nas minhas fotos de colégio, eu sempre fico parecen­do como se alguém tivesse gritado "Fogo!". Não conseguia entender como um cara que estava saindo com uma garo­ta como aquela podia convidar para sair alguém como eu.
- Você me empresta este retrato? - perguntei. - Preciso dele só por um tempinho. Devolvo logo. - O que era uma mentira, mas achei que de outro modo ele não me empres­taria a foto.
Claro, claro - disse ele, sacudindo uma das mãos.
Obrigada.
Enfiei a foto na minha mochila no exato momento em que uma mulher alta, de seus 40 anos, foi entrando, cober­ta de jóias e trazendo uma caixa de doces.
Bryce, querido - disse ela. - Onde estão seus amiguinhos? Eu fui até a padaria para trazer uns beliscos.
Daqui a pouco eles voltam, mãe - respondeu o Bryce meio sonolento. - Esta é a Suze. Ela salvou a minha vida ontem.
A Sra. Martinson estendeu a mão direita, macia e bron­zeada.
- Prazer em conhecê-la, Susan - disse ela, mal tocando os meus dedos. - Você consegue acreditar no que aconteceu com o pobrezinho do Bryce? O pai dele está furioso. Como se as coisas já não estivessem suficientemente com­plicadas, com aquela maldita garota... bem, você sabe. E agora isto. Juro que fica parecendo que aquele colégio está amaldiçoado ou algo assim.
Eu disse:
- É. Bem, prazer em conhecê-la. É melhor eu ir.
E ninguém protestou contra minha partida: a Sra. Martin­son porque pouco estava ligando, e o Bryce porque tinha adormecido.
Encontrei Adam e Cee Cee em frente a um quarto do outro lado do corredor. Enquanto eu estava me aproximan­do deles, Cee Cee levou um dedo aos lábios:
- Ouça - disse ela.
Eu fiz exatamente o que ela sugeria.
Simplesmente não podia ter acontecido em pior hora - dizia uma voz conhecida, de homem mais velho. - E ago­ra que faltam menos de duas semanas para a visita do arce­bispo?...
Sinto muito, Constantine - dizia o padre Dominic com a voz fraca. - Sei perfeitamente que isto deve estar sendo estressante para você.
E ainda por cima com o Bryce Martinson! Sabe quem é o pai dele? Simplesmente um dos melhores advogados de Salinas!
Padre Dom está levando um sabão - sussurrou o Adam para mim. - Pobre coitado.
Ele bem que podia simplesmente dizer a monsenhor Constantine que fosse se afogar no lago - disse Cee Cee com os olhos faiscando.
Eu sussurrei:
- Vamos ver se a gente consegue ajudá-lo. Talvez vocês pudessem distrair o monsenhor. E aí eu vou ver se o padre Dom precisa de alguma coisa. Sabe como é, Bem depressinha antes da gente ir embora.
Cee Cee deu de ombros:
Por mim tudo bem.
Estou nessa - concordou Adam.
Eu então chamei o padre Dominic em voz alta e fui en­trando no quarto.
O quarto não era tão grande nem tão alegre quanto o do Bryce. As paredes eram bege, e não amarelo, e só havia um vaso de flores. Pelo que pude perceber, a janela dava para o estacionamento. E ninguém se tinha dado ao traba­lho de pendurar o padre Dominic em alguma máquina de bombear analgésicos. Não sei que tipo de plano de saúde os padres têm, mas posso dizer que não eram tão bons quanto deveriam.
Seria pouco dizer que o padre Dominic ficou surpreso com a minha entrada. Seu queixo simplesmente caiu. Ele não parecia capaz de dizer coisa nenhuma. Mas não tinha problema, pois atrás de mim foi entrando a Cee Cee, que foi explicando:
- Puxa, monsenhor, estávamos procurando o senhor em toda parte. Gostaríamos de fazer uma entrevista exclusiva, se o senhor concordar, sobre as conseqüências do ato de vandalismo da noite passada na visita que o arcebispo está para fazer. Conseqüências negativas, certo? O senhor tem algo a dizer? Talvez o senhor pudesse dar uma chegadinha até o corredor, onde eu e meu colaborador poderemos...
Meio atarantado, monsenhor Constantine acompanhou Cee Cee até a porta, bem irritado:
- Escute aqui, mocinha...
Eu mais que depressa fui chegando para o lado do padre Dominic. Não posso dizer que estava exatamente excitada por encontrá-lo. Quer dizer, eu sabia que ele provavelmente não estava lá muito satisfeito comigo. Foi em mim que a Heather atirou a cabeça do padre Serra, e eu achava que ele provavelmente sabia disto e muito provavelmente também não estava lá simpatizando demais comigo.
Pelo menos era o que eu estava pensando. Mas é claro que estava errada. Eu sou muito boa para ficar imaginan­do o que as pessoas mortas estão pensando, mas ainda não consegui acertar muito com os vivos.
- Suzannah - disse padre Dominic com sua voz meiga.
- Que está fazendo aqui? Está tudo bem? Eu estava muito preocupado com você...
Provavelmente eu deveria ter esperado... Padre Dominic não estava zangado comigo, absolutamente. Só estava preo­cupado. Mas era ele o verdadeiro motivo de preocupação. Além daquele horrível rasgão acima de um dos olhos, ele estava completamente lívido. Ou melhor, cinzento, pare­cendo muito mais velho do que era. Só os olhos, azuis como o céu lá fora, continuavam como sempre foram, brilhantes e cheios de bom humor inteligente.
Ainda assim, fiquei de novo furiosa por vê-lo daquela ma­neira. Heather ainda não sabia, mas ia se ver comigo, e como!
- Preocupado comigo? - perguntei, olhando fixo para ele. - Por que está preocupado comigo? Não fui eu que quase fui esmagada hoje de manhã por um crucifixo.
Padre Dom sorriu, matreiro.
Não, mas acho que você talvez precise explicar uma coisa. Por que não me disse, Suzannah? Por que não me disse o que pretendia fazer? Se eu soubesse que você estava pretendendo aparecer na Missão sozinha no meio da noite, nunca teria permitido.
Foi exatamente por isto que eu não lhe disse - respondi.
- Ouça, padre, sinto muito pela estátua e pela porta da sala de aula do professor Walden e tudo mais. Mas eu precisa­va tentar falar com ela pessoalmente, entende? De mulher para mulher. Eu não sabia que ela ia ficar completamente ensandecida comigo.
Mas o que você podia esperar? Suzannah, você não viu o que ela tentou fazer com aquele rapaz ontem?...
Sim, mas aquilo dava para entender. Quer dizer, ela gostava muito dele. Ela realmente o ama loucamente. Mas eu não imaginava que fosse me perseguir também. Afinal, eu não tinha nada a ver com aquela história. Só estava tentando mostrar a ela o que ela podia fazer...
O que era exatamente o que eu vinha fazendo desde que ela começou a assombrar a Missão.
Certo. Mas a Heather não está a fim de aceitar nada que lhe propomos. É como estou lhe dizendo, a guria pirou. Agora está quietinha porque acha que conseguiu matar o Bryce e provavelmente também está exausta, mas daqui a pouco vai começar a atacar de novo, e só Deus sabe o que poderá fazer agora que sabe do que é capaz.
Padre Dominic ficou me olhando com curiosidade, com­pletamente esquecido da sua preocupação com a chegada do arcebispo.
Como assim, "agora que sabe do que é capaz"?
Bom, dá para perceber que a noite passada foi apenas um ensaio geral. Pode estar certo de que muito pior virá da Heather, agora que ela sabe o que pode fazer.
Padre Dominic balançou a cabeça, confuso.
- Você a viu hoje? Como sabe tudo isto?
Eu não podia falar sobre o Jesse para o padre Dominic. Não podia mesmo. Não era da conta dele, para começo de conversa. Mas eu também tinha a impressão de que pode­ria chocá-lo, saber que havia um sujeito vivendo no meu quarto. Sabe como é, padre Dom era um padre, essas coisas...
- Escute só - eu disse. - Tenho pensado muito nisso, e não vejo outra maneira. O senhor já tentou argumentar com ela e eu também. E veja só no que deu. O senhor está no hospital e eu preciso ficar o tempo todo olhando ao meu redor, onde quer que vá. Acho que chegou a hora de resol­ver isto de uma vez por todas.
Padre Dom piscou: - O que está querendo dizer, Suzannah? De que está falando?
Respirei fundo.
- Estou falando do que nós, mediadores, fazemos como último recurso.
Ele ainda parecia confuso.
Último recurso? Acho que não estou entendendo o que você quer dizer...
Fazer um exorcismo - disse eu.

domingo, 27 de março de 2011

Terra das Sombras - Capítulos 10 ao 12

Capítulo 10


 Era uma noite fresca e clara. De lua cheia. Ali, da frente da casa, eu a via sobre o mar, parecendo um lampião aceso - não um farol como o sol, mas uma daquelas lâmpadas de poucos watts que a gente põe em abajures re­torcidos na mesinha-de-cabeceira. O Pacífico, parecendo à distância um espelho tranqüilo, estava negro, exceto numa estreita faixa iluminada pela lua, branca como papel.
À luz da lua eu podia ver a cúpula vermelha da igreja da Missão. Mas só porque eu estava vendo a Missão não que­ria dizer que a Missão estava perto. Ficava a bem uns três quilômetros de distância. Eu trazia no bolso as chaves do Rambler, que havia subtraído meia hora antes. O metal es­tava aquecido pelo calor do meu corpo. O Rambler, que de dia era turquesa, ficava parecendo cinza naquela sombra. Bom, sei perfeitamente que não tenho carteira. Mas se o Dunga pode...
Tudo bem. Acabei vacilando. E não é melhor mesmo que eu tenha decidido não dirigir? Pois se não sabia como fa­zer... Quer dizer, não que eu não saiba dirigir. Claro que sei. É só que eu não tive muita prática, pois passei a vida intei­ra na capital mundial dos transportes públicos...
Ah, esquece. Dei meia-volta e caminhei em direção à garagem. Tinha de haver uma bicicleta em algum lugar. Três garotos, confere? Tinha de haver pelo menos uma bicicleta.
Acabei encontrando uma. Era uma bicicleta de homem, claro, com aquela barra imbecil, e um assento duro demais. Mas parecia funcionar bem. Pelo menos os pneus não esta­vam vazios.
Então pensei: muito bem, lá vou eu vestida de preto, an­dando de bicicleta pelas ruas depois de meia-noite. O que está faltando?
Não esperava mesmo encontrar alguma fita fosforescente, mas fiquei pensando que um capacete não seria mau. Havia um pendurado num cabide ao lado da garagem. Abai­xei o capuz do meu suéter e pus o capacete. Uau! Charmosa e bem protegida, só mesmo eu.
E lá fui eu, descendo a ladeira. Cascalho não é exata­mente a melhor coisa para andar de bicicleta, especialmente descendo. E logo ficou claro que o caminho todo era des­cendente, pois a casa, com vista para a baía, ficava num dos lados daquela espécie de outeiro. Descer certamente era me­lhor que subir - eu nunca ia conseguir voltar para casa subindo aquela ladeira; entendi perfeitamente que na volta teria de empurrar a bicicleta -, mas dava uma aflição enorme aquela descida. A colina era tão íngreme, o cami­nho tão tortuoso e a noite estava tão fria que pedalei com o coração na boca quase o tempo todo, com lágrimas escor­rendo pelas bochechas por causa do vento. E aqueles bura­cos...! Vou te contar! Como aquela porcaria daquele assen­to machucava quando eu passava por um buraco!
Mas a colina não era o pior de tudo. Quando cheguei lá embaixo dei com um cruzamento de pistas. Dava muito mais medo que a colina, pois embora já passasse de meia-noite havia carros passando. Um deles buzinou para mim. Mas não foi culpa minha. Eu estava indo tão rápido, por causa da colina e tudo mais, que se tivesse parado provavel­mente teria voado por cima do guidão. De modo que fui em frente, escapando por pouco de ser atropelada por uma pick-up e, de repente, nem sei como, eu estava entrando no estacionamento do colégio.
A Missão parecia muito diferente à noite. Para começar, durante o dia o estacionamento estava sempre cheio, com todos aqueles carros dos professores, alunos e turistas que visitavam a igreja. Mas agora estava vazio, não havia um único carro, e tão tranqüilo que era possível ouvir, bem longe, o som das ondas na praia de Carmel.
Além disso, por causa do turismo, suponho, eles tinham instalado aqueles focos de luz para iluminar certas partes do prédio, como a cúpula - que estava toda iluminada - e o frontispício da igreja, com seu enorme pórtico de entra­da. Mas a parte posterior do prédio, onde eu fui dar, estava bem escura. O que, afinal, me convinha perfeitamente. Escondi a bicicleta por trás de uma lixeira, deixei o capacete pendurado no guidão e me aproximei de uma janela. A Missão foi construída há mais ou menos um quaquilhão de anos, quando não existia ar-condicionado ou aquecimen­to central e, para refrescar no verão e aquecer no inverno, as construções tinham paredes muito grossas. Com isto, to­das as janelas da Missão tinham uma profundidade de uns trinta centímetros, com mais outros trinta centímetros de recuo na parte interior.
Eu subi num desses parapeitos, olhando ao redor para ver se ninguém estava me vendo. Mas só havia por perto um par de guaxinins fuçando em volta da lixeira, em bus­ca de algum resto do almoço. Levei ao rosto então as mãos em forma de viseira, para proteger os olhos da luz da lua, e olhei lá para dentro.
Era a sala de aula do professor Walden. Com o luar inci­dindo lá dentro, pude ver sua letra no quadro-negro e o grande cartaz de Bob Dylan, seu poeta favorito, pendurado na parede.
Não levei mais que um segundo para quebrar o vidro de uma das antiquadas vidraças de ferro, esticar o braço lá para dentro e abrir a janela. O mais difícil em matéria de arrom­bar uma janela não é propriamente o momento de quebrar o vidro ou mesmo de conseguir abrir a maçaneta. O pior é tirar a mão depois sem se cortar. Eu tinha trazido meu me­lhor par de luvas caça-fantasma, daquelas bem espessas, de borracha preta com enchimento nas juntas, mas minha manga já tinha ficado presa uma vez, deixando meu braço todo arranhado.
Isso não aconteceu desta vez. Além disso, a janela abria para fora, não para cima, o que me facilitou a entrada. Já aconteceu de eu arrombar lugares que tinham alarmes - o que me obrigou a fazer pequenas e desconfortáveis viagens na parte de trás de caminhonetes do serviço público nova-iorquino - mas a Missão ainda não tinha chegado a este requinte em seu sistema de segurança. Na realidade, o sistema de segurança deles parecia consis­tir apenas em trancar as portas e janelas, e seja o que Deus quiser.
O que certamente me convinha.
Uma vez dentro da sala do professor Walden, fechei a janela pela qual havia entrado. Não tinha sentido mesmo chamar a atenção de alguém que por acaso estivesse vi­giando a região (até parece...). Era fácil ir passando entre as carteiras, com todo aquele brilho da Lua. E depois de ter aberto a porta e passado para a galeria, constatei que tam­bém não ia precisar da lanterna. O pátio estava inundado de luz. Concluí que a Missão deve receber turistas até bem tarde, quando já escureceu, pois no beiral do telhado havia focos de luz amarela apontados em diferentes direções: a palmeira mais alta, aquela que tinha o maior arbusto de hi­biscos em sua base; a fonte, que continuava ligada, mesmo àquela hora; e, naturalmente, a estátua do padre Serra, com uma luz brilhando em sua cabeça de bronze e outra nas cabeças das indígenas americanas a seus pés.
Ainda bem que o padre Serra era uma boa pessoa e já es­tava morto. Eu tinha a sensação de que aquela estátua o teria deixado muito embaraçado mesmo.
A galeria estava vazia, assim como o pátio. Não havia ninguém por ali. Eu só ouvia o farfalhar da água da fonte e o canto dos grilos no jardim. Parecia mesmo um lugar bem tranqüilo, o que não deixava de ser surpreendente. Estou querendo dizer é que nenhuma de minhas outras es­colas me parecia tranqüila. Pelo menos aquela ali estava parecendo bem tranqüila, até que eu ouvi aquela voz áspera atrás de mim:
- O que está fazendo aqui?
Dei meia-volta, e lá estava ela. Simplesmente recostada no seu armário - perdão, no meu armário - e de olho gru­dado em mim, os braços cruzados no peito. Estava usando um par de calças negras - bem elegantes - e um twinset de caxemira cinza. Trazia no pescoço um colar de pérolas, com uma pérola para cada Natal e cada aniversário de sua vida, certamente um presente de avós muito amorosos. Nos pés, um par de sapatos negros reluzentes. Seu cabelo, que bri­lhava tanto quanto os sapatos à luz amarelada dos refle­tores, parecia macio e dourado. Ela realmente era uma garo­ta bonita.
Pena que tivesse estourado os miolos.
- Heather - disse eu, tirando o capuz. - Oi. Lamento te incomodar... - sempre ajuda pelo menos começar de uma maneira polida - ... mas acho que a gente precisa muito conversar, você e eu.
Heather nem se mexeu. Não, estou exagerando. Ela aper­tou um pouco os olhos. Tinham uma cor pálida, acho que meio acinzentada, embora fosse difícil saber, apesar dos re­fletores. Os longos cílios, escurecidos com rímel, tinham uma espécie de moldura de lápis negro de muito bom gosto.
- Conversar? - perguntou ela. - Ah sim, claro. Eu tam­bém quero muito falar com você. Estou sabendo perfeitamente sobre você, Suzinha.
Eu tremi nas bases. Não consegui me conter:
Suze - corrigi.
Como quiser. Eu sei o que você está fazendo aqui.
Ótimo, muito bem - respondi. - Neste caso não vou precisar explicar. Quer se sentar para a gente poder conversar?
Conversar? Por que eu haveria de querer conversar com você? O que você está pensando que eu sou, mané? Meu Deus, você se acha mesmo muito esperta, não é? Acha que simplesmente pode ir entrando, assim...
Como assim?... - fiz eu, piscando.
Ir tomando o meu lugar - endireitou-se ela, afastan­do-se do armário e caminhando em direção ao pátio como se estivesse admirando a fonte. - Você, a nova garota - pros­seguiu, olhando-me com o rabo do olho. - A garota nova que acha que pode simplesmente ir tomando o lugar que me pertencia. Você já se apoderou do meu armário. Já está querendo roubar minha melhor amiga. Eu sei que a Kelly te telefonou e te convidou para a porcaria da festa dela. E agora está achando que pode roubar o meu namorado.
Eu botei as mãos nas cadeiras:
- Ele não é mais seu namorado, lembra, Heather? Ele acabou com você. E é por isto que você está morta. Você estourou os miolos na frente da mãe dele.
Heather arregalou os olhos.
- Cala a boca - disse.
- Você estourou os miolos na frente da mãe dele porque era burra demais para entender que nenhum garoto, nem mesmo o Bryce Martinson, merece que a gente morra por ele. - Eu passei por ela, caminhando em direção a uma das galerias de cascalho que cortavam os jardins. Eu não queria reconhecer, nem para mim mesma, mas estava fi­cando meio nervosa de ficar ali naquela galeria coberta depois do que acontecera ao Bryce. - Você deve ter fica­do com muita raiva quando se deu conta do que havia feito. Você se matou. E por uma coisa tão boba. Por causa de um cara.
- Cala a boca! - Dessa vez ela não estava só falando, estava já gritando, tão alto que precisou cerrar os punhos, fechar os olhos e encolher os ombros. Gritou tão alto que meus ouvidos ficaram ressoando um bom tempo. Mas não veio ninguém correndo da reitoria, onde eu vira algumas luzes acesas. Os pombos que eu ouvira arrulhando no beiral da galeria não emitiam um único som desde que a Heather aparecera, e os grilos haviam tratado de adiar o resto de sua serenata.
As pessoas não ouvem fantasmas - bem, não pelo menos a maioria das pessoas -, mas o mesmo não se pode dizer dos animais e mesmo dos insetos. Eles são hipersensíveis a qualquer presença paranormal. Por causa do Jesse, o Max, o cachorro dos Ackerman, nem chega perto do meu quarto.
Não precisa gritar assim - disse eu. - Ninguém mais pode te ouvir além de mim.
Grito quanto quiser - berrou ela, e começou a gritar mesmo.
Bocejando, fui sentar-me num dos bancos de madeira junto à estátua do padre Serra. Percebi então que havia uma placa no pedestal. Graças aos refletores e à luz da lua, eu podia perfeitamente ler a inscrição.
Ao venerável Padre Junipero Serra, 1713-1734 - dizia a pla­ca. - Seu comportamento exemplar e sua abnegação foram um exemplo para todos que o conheceram e receberam seus ensina­mentos.
Hmm... Eu ia ter de olhar abnegação no dicionário quan­do voltasse para casa. Fiquei me perguntando se era a mes­ma coisa que autoflagelação, algo pelo que Serra também era conhecido.
Você está me ouvindo? - gritava Heather. Eu olhei para ela.
Sabe o que significa abnegação? - perguntei.
Ela parou de gritar e ficou olhando para mim. Depois deu uns passos adiante, com a expressão lívida de raiva.
- Escuta aqui, sua vaca - foi dizendo, parando de caminhar quando estava já quase grudada em mim. - Quero que você simplesmente desapareça, está entendendo? Quero que desapareça desse colégio. Este armário é meu! A Kelly é a minha melhor amiga. E o Bryce é o meu namorado! Vê se trata de desaparecer, de voltar para o lugar de onde veio. Estava tudo muito bem aqui antes de você chegar... Eu tive de interromper.
- Sinto muito, Heather, mas as coisas não estavam nada bem antes de eu chegar aqui. E sabe por que eu sei disso? Porque você está morta. Entendeu? Você está morta. Os mor­tos não têm armários, nem amigas, nem namorados. E sabe por quê? Porque estão mortos.
Parecia que a Heather ia começar a berrar de novo, mas eu me adiantei, dizendo com toda suavidade e clareza:
Eu sei que você cometeu um erro. Você cometeu um erro terrível, horrível mesmo...
Não fui eu que cometi o erro - atalhou ela, cortante. - Foi o Bryce que cometeu o erro. Foi ele que rompeu comigo.
Eu respondi:
Tudo bem, não era desse erro que eu estava falando. Estava me referindo ao fato de você dar um tiro na cabeça porque um boboca de um garoto acabou com você...
Se acha que ele é tão imbecil assim - disse ela, com uma expressão de zombaria - por que vai sair com ele no sábado? Isso mesmo. Eu ouvi ele te convidando. Aquele desgraçado. Ele provavelmente não foi fiel nem durante um dia enquanto a gente estava saindo.
Sensacional - disse eu. - Mais um motivo para você se matar por causa dele...
Eu vi que havia lágrimas se acumulando por baixo das pestanas dela.
Eu o amava - suspirou ela, - Se não pudesse tê-lo para mim, eu não queria viver.
E agora que você está morta fica achando que ele devia ir ao seu encontro, não é mesmo? - perguntei, já cansada.
Não gosto deste lugar - disse ela mansamente. - Nin­guém me vê. Só você e o padre Dominic. Eu me sinto tão sozinha...
OK. É compreensível. Mas, Heather, mesmo que você consiga matá-lo, ele provavelmente não vai gostar muito de você por ter feito isto.
Eu sei como fazer para que ele goste de mim - disse ela, confiante. - Afinal, seremos só eu e ele. Ele vai ter de gostar de mim.
Eu balancei a cabeça:
Não, Heather, não funciona assim, Ela olhou bem fixo para mim:
Que quer dizer?
Se você matar o Bryce, não há a menor garantia de que ele acabe ficando com você, O que acontece com as pes­soas depois que morrem... bem, eu não tenho muita certeza, mas acho que é diferente para cada pessoa. Se você matar o Bryce, ele vai mesmo para onde tem de ir. Céu, inferno, a próxima vida - não sei ao certo. Mas sei que ele não vai se juntar a você. Não funciona assim,
Mas... - e ela parecia furiosa. - Não é justo!
Muita coisa não é justa, Heather. Não é justo, por exem­plo, que você tenha de sofrer por toda a eternidade por causa de um erro que cometeu no calor da hora. Tenho certeza de que se você soubesse como era estar morta, não teria se matado. Mas não tem de ser assim, Heather.
Ela ficou olhando para mim. As lágrimas pareciam con­geladas, como pedacinhos de gelo.
Não tem mesmo?... - fez ela.
Não. Não tem.
Você quer dizer... está querendo dizer que eu posso voltar?
Eu fiz que sim com a cabeça.
Pode sim. Você pode começar de novo. Ela fungou.
Como? Eu respondi:
Só precisa tomar a decisão.
Uma sombra passou em seu lindo rostinho.
- Mas eu já decidi que é isto que eu quero. Só o que eu que­ro desde... desde que aconteceu... é ter minha vida de volta.
Eu balancei a cabeça.
- Não, Heather - disse então. - Você não entendeu o que eu estou dizendo. Você nunca vai ter de volta a sua vida, a sua velha vida. Mas pode começar uma outra. E ela só poderá ser melhor do que isto, do que ficar por aí para sempre sozi­nha, vagando enfurecida, machucando as pessoas...
Ela gritou:
- Você disse que eu poderia ter minha vida de volta! Naquele instante eu me dei conta de que ela estava per­dida.
- Eu não estava querendo dizer a sua antiga vida. Quis dizer uma vida...
Mas já era tarde demais. Ela estava surtando.
Agora eu estava entendendo por que os pais do Bryce o haviam mandado para Antígua. E até eu gostaria de estar lá - ou em qualquer outro lugar, desde que fosse longe da ira daquela garota.
Você disse - gritava ela -, você disse que eu podia ter de volta a minha vida! Você mentiu para mim!
Heather, eu não menti! Só estava querendo dizer que a sua vida... bem, a sua vida acabou. Heather, você mesma acabou com ela. Eu sei que é uma droga, mas, puxa, você devia ter pensado nisso.
Ela me interrompeu com um gemido meio... sobrena­tural, claro.
Não vou permitir... Não vou deixar você tomar a mi­nha vida! - berrou.
Heather, eu já lhe disse, não estou tentando tirar a sua vida. Eu tenho a minha própria vida. Não preciso da sua...
Com os grilos e os pássaros calados, o som da água borbulhando na fonte a poucos passos dali era o único ruído no pátio - à parte os gritos da Heather, claro. Mas de repen­te o som da água ficou estranho. Parecia que havia alguma coisa estalando. Olhei na direção da fonte e vi que estava saindo uma fumaça. Eu não teria estranhado tanto - afi­nal, estava bem frio, e a temperatura da água podia estar mais quente que a do ar - se não tivesse visto uma enorme bolha rebentar de repente na superfície da água.
Foi aí que me dei conta. Ela estava fazendo a água fer­ver. Estava fervendo a água com a força da sua fúria.
Heather - disse eu, sentada no banco. - Heather, ouça me. Você precisa se acalmar. Não podemos conversar com você assim...
Você... você disse... - e eu via com alarme que seus olhos estavam revirando para trás. - Que eu... que eu podia... começar de novo!
Tudo bem. Estava na hora de fazer alguma coisa. Eu não precisava ficar ali sentada naquele banco se era para ser sacudida com tanta força que quase fui jogada ao chão. Deu para sacar que era a hora de me levantar.
E foi o que fiz, bem depressa. Bem rápido, para não ser atingida pelo banco. Tão rápido que a Heather nem teria chance de perceber que eu ia derrubá-la com uma direita bem no queixo.
Para minha surpresa, no entanto, ela nem pareceu sen­tir nada. Estava em outra. Em outra muito diferente. O mur­ro não teve o menor efeito - só serviu para me deixar os dedos doendo. E é claro que pareceu deixá-la ainda mais furiosa, o que sempre ajuda quando estamos lidando com uma pessoa perturbada demais.
- Você vai se arrepender disto - proferiu ela numa voz cavernosa que não tinha nada a ver com seus gritinhos de líder da torcida.
De repente a água da fonte chegou ao ponto de ebulição, projetando ondas enormes para o lado de fora. Os jatos, que normalmente iam a uma altura de apenas um metro e pouco, de repente começaram a subir a até três, seis me­tros, caindo de volta num verdadeiro caldeirão borbulhante e fervente. Todos os pássaros saíram voando das árvores ao mesmo tempo, formando momentaneamente uma nuvem que bloqueou a luz do luar.
Eu estava com uma estranha sensação de que a Heather estava falando sério. Pior ainda, tinha a sensação de que ela seria mesmo capaz. Não precisaria nem levantar um dedinho.
O que foi confirmado quando de repente a cabeça de Junipero Serra foi brutalmente arrancada do corpo da está­tua. Exatamente. Simplesmente saltou longe, como se aque­la sólida peça de bronze fosse na verdade de confeito. E sem o menor barulho. Por alguns instantes, ela ficou flutuando no ar, com sua expressão de suave compaixão transforma­da, do estranho ângulo no qual pendia sobre o meu rosto, numa careta demoníaca. E, de repente, enquanto eu esta­va ali completamente paralisada, vendo as luzes se refle­tirem na bola de metal, ela caiu... e mergulhou na minha direção, zunindo tão depressa na noite que parecia até um cometa ou...
Eu nem tive tempo de pensar com que mais aquilo se parecia, pois uma fração de segundo depois uma coisa dura atingiu o meu estômago e me projetou no chão, onde eu fiquei, olhando para o céu estrelado. Que estava lindo. A noite estava tão escura, e as estrelas, tão frias e distantes, piscando...
- Levante-se - disse asperamente uma voz de homem no meu ouvido. - Pensei que você era boa nisso!
Alguma coisa explodiu no chão a menos de um palmo da minha bochecha. Virei o rosto e vi a cabeça de Junipero Serra rindo grotescamente para mim.
Quando vi, o Jesse estava tentando me botar de pé e me empurrando na direção da galeria.


Capítulo 11


Nós conseguimos voltar para a sala do professor Walden. Não sei como, mas conseguimos, com a cabeça da estátua zunindo atrás de nós o tem­po todo, a uma tal velocidade que chegava a fazer um api­to medonho, como se o padre Serra estivesse gritando. A cabeça foi dar com a força de uma bala de canhão contra a pesada porta de madeira, uma fração de segundo depois de nós entrarmos e batermos a porta.
- Díos! - exclamou Jesse, enquanto jogávamos o peso de nossas costas contra a porta, ofegantes, como se pudéssemos impedir a passagem simplesmente com nosso peso... logo a Heather, que, se quisesse, podia atravessar paredes. - Você disse que era perfeitamente capaz de cuidar de si mesma. Disse também que precisava primeiro livrar-se dela. Perfeito...
Eu estava tentando recuperar o fôlego, pensar no que fa­zer. Nunca tinha visto uma coisa daquelas. Nunca.
Cala a boca - disse.
Bafo de cadáver... - Jesse voltou-se para me olhar de frente. Seu peito arfava, subindo e descendo. - Você se dá conta de que me chamou de bafo de cadáver? Magoou hermosa. Magoou mesmo.
Eu já disse... - Alguma coisa pesada estava esmurran­do a porta. Eu a sentia bem na altura da minha espinha. Não era preciso ser um gênio para adivinhar que era a cabeça do fundador de uma certa Missão. -... para não me chamar de hermosa!
Pois eu também ficaria agradecido se você não fizesse comentários desabonadores a meu respeito.
Olha aqui - disse eu. - Esta porta não vai agüentar para sempre.
Não - concordou ele, no exato momento em que a cabeça de metal começou a aparecer por uma fenda que se ia abrindo na madeira. - Posso dar uma sugestão?
Eu estava horrorizada, com os olhos arregalados gruda­dos naquela cabeça de metal, que se havia voltado, metade para dentro e metade para fora da porta, para ficar me olhan­do com frios olhos de bronze. Parece maluquice, mas sou capaz de jurar que ela estava sorrindo para mim.
Claro - eu disse,
Corra!
Eu não hesitei nem um segundo em aceitar o conselho. Corri para o peitoril da janela, e, sem dar a menor bola para os cacos de vidro quebrado, agarrei-me a ela. Levei apenas alguns segundos para abrir a janela, mas foi o suficiente para que Jesse, ainda lutando contra o que já agora começa­va a soar como um furacão, pedisse:
- Poderia andar mais rápido, POR FAVOR?
Eu saltei em direção ao estacionamento. Lá fora, do outro lado das espessas paredes de tijolo cru da Missão, era engraçado que nem dava para dizer que uma violen­ta manifestação paranormal estava acontecendo do lado de dentro. O estacionamento ainda estava vazio e tran­qüilo, acariciado pela sonoridade ritmada das ondas do mar. É impressionante como podem acontecer as coisas mais absurdas bem debaixo do nariz das pessoas e elas nem percebem...
-Jesse! - sussurrei através da janela. - Vamos, venha!
Eu não tinha a menor idéia se a Heather seria capaz de querer descarregar sua raiva em cima de algum passante, ou se o Jesse, caso ela o fizesse, tinha algum truque guarda­do para reagir, como aquele que ela tinha usado com a cabeça da estátua. Eu só sabia que quanto mais cedo a gente saísse do alcance dela, melhor.
Bom, quero deixar logo claro que eu não sou nenhuma covarde. Realmente não sou. Mas também não sou nenhu­ma maluca. Considero que quando a gente se dá conta de que está enfrentando uma força muito maior que a nossa, não tem nada de mais sair correndo.
Mas deixar os outros para trás não é certo.
-Jesse!!! - berrei através da janela.
- Acho que já mandei você correr - disse atrás de mim uma voz muito irritada.
Eu engoli em seco e dei meia-volta. Lá estava o Jesse, de pé no asfalto do estacionamento, com a Lua por trás dele, o que deixava seu rosto na sombra.
- Oh meu Deus! - Meu coração batia tão depressa que eu pensei que ele fosse explodir. Eu nunca tinha sentido tanto medo em toda a minha vida. Nunca.
Talvez por isto eu tenha decidido então esticar os dois braços e agarrar a camisa do Jesse com as duas mãos.
Oh meu Deus - repeti. - Jesse, você está bem?
Claro que estou. - Ele parecia surpreso que eu me desse ao trabalho de perguntar. E acho que era mesmo uma per­gunta cretina. Afinal, que mal a Heather podia fazer ao Jesse? Não dá para imaginar que ela fosse matá-lo... - E você, está bem?
Eu? Estou ótima. - Voltei-me então para as janelas da sala do professor Walden. - Você acha que conseguimos... neutralizá-la?
Por enquanto - disse Jesse.
E como você sabe? - Eu estava chocada de ver que estava tremendo, tremendo de verdade, da cabeça aos pés. - Como sabe que ela não vai atravessar aquelas paredes feito um tufão e começar a arrancar as árvores por aí e jogá-las contra nós?
Jesse balançou a cabeça, e eu vi que ele estava sorrindo. Até que para um sujeito que morreu antes de inventarem a ortodontia ele tinha uns dentes bem bonitos. Quase tão bonitos quanto os do Bryce.
- Pode estar certa que não.
Mas como é que você sabe?
Porque não. Ela nem sabe que é capaz disto. Ela é muito nova no ramo, Suzannah. Ainda não sabe do que é capaz.
Se o objetivo era me fazer sentir melhor, não funcio­nou. O fato de ele reconhecer que ela era capaz de arrancar árvores e começar a atirá-las à distância - sim, ela tinha este poder - e só não o fazia por falta de experiência bas­tou, entretanto, para eu parar de tremer feito vara verde e largar a camisa dele. Não que eu não achasse que a Heather podia ter-me seguido se quisesse. Ela era perfei­tamente capaz disso, exatamente como o Jesse me havia seguido até a Missão. Mas a diferença é que o Jesse sabia que era capaz. Ele já era fantasma há muito mais tempo que a Heather. Ela estava apenas começando a explorar suas novas possibilidades.
Era isto que dava mais medo. Ela era tão nova naquilo tudo... e já tão poderosa.
Eu comecei a caminhar pelo estacionamento feito uma maluca.
Precisamos fazer alguma coisa - disse. - Temos de avi­sar o padre Dominic... e também o Bryce. Meu Deus, temos de avisar ao Bryce que não venha ao colégio amanhã. Ela vai matá-lo. Vai matá-lo no exato momento em que ele puser o pé no campus...
Suzannah - disse Jesse,
Acho que podemos telefonar para ele. É uma hora da manhã, mas podemos telefonar e dizer a ele... nem sei o que a gente pode dizer para ele. Talvez possamos dizer que houve uma ameaça de morte contra ele, ou alguma coisa assim. Talvez funcione. Ou então podemos mandar uma ameaça de morte. Isso mesmo! É isso aí! Podemos telefonar para a casa dele, aí eu disfarço a minha voz e digo algo do tipo "Não venha ao colégio amanhã ou poderá morrer". Talvez ele entenda. Talvez ele...
Suzannah - voltou a dizer o Jesse.
Ou então o padre Dom se encarrega! A gente faz o padre Dom telefonar para o Bryce e dizer para ele não vir ao colégio, que houve algum acidente ou coisa assim...
Suzannah. - Jesse postou-se na minha frente no exa­to momento em que eu dei meia-volta mais uma vez, para percorrer feito uma siderada o mesmo caminho que estava percorrendo há alguns minutos. Fui obrigada a parar, apanhada de surpresa com sua proximidade, meu nariz prati­camente batendo no exato ponto em que o colarinho da sua camisa estava aberto. Jesse agarrou os meus dois braços com firmeza e rapidez, para me fazer parar.
Não foi uma boa idéia. Claro, eu sei que um minuto antes eu o tinha agarrado - bem, não exatamente a ele, mas a sua camisa. Mas em circunstâncias normais eu não gosto de ser tocada, e muito menos por fantasmas. E sobretudo não gosto de ser tocada por fantasmas que têm mãos grandes e fortes como as do Jesse.
- Suzannah - disse ele mais uma vez, antes que eu con­seguisse dizer-lhe que tirasse suas manoplas de cima de mim. - Tudo bem. Não é culpa sua. Você não podia fazer nada.
Eu meio que esqueci de ficar irritada com as mãos dele.
Eu não podia fazer nada? Você está brincando? Eu de­via ter dado um pontapé naquela garota para ela ir parar de volta no seu túmulo!
Não - e Jesse sacudia a cabeça. - Ela a teria matado.
Uma ova! Eu podia perfeitamente com ela. Se ela não tivesse feito aquilo com a cabeça daquele cara...
Suzannah.
Eu sei o que estou dizendo, Jesse. Eu podia perfei­tamente ter dado conta dela se ela não tivesse ficado tão enlouquecida. Aposto que se esperar só um pouqui­nho até ela se acalmar e voltar lá dentro, consigo con­vencê-la...
Não. - Ele soltou-me, mas logo tratou de passar um dos braços em volta do meu ombro e começou a me con­duzir para longe do colégio, em direção à lixeira onde eu havia deixado a bicicleta. - Vamos. Vamos para casa.
Mas e...
- Não - cortou ele, apertando mais os meus ombros. - Jesse, você não está entendendo. Este trabalho é meu.
Eu tenho de...
É uma tarefa do padre Dominic também, não? Deixe que daqui para a frente ele cuida. Não há motivo para você ficar com toda a responsabilidade em cima dos seus ombros.
Pois há sim. Fui eu que estraguei tudo.
Foi você que encostou o revólver na cabeça dela e pu­xou o gatilho?
Claro que não. Mas fui eu que a deixei tão furiosa. Não foi o padre Dom. Eu não vou ficar pedindo ao padre Dom que conserte as minhas besteiras. Não teria o menor sentido.
O que não tem sentido nenhum - explicou Jesse, ten­tando mostrar-se paciente - é alguém esperar que uma garo­ta como você entre em luta com um demônio dos infernos como...
Ela não é um demônio dos infernos. Só está com raiva. E está com raiva porque o único cara em quem achava que podia confiar revelou-se um...
Suzannah - e Jesse parou de caminhar de repente. Eu só não me desequilibrei e caí de cara no chão porque ele ainda estava segurando os meus ombros.
Por um minuto, apenas um minuto, realmente fiquei pensando... bem, cheguei a pensar que ele ia me beijar. Eu nunca tinha sido beijada antes, mas parecia que estavam dadas todas as condições necessárias para que acontecesse um beijo naquela hora: sabe como é, o braço dele estava ao redor do meu ombro, tinha o luar, nossos corações estavam batendo mais depressa - e, claro, ambos acabávamos de escapar de ser mortos por um fantasma completamente ensandecido.
Naturalmente, eu não sabia como me sentia ante a pos­sibilidade de que meu primeiro beijo fosse dado por alguém do outro mundo, mas sabe como é, quem está em petição de miséria não pode ficar escolhendo, e posso garantir uma coisa, o Jesse era muito mais gracinha do que qualquer cara vivo que eu tinha conhecido ultimamente. Eu nunca tinha visto um fantasma tão bonitão. Parecia que ele não podia ter mais de vinte anos quando morreu. Fiquei me pergun­tando de que tinha morrido. Em geral é difícil dizer no caso dos fantasmas, pois seus espíritos tendem a assumir a for­ma que seus corpos tinham quando deixaram de funcio­nar. Meu pai, por exemplo, não é diferente hoje, quando aparece para mim, do que era um dia antes de sair para aquela fatal corrida no Prospect Park dez anos atrás.
Eu só podia deduzir que o Jesse tinha morrido nas mãos de alguém, pois ele me parecia com uma saúde de ferro. Era bem provável que tivesse sido atingido por uma daquelas balas que deixaram buracos na varanda lá em baixo. Legal que o Andy os tivesse preservado para a posteridade.
E agora aquele fantasma sensacional parecia que ia me beijar. E quem era eu para impedi-lo?
De modo que inclinei um pouco a cabeça para trás, olhei para ele com as pestanas meio fechadas e meio que deixei minha boca ficar bem relaxada, sabe como é... E foi aí que eu percebi que a atenção dele não estava exatamente foca­lizada na região dos meus lábios, mas muito abaixo. Nem estava voltada para os meus seios, o que seria uma excelen­te segunda opção.
- Você está sangrando - disse ele.
Foi o suficiente para estragar completamente aquele mo­mento. E para deixar meus olhos bem arregalados.
- Não estou não - respondi automaticamente, pois não estava sentindo dor nenhuma. Então olhei para baixo. Pequenas manchas iam surgindo no piso debaixo dos meus pés. Não dava para dizer de que cor eram porque estava muito escuro. À luz da lua, pareciam negras. E logo em seguida constatei horrorizada que havia manchas escuras semelhantes na camisa do Jesse.
Mas era óbvio que as manchas estavam vindo de mim. Comecei a me olhar e a me apalpar toda, e vi que eu tinha conseguido abrir uma das menores veias do meu pulso, mas ainda assim uma veia importante. Enquanto falava com a Heather, eu tinha tirado as luvas e as havia guardado nos bolsos, e em minha pressa de escapar, durante o acesso de raiva dela, esquecera de voltar a vesti-las. Provavelmente eu me havia cortado nos estilhaços de vidro que ainda esta­vam no parapeito da janela da sala de aula do professor Walden quando a pulei para fugir. O que servia para provar minha teoria de que é sempre na saída que a gente se machuca.
Oh! - disse eu, vendo o sangue escorrer. Sem conseguir dizer nada que tivesse alguma utilidade, acrescentei: - Mas que horror! Sujei a sua camisa toda...
Não é nada. - Jesse meteu a mão num dos bolsos da calça e tirou alguma coisa branca e macia que foi passan­do ao redor do meu pulso algumas vezes, para em seguida amarrá-la num laço. Enquanto fazia isto, não disse nada, totalmente concentrado no que estava fazendo. Quero regis­trar aqui que era a primeira vez que eu era atendida em primeiros socorros por um fantasma. Não era exatamente tão interessante quanto teria sido um beijo, mas também não posso dizer que era uma chatice.
Pronto - disse ele ao concluir. - Está doendo?
Não - respondi, pois não estava mesmo. Eu sabia por experiência própria que só começaria a doer algumas ho­ras depois. - Obrigada.
Não há de quê - disse ele.
Não... - De repente, a coisa mais ridícula, eu estava com vontade de chorar. Mesmo. E eu nunca choro. - Não, obrigada mesmo. Obrigada por ter vindo me ajudar. Mas não precisava... Quer dizer, estou feliz que você tenha vin­do. E... bem, obrigada de novo. Só isso.
Ele parecia ter ficado embaraçado. Acho que no fundo era perfeitamente natural que eu ficasse daquele jeito, toda dengosa com ele. Não consegui evitar. O fato é que eu ain­da não estava conseguindo acreditar. Nenhum fantasma nunca tinha sido tão bonzinho assim comigo. Claro que meu pai tentou... Mas ele não era exatamente o tipo de pessoa de quem você pode esperar esse tipo de coisa. Na verdade eu nunca podia contar realmente com ele, especialmente numa crise.
Mas o Jesse... O Jesse tinha vindo em meu socorro. E eu nem tinha pedido nada a ele. Na verdade, tinha até sido muito desagradável com ele, de maneira geral.
- Esquece - foi tudo que ele conseguiu dizer. E acres­centou: - Vamos para casa.


Capítulo 12


Vamos para casa. Aquele "Vamos para casa" tinha um ar tão acon­chegante...
Só que a casa na qual ambos estávamos vivendo ainda não me parecia exatamente como se fosse um lar. E como poderia? Eu só estava vivendo lá há uns poucos dias...
E por outro lado, claro, ele não tinha nada de estar viven­do lá...
De qualquer maneira, fantasma ou não fantasma, ele sal­vara a minha vida. Isto não se podia negar. E talvez só o tivesse feito para cortejar o meu lado bom, para que eu não acabasse por expulsá-lo completamente da casa.
Independentemente do motivo, o fato é que tinha sido muito legal da parte dele. Até então ninguém nunca tomara a iniciativa de me ajudar - principalmente, é claro, porque ninguém sabia que eu precisava de ajuda. Nem a Gina, que estava presente quando madame Zara declarou que eu era uma mediadora, sabia por que eu aparecia às vezes na es­cola com os olhos muito fundos, ou onde é que eu me metia quando faltava às aulas - coisa que eu fazia com bastante freqüência. E eu não podia explicar o que estava aconte­cendo. Não que a Gina fosse pensar que eu estava maluca ou alguma coisa assim, mas ela acabaria dizendo a alguém mais (a gente só consegue manter segredo sobre essas coisas quando estão acontecendo conosco), que por sua vez diria a mais alguém e eu sabia que em algum momento alguém acabaria dizendo a minha mãe.
E minha mãe entraria em surto. Claro que é isto que as mães costumam fazer, e a minha não é diferente das ou­tras. Ela já tinha me obrigado a fazer terapia e eu tinha de me sentar lá e ficar inventando mentiras complicadas na esperança de explicar meu comportamento anti-social. Eu não tinha a menor intenção de ir parar num asilo de loucos, que certamente era onde eu iria acabar se minha mãe algu­ma vez tivesse descoberto a verdade.
De modo que só podia me sentir agradecida por ter Jesse ao meu lado, embora ele me deixasse meio nervosa. Depois de toda aquela catástrofe lá na Missão, ele me acompanhou até em casa, um perfeito cavalheiro. E até insistiu em em­purrar ele mesmo a bicicleta, por causa da minha ferida. Se alguém tivesse olhado pelas janelas das casas por onde íamos passando, teria pensado que estava vendo coisas: eu me arrastando com dificuldade e aquela bicicleta deslizando ao meu lado sem o menor problema - com o detalhe de que mi­nhas mãos nem tocavam nela.
Ainda bem que na Costa Oeste as pessoas vão dormir cedo.
O tempo todo, enquanto voltávamos para casa, a única coisa em que eu conseguia pensar era o que havia saído errado no confronto com a Heather. Não voltei a falar do assunto - já o havia feito bastante; não queria ficar pare­cendo um disco quebrado, ou uma pianola quebrada ou o que quer que se usasse na época do Jesse. Mas era o único assunto em que eu conseguia pensar. Nunca, mas nunca mesmo, em todos aqueles meus anos como mediadora, eu havia encontrado um espírito tão violento e irracional. Eu simplesmente não sabia o que fazer. E eu sabia que preci­sava encontrar uma saída, e bem depressa; faltavam só umas poucas horas para começarem as aulas e o Bryce cair di­reitinho na armadilha mortal que estava sendo preparada para ele.
Não sei se o Jesse percebeu por que eu estava tão cala­da, ou se ele estava pensando na Heather também... Só sei que de repente ele quebrou o silêncio e disse:
- Não há no céu fúria comparável ao amor transforma­do em ódio nem há no inferno ferocidade como a de uma mulher desprezada.
Eu olhei para ele.
Está falando por experiência própria? Ele deu um pequeno sorriso à luz da lua.
É uma citação de William Congreve.
- Ah... Mas, como você sabe, às vezes a mulher desprezada está cheia de razões de ficar furiosa.
- E você, está falando por experiência própria? - quis saber ele.
Eu dei uma risada.
- Nem de longe.
Para te desprezar, é porque antes o cara gostou de você. Mas isto eu não disse em voz alta. Não há a menor hipótese de que eu pudesse alguma vez dizer uma coisa dessas em voz alta. Não que eu estivesse preocupada com o que o Jesse podia pensar de mim. Por que haveria de me preocupar com o que um caubói morto podia pensar de mim?
Mas eu não ia reconhecer diante dele que nunca havia tido um namorado. A gente não sai por aí dizendo coisas as­sim a caras gostosões como ele, mesmo que estejam mortos.
Mas a gente não sabe o que aconteceu entre a Heather e o Bryce. No fundo, não sabemos. Ela podia ter muitas razões para estar ressentida.
Ressentida com ele, acho que sim - disse Jesse, embo­ra parecesse relutante em admiti-lo. - Mas não com você. Ela não tinha direito de tentar machucá-la.
Ele parecia tão furioso com aquilo que achei melhor mu­dar de assunto. No fundo, eu é que devia ter ficado dana­da com o fato de a Heather ter tentado me matar, mas sabe como é, já estou meio acostumada a lidar com gente irra­cional. Tudo bem, não tão irracional como a Heather, mas vocês sabem o que estou querendo dizer. E se há uma coisa que eu já aprendi, é que não se pode tomar as coisas pelo lado pessoal. Certo, ela tinha tentado me matar, mas como é que eu vou saber se ela tinha algum discernimento? Quem pode garantir como eram os pais dela, afinal de contas? E se eles eram do tipo que saía por aí matando o primeiro ca­paz de contrariá-los?...
Mas depois de ver aquele colar de pérolas eu fiquei du­vidando que eles fossem desse tipo.
Enquanto estava pensando nessas matanças, acabei me perguntando por que o Jesse acabara ficando tão indigna­do. Foi aí que me dei conta de que provavelmente ele ti­nha sido assassinado. Ou então tinha se matado. Mas não achava que ele fosse capaz de se matar. Achava que ele pode­ria ter morrido de alguma doença arrasadora...
Talvez não tenha sido muito delicado da minha parte (mas de qualquer forma eu nunca fui propriamente famosa pela delicadeza), mas acabei indo em frente e perguntei, quando estávamos subindo a longa ladeira coberta de cas­calho até em casa:
- Mas e você? Como foi mesmo que morreu?
Jesse não disse nada logo em seguida. Provavelmente eu o tinha ofendido. Já pude notar que os fantasmas não gostam muito de falar sobre como morreram. Às vezes nem se lem­bram. Vítimas de acidentes de carro geralmente não têm a menor idéia do que lhes aconteceu. Por isto é que eu sem­pre as vejo vagando em busca das outras pessoas que es­tavam no carro com elas. Tenho então de explicar o que aconteceu e tentar de alguma maneira imaginar onde po­dem estar as pessoas que elas estão procurando. E isto é também um bocado doloroso, podes crer. Eu tenho de me abalar até a delegacia onde foi registrado o acidente, fingir que estou fazendo um trabalho para o colégio ou algo as­sim, copiar os nomes das vítimas e tentar descobrir o que aconteceu com elas.
Posso garantir que às vezes parece que meu trabalho nun­ca chega ao fim.
Seja como for, Jesse ficou calado por um momento e eu achei que ele não ia me contar. Ele estava olhando bem para a frente, na direção da casa - a casa onde tinha morrido, a casa onde haveria de ficar rondando até que... bem, até que pudesse resolver o problema que o estava retendo neste mundo.
A lua ainda estava à vista, bem alto lá no céu, e eu po­dia ver o rosto do Jesse como se fosse dia. Ele não estava parecendo muito diferente do habitual. Sua boca, que era mais para larga, de lábios finos, parecia estar meio carrancuda, o que, até onde eu sabia, era o que costumava fazer. E por baixo daquelas espessas sobrancelhas negras, seus olhos, de cílios tão densos, eram tão reveladores quanto um espelho - quer dizer, eu provavelmente seria capaz de ver meu reflexo neles, mas não adivinharia nada sobre o que ele estava pensando.
Hmm... - disse eu. - Sabe o que mais? Esquece. Se não quiser, não precisa me dizer...
Não - ele respondeu. - Tudo bem.
É só que eu estava meio curiosa, só isso. Mas se você achar que é uma coisa muito pessoal...
Não, não é. - Nós já havíamos chegado à casa. Ele em­purrou a bicicleta até o ponto onde ela devia ficar e a recostou no muro da garagem. Estava mergulhado na som­bra quando afinal disse: - Como você sabe, nem sempre esta casa foi uma casa de família.
Como se fosse a primeira vez que o ouvia falar daquilo, exclamei:
É mesmo?!
Sim. Houve uma época em que era um hotel. Quer di­zer, mais uma estalagem propriamente do que um hotel.
Perguntei então, toda animada:
E você estava hospedado aqui?
Sim. - Ele saiu da sombra da garagem, mas em vez de olhar para mim quando voltou a falar, estava com o olhar apertado voltado para o mar. Eu tentei animá-lo:
E... Aconteceu alguma coisa quando você estava aqui?
Sim. - E ele olhou para mim. Ficou me olhando por um longo momento. Depois, disse: - Mas esta é uma longa história, e você deve estar muito cansada. Vá se deitar. Amanhã de manhã decidiremos o que fazer sobre a Heather.
Pode ser mais injusto?
- Espera um pouco - interrompi. - Não vou a lugar nenhum enquanto você não acabar de contar essa história.
Ele balançou a cabeça:
Não, já é muito tarde. Eu conto uma outra vez.
Puxa vida! - Eu devia estar parecendo uma garotinha recebendo ordens da mãe para ir-se deitar cedo, mas estava pouco ligando. Estava danada da vida. - Você não pode começar uma história assim e não acabar de contá-la. Você tem de...
Agora o Jesse estava rindo de mim.
Vá se deitar, Suzannah - disse ele, empurrando-me suavemente para a escada. - Você já foi suficientemente assustada esta noite.
Mas você...
Quem sabe outra vez... - insistiu ele. Já me havia condu­zido na direção da varanda e agora eu estava no primeiro degrau, voltando-me para vê-lo rindo de mim.
Você promete?
Seus dentes brilharam no luar.
Prometo. Boa noite, hermosa.
Já disse para não me chamar disso - resmunguei, subindo os degraus com toda força.
Mas já eram quase três horas da manhã e o máximo que eu conseguia era fingir indignação. É bom lembrar que eu ainda estava no horário de Nova York, três horas na frente. Já era difícil levantar na hora para ir para a escola quando eu conseguia dormir oito horas inteirinhas. Como é que haveria de ser com apenas quatro horas de sono?
Entrei na casa o mais discretamente possível. Felizmente, todo mundo, menos o cachorro, dormia profundamente. Ao me ver, ele levantou a cabeça no sofá onde se havia espi­chado e começou a sacudir o rabo. Grande cão de guarda. E minha mãe, que não queria saber de vê-lo dormindo no sofá branquinho... Mas eu é que não ia transformar o Max em inimigo, enxotando-o dali. Se bastava deixar que ele continuasse dormindo no sofá para impedir que avisasse à casa inteira que eu tinha saído, valia a pena.
Fui me arrastando como podia escada acima, pensando o tempo todo no que haveria de fazer com a Heather. Prova­velmente teria de me levantar cedo e telefonar para o colé­gio, avisando ao padre Dom que fosse ao encontro do Bryce assim que ele pusesse os pés no campus e o mandasse de volta para casa. E decidi que nem mesmo me haveria de opor se fosse necessário recorrer aos piolhos. No fim das contas, a única coisa que interessava era impedir que a Heather conseguisse o que queria.
Ainda assim, a simples idéia de ter de levantar cedo para fazer alguma coisa - mesmo que fosse salvar a vida do cara com quem eu tinha um encontro no sábado à noite - não parecia das mais atraentes. Agora que a adrena­lina toda já havia passado, eu me dava conta de que esta­va morta de cansaço. Fiz mais um esforcinho e consegui chegar até o banheiro para vestir o pijama - claro, pois embora tivesse certeza de que o Jesse não estava me espio­nando, ele ainda não havia dito como tinha morrido, e portanto eu não ia arriscar nada. Ele bem que podia ter sido enforcado por voyeurismo, uma pena que eu acredi­tava ter sido aplicada algumas vezes uns cento e cinqüen­ta anos antes.
Foi só no momento em que decidi mudar a atadura no meu pulso que prestei atenção no que ele havia usado.
Era um lenço. Antigamente todo mundo usava lenço de pano, pois não havia lenços de papel. E as pessoas pare­ciam dar a maior importância, costurando neles as suas ini­ciais, para que não se perdessem ao serem lavados.
Só que o lenço do Jesse não tinha suas iniciais, conforme pude notar ao lavá-lo e tentar tirar o meu sangue o melhor que pude. Era um grande quadrado de linho, branco (bom, já então meio cor-de-rosa) com um debrum de delicada ren­da branca. Meio delicadinho para um cara como ele. Eu teria ficado meio cismada com a orientação sexual do Jesse se não tivesse visto as iniciais que estavam bordadas num dos can­tos. Os pontos eram minúsculos, linha branca sobre tecido branco, mas as letras propriamente eram enormes, numa caligrafia floreada: MDS. Isso mesmo. MDS. Nada de J.
Estranho. Muito estranho.
Pendurei o lenço para secar. Não precisava me preocu­par com a possibilidade de alguém vê-lo. Para começo de conversa, só eu usava o meu banheiro, e além disso ninguém era mesmo capaz de ver o Jesse, portanto ninguém pode­ria ver o seu lenço. Amanhã de manhã ele estaria lá exata­mente como agora. E talvez eu decidisse exigir explicações sobre aquelas letras antes de devolvê-lo. MDS.
Só quando estava começando a adormecer é que me dei conta de que MD devia ser uma garota. Caso contrário, por que tanta rendinha? E aquelas letras todas caprichadas? Será então que o Jesse não tinha morrido num tiroteio, como eu acreditava inicialmente, e sim em alguma briga de amantes?
Não sei por que, mas o fato é que esta idéia me deixou bem perturbada. Por causa dela fiquei acordada bem uns três minutos. Até que virei para o outro lado, senti falta da minha antiga cama por um instantinho só e caí no sono.