terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Coração de Tinta - Capítulos 55 a 59 (Últimos Capítulos)

55. Traição, tagarelice e estupidez

E então ele disse:
— Eu vou morrer, não há dúvida; não há nenhum meio de sair desta estreita prisão!
A história de Ali Babá e os quarenta ladrões

Elinor achou que estava de fato se comportando cora-josamente. Embora ainda não soubesse direito o que aconte-ceria com ela — se sua sobrinha sabia de mais alguma coisa, não lhe dissera —, não havia dúvida de que não era nada de bom.
Teresa também não deu aos homens que foram bus-cá-la na cripta o gosto de ver suas lágrimas. Praguejar ou xin-gá-los, de qualquer forma, ela não podia mais. Sua voz se fora como um vestido aposentado. Felizmente ela tinha consigo dois pedaços de papel, sujos e amassados, pequenos demais para tantas palavras, acumuladas durante nove anos, mas era melhor do que nada. Ela os preenchera até as bordas com le-trinhas minúsculas, sem que sobrasse espaço para uma única palavra. Sobre ela mesma e o que vivera ela não quis contar nada, apenas fez gestos impacientes de recusa quando Elinor lhe perguntou. Não, ela queria fazer perguntas, perguntas e mais perguntas, sobre sua filha e seu marido. E Elinor sussur-rava as palavras em seu ouvido, bem baixinho, para que Basta não soubesse que as duas mulheres que iriam morrer com ele se conheciam desde que a mais jovem dera seus primeiros passos... entre as longas estantes de Elinor, que na época es-
tavam recheadas de livros até não caber mais como se não houvesse outras pessoas além deles na aldeia de Capricórnio.
Basta não estava agüentando muito bem. Sempre que olhavam para ele, elas viam suas mãos agarradas às barras da grade, os nós dos dedos brancos sob a pele queimada de sol. Uma vez Elinor pensou tê-lo ouvido chorar, mas quando vie-ram buscá-lo na cela seu rosto estava tão inexpressivo como o de um defunto, e depois que o prenderam naquela jaula in-descritível ele se encolheu num canto e ali ficou, imóvel como um boneco com o qual ninguém queria mais brincar.
A jaula tinha cheiro de cachorro e de carne crua, e de fato se parecia com um canil. Alguns dos homens de Capri-córnio passavam o cano da espingarda nas grades cinzentas antes de se sentarem nos bancos a eles destinados. Basta, so-bretudo, ouviu tantos gracejos e injúrias que teriam sido de-mais até para dez homens. Apesar disso, ele não se mexeu uma única vez, e daí se via quão profundo era seu desespero.
Elinor e Teresa, apesar de tudo, mantinham distância dele dentro da jaula, tanto quanto era possível. Elas também ficaram afastadas das grades, e de todos os dedos que se enfi-avam ali, das caretas que faziam para elas, dos cigarros acesos que jogavam em sua direção. Ficaram ali de pé, perto uma da outra, contentes de estar juntas e ao mesmo tempo tristes por isso.
Na beira da praça, logo ao lado da entrada, cuidadosa-mente separadas dos homens, estavam sentadas as mulheres que trabalhavam para Capricórnio. Ali nada se via da excitação alegre e ruidosa que reinava entre os homens. Eram quase to-dos rostos aflitos, e a cada instante um olhar se voltava para Teresa, cheio de medo e compaixão.
Capricórnio chegou quando os longos bancos já esta-vam lotados. Para os garotos não havia lugar, eles se agacha-vam no chão, na frente dos casacos-pretos. Com o rosto i-móvel, Capricórnio passou por eles sem lhes dar atenção, como se fossem apenas um bando de corvos que haviam se
reunido a mando seu. Só diante da jaula em que estavam seus prisioneiros ele afrouxou o passo, para medir cada um deles com um breve olhar de satisfação consigo mesmo. Basta viu toda a sua vida voltar numa fração de segundo quando seu velho senhor e mestre parou diante da grade; então ergueu a cabeça e olhou para Capricórnio, suplicante, como um cão que pede perdão ao seu dono, mas Capricórnio passou sem dizer uma palavra. Depois que o grande vilão se acomodou em sua poltrona de couro preta, Cockerell postou-se de per-nas abertas atrás dele. Aparentemente, ele era o novo favorito.
— Pelo amor de Deus! Pare de olhar para ele desse jei-to! — Elinor ralhou com Basta quando notou que seu olhar ainda estava fixo em Capricórnio. — Ele planeja servir você como uma mosca para um sapo, que tal manifestar um pou-quinho de revolta? Afinal, você sempre teve uma dessas belas ameaças na ponta da língua: vou torcer o seu pescoço, vou picá-lo em pedacinhos... onde elas foram parar?
Mas Basta apenas baixou a cabeça novamente e ficou olhando para o chão entre suas botas. Ele pareceu a Elinor uma ostra da qual alguém sugara a carne e a vida.
Depois que Capricórnio tomou assento e silenciou a música que ecoara na praça o tempo todo, eles trouxeram Meggie. Haviam posto nela um vestido horroroso, mas ela mantinha a cabeça erguida, e a velha, que todos chamavam de gralha, estava tendo trabalho para arrastá-la até o tablado que os casacos-pretos haviam montado no meio do campo de fu-tebol. Em cima dele havia uma única cadeira, que parecia per-dida ali, como se alguém a tivesse esquecido. Uma forca e uma corda teriam parecido mais adequadas a Elinor. Meggie olhou na direção da jaula deles quando a gralha a puxou pela escada de madeira.
— Olá, meu bem! — exclamou Elinor quando Meggie a viu, aterrorizada. — Não se preocupe, só estou aqui porque não queria perder a sua leitura!
Estava tudo tão quieto após a chegada de Capricórnio
que a voz de Elinor ecoou por todo o campo. Ela soou ani-mada e corajosa. Felizmente, ninguém podia ouvir como o seu coração martelava contra suas costelas. Ninguém notou que ela quase sufocava de medo, pois havia vestido sua couraça, sua couraça impenetrável, bastante útil, sob a qual sempre se escondera em tempos difíceis. A cada golpe da dor, ela se tornava um pouco mais dura, e dor não faltara na vida de E-linor.
Alguns dos casacos-pretos riram com suas palavras, e mesmo no rosto de Meggie esboçou-se um sorriso pálido. E-linor pôs o braço no ombro de Teresa e a estreitou junto de si.
— Veja a sua filha! — ela sussurrou para Teresa. — Valente como... como...
Ela queria comparar Meggie a alguma heroína de livro, mas só lhe ocorriam homens, e além disso nenhum deles lhe parecia valente o bastante para se comparar com a menina que estava ali tão aprumada, olhando para os casacos-pretos de Capricórnio de queixo erguido, cheia de orgulho.
A gralha não trouxera apenas Meggie, mas também um homem velho. Elinor supunha que fosse o causador de toda aquela encrenca: Fenoglio, o inventor de Capricórnio, de Bas-ta e de todos os outros monstros, inclusive a criatura que de-veria tirar-lhes a vida naquela noite. Elinor sempre dera mais valor aos livros do que aos escritores, e olhou para o velho sem muita benevolência quando Nariz Chato passou com ele pela jaula. Havia uma cadeira destinada a ele, a apenas alguns passos da poltrona de Capricórnio. Elinor se perguntou se isso queria dizer que Capricórnio havia ganhado um novo amigo, mas, quando Nariz Chato se postou atrás do velho com uma cara enfezada, ela concluiu que na verdade se tratava de mais um prisioneiro.
Capricórnio ergueu-se assim que o senhor se sentou. Sem dizer uma palavra, ele correu os olhos pela longa fileira de seus homens, lentamente, como se evocasse na memória que serviço cada um havia prestado para ele, e também o que
havia feito de errado. O silêncio que se espalhou cheirava a medo. Todas as risadas sumiram, não se ouvia um só sussurro.
— A maioria de vocês — começou Capricórnio com a voz elevada — não precisa de explicações sobre a razão pela qual serão punidos os três prisioneiros que estão vendo ali! Para os demais, é suficiente que eu diga que se trata de traição, tagarelice e estupidez. Certamente é discutível se a estupidez é um crime que merece a morte. Eu penso que sim, pois ela pode ter as mesmas conseqüências que a traição.
Com essa última frase, fez-se um alvoroço nos bancos. De início Elinor pensou que ele havia sido provocado pelas palavras de Capricórnio, mas então ela ouviu os sinos. Até Basta ergueu a cabeça quando seu repicar ecoou pela noite. A um sinal de Capricórnio, Nariz Chato reuniu cinco homens com um aceno de cabeça e, escoltado por eles, retirou-se com passos pesados. Os que ficaram começaram a cochichar, in-quietos, alguns até mesmo se ergueram para olhar na direção da aldeia. Capricórnio, porém, ergueu a mão para dar um fim ao burburinho.
— Não é nada — ele exclamou, com voz tão alta e cortante que de repente todos fizeram silêncio novamente. — Um incêndio, nada mais. E de incêndios afinal de contas nós entendemos bastante, não é mesmo?
Uma risada irrompeu na platéia, mas alguns espectado-res, mulheres e homens, ainda olhavam preocupados para as casas.
Eles haviam conseguido, portanto. Elinor mordeu os lábios com tanta força que começaram a doer. Mortimer e o garoto haviam posto fogo na casa. Ainda não se via a fumaça sobre os telhados, e logo todos os rostos se voltaram tranqüi-lizados novamente para Capricórnio, que começava a contar algo sobre traição e falsidade, sobre disciplina e os perigos da displicência. Mas Elinor o escutava apenas com um ouvido. A todo instante ela olhava para as casas, mesmo sabendo que isso não era inteligente da sua parte.
— Já falei demais sobre os prisioneiros que aqui estão! — exclamou Capricórnio. — Passemos àqueles que escapa-ram.
Cockerell ergueu um saco que estava atrás da poltrona de Capricórnio e o entregou para ele. Capricórnio pôs a mão dentro dele com um sorriso e ergueu algo: um pedaço de te-cido, de uma camisa ou um vestido, rasgado e coberto de sangue.
— Eles estão mortos! — exclamou Capricórnio para a platéia. — É claro que eu preferiria vê-los aqui, mas infeliz-mente não foi possível deixar de atirar neles quando tentavam fugir. Bem, ninguém vai sentir falta do traidor que cuspia fo-go, e que quase todos vocês conheceram, e Língua Encantada por sorte deixou uma filha, que herdou o seu talento.
Teresa se virou para Elinor, os olhos vidrados de medo.
— Ele está mentindo! — sussurrou Elinor, embora ela também não conseguisse desgrudar o olho do pano ensan-güentado. — Está usando as minhas mentiras! Isso não é sangue, é tinta, algum tipo de tinta...
Mas ela viu que Teresa não acreditava nela. Acreditava no trapo ensangüentado, assim como sua filha. Elinor viu isso no rosto de Meggie e teve vontade de gritar que Capricórnio estava mentindo, mas queria que ele continuasse acreditando que todos estavam mortos e que ninguém viria estragar a sua festa.
— Sim, pode se gabar de um trapo sujo de sangue, seu incendiário miserável! — ela gritou pela grade. — Disso você realmente pode se orgulhar. Para que você precisa de mais um monstro? Vocês são todos monstros! Todos os que estão sentados aí! Assassinos de livros, seqüestradores de crianças!
Ninguém lhe deu atenção. Alguns dos casacos-pretos riram. Teresa aproximou-se da grade, agarrou com os dedos o arame fino e olhou para Meggie.
Capricórnio deixou o pano ensangüentado cair no bra-ço da sua poltrona. “Eu conheço esse trapo!”, pensou Elinor
cheia de orgulho. “Já o vi em algum lugar. Eles não estão mortos. Quem mais teria ateado o fogo? O devorador de fós-foros!”, algo sussurrou dentro dela, mas ela não quis ouvir. Não, a história tinha que ter um final feliz. Tinha que ter! Ela nunca gostara de histórias que não terminavam bem.

56. Sombra
Meu céu é latão
Minha terra ferro
Minha lua um bolo de barro
Pestilência o meu sol
Ardendo ao meio-dia
E um vapor de morte
A noite
William Blake, Segunda lamentação de Enion

Muitas vezes, consta nos livros que o ódio é quente, mas na festa de Capricórnio Meggie aprendeu que ele é frio, uma mão gelada que enrijece o coração e o pressiona contra as costelas como um punho fechado. O ódio a fez sentir frio, apesar do ar tépido que a acariciava como se quisesse fazê-la acreditar que o mundo ainda era bom e são, apesar do pano ensangüentado sobre o qual Capricórnio repousava sorridente sua mão cheia de anéis.
— Bem, era isso! — ele exclamou. — Agora vamos ao que nos trouxe aqui efetivamente. Esta noite não queremos apenas punir alguns traidores, mas também festejar a ocasião com o reencontro de um velho amigo. Alguns de vocês cer-tamente ainda se lembram dele, e os outros, eu prometo, ja-mais o esquecerão depois deste encontro.
Cockerell contraiu o rosto magro num sorriso sem gra-ça. Ele não parecia estar muito alegre com esse reencontro, e com as palavras de Capricórnio o medo se estampou também
em outros rostos.
— Bem, chega de conversa. Agora ouviremos uma lei-tura.
Capricórnio recostou-se em sua poltrona e fez um sinal para a gralha.
Mortola bateu palmas e Darius atravessou a praça a-pressado, trazendo o estojo que Meggie vira pela última vez no quarto da gralha. Ele parecia saber o que havia dentro. Seu rosto estava mais magro do que de costume quando ele abriu o estojo e o entregou para a gralha baixando a cabeça num gesto servil. As cobras deviam estar dormindo, pois dessa vez Mortola não calçou a luva para pegá-las. Ela até mesmo as pendurou no ombro enquanto tirava o livro do estojo. Depois ela pôs as cobras de volta, cuidadosamente, como se fossem jóias preciosas, fechou a tampa e devolveu o estojo para Da-rius, que ficou parado com um ar de constrangimento. Meggie viu o olhar de piedade do antigo leitor de Capricórnio quando a gralha a levou para a cadeira e pôs o livro em seu colo.
Ali estava ele novamente, em seu traje de papel colori-do, o causador daquela calamidade. Que cor ele teria por bai-xo? Meggie levantou a sobrecapa e viu um tecido verme-lho-escuro, vermelho como as chamas que envolviam o cora-ção negro. Tudo o que havia acontecido começara entre as páginas daquele livro, e agora a salvação só podia vir de seu autor. Meggie passou a mão na capa, como sempre fazia antes de abrir um livro. Ela copiara esse gesto de Mo. Desde que se entendia por gente, ela se lembrava deste movimento: como ele pegava um livro, passava a mão pela capa quase carinho-samente e então o abria, como se fosse uma caixa repleta de preciosidades nunca antes vistas. Naturalmente, as maravilhas que ele esperava encontrar muitas vezes não estavam atrás da capa, então ele fechava o livro de novo, desapontado com as promessas não cumpridas. Mas Coração de tinta não era desse tipo. Histórias ruins não despertavam para a vida. Nelas nunca havia um Dedo Empoeirado, nem mesmo um Basta.
— Tenho uma coisa a lhe comunicar! — o vestido da gralha tinha cheiro de lavanda. O perfume envolveu Meggie como uma ameaça. — Se você não fizer direito a sua tarefa, caso passe pela sua cabecinha a idéia de errar de propósito ou de torcer as palavras para que o convidado de Capricórnio não venha, então Cockerell — Mortola estava tão perto que Meg-gie sentiu seu hálito — vai cortar o pescoço do velho ali. Tal-vez Capricórnio não ordene que ele faça isso, pois acredita nas mentiras estúpidas do velho, mas eu não acredito e Cockerell fará o que eu mandar. Você me entendeu, anjinho?
Ela beliscou a bochecha de Meggie com seus dedos magros. Meggie empurrou a mão de Mortola e olhou para Cockerell. Ele estava atrás de Fenoglio, sorrindo para ela, e passou o dedo no pescoço do escritor num gesto de ameaça.
Fenoglio o empurrou e lançou para Meggie um olhar que deveria dizer tudo de uma vez só: incentivo e consolo, e uma risada muda perante todos os horrores que os cercavam. O êxito do plano dependeria dele, apenas dele e de suas pala-vras.
Meggie sentiu o papel em sua manga, ele pinicava a pe-le. Suas mãos lhe pareceram as mãos de uma outra pessoa quando ela começou a folhear o livro. O trecho onde deveria começar a leitura não estava mais marcado pelo canto dobra-do da página. Entre as páginas havia um marcador, preto co-mo carvão. “Tire o cabelo da testa!”, dissera Fenoglio. “Será o sinal para mim.” Mas justamente quando ela ia erguer a mão esquerda, começou um novo tumulto nos bancos.
Nariz Chato voltara, com o rosto coberto de fuligem. Ele correu até Capricórnio e disse algo em seu ouvido. Capri-córnio franziu a testa e ergueu o olhar na direção das casas. Meggie viu duas colunas de fumaça, ao lado da torre da igreja. Pálidas, elas subiam bem alto no céu.
Mais uma vez, Capricórnio ergueu-se da poltrona. Ele tentou falar de modo sereno e irônico, como um homem que se divertia com uma traquinagem infantil, mas seu rosto dizia
outra coisa.
— Sinto muito ter que estragar um pouco a festa para alguns de vocês, mas esta noite o galo vermelho também está cantando entre nós. E só um franguinho, mas teremos que torcer o pescoço dele assim mesmo. Nariz Chato, pegue dez homens.
Nariz Chato obedeceu e saiu dali com seus novos aju-dantes. Agora os bancos estavam visivelmente mais vazios.
— Não dêem as caras por aqui antes de ter encontrado o incendiário! — exclamou Capricórnio atrás deles. — Vamos ensinar para ele, aqui e ainda esta noite, o que significa pôr fogo na casa do Diabo.
Alguém riu. Mas quase todos os que haviam ficado o-lhavam inquietos na direção da aldeia. Algumas das criadas até mesmo haviam se levantado, porém a gralha chamou uma a uma pelo nome com sua voz cortante e elas logo se sentaram entre as outras, como estudantes que levaram palmadas nas mãos. Apesar disso, a inquietação permaneceu. Poucos olha-vam para Meggie, quase todos estavam de costas para ela, a-pontando para a fumaça e cochichando. Da torre da igreja subia um clarão avermelhado, e sobre os telhados erguia-se a fumaça cinzenta.
— O que é isso? O que tanto olham para um pouco de fumaça? — Agora a irritação na voz de Capricórnio era evi-dente. — Um pouco de fumaça, algumas chamas. E dai? Por acaso vamos deixar que isso estrague a festa? O fogo é o nos-so melhor amigo, esqueceram?
Meggie viu os rostos se voltarem hesitantes para ele novamente. E então ela ouviu um nome. Dedo Empoeirado. Uma voz de mulher o havia pronunciado.
— O que é isso? — a voz de Capricórnio soou tão cortante que Darius quase deixou cair da mão o estojo com as cobras. — Não existe mais nenhum Dedo Empoeirado. Ele está deitado nas colinas, com a boca cheia de terra e a marta no peito. Não quero mais ouvir o nome dele. Ele está esque-
cido, como se nunca houvesse existido...
— Não é verdade — a voz de Meggie ecoou tão alto na praça que ela própria se assustou. Ela ergueu o livro. — Ele está aqui. Não importa o que vocês façam com ele. Todos os que lerem esta história poderão vê-lo, até mesmo ouvir a sua voz, e também poderão vê-lo rir e cuspir fogo.
O campo de futebol ficou em silêncio, em silêncio completo. Apenas alguns pés raspavam inquietos o saibro, quando de repente Meggie ouviu algo atrás de si. Era um ti-quetaque, como o de um relógio, mas que ao mesmo tempo soava diferente, como a língua de uma pessoa imitando o ti-quetaque: tique, taque, tique, taque, tique, taque. O som vinha dos automóveis que estavam estacionados atrás do alambrado e iluminavam a praça com a luz de seus faróis. Meggie não pôde evitar, olhou em volta, apesar da gralha e de todos os olhares desconfiados que se voltavam para ela. Se achou tão insensata que merecia umas palmadas. E agora, se os outros também vissem a figura, a figura pequena que se erguera entre os automóveis e se agachara depressa novamente. Mas nin-guém pareceu ter notado, nem o olhar dela nem o tiquetaque.
— Foi um belo discurso! — disse Capricórnio lenta-mente. — Mas você não está aqui para fazer discursos fúne-bres para traidores mortos. Você está aqui para ler. E não vou repetir isso!
Meggie se obrigou a olhar para ele. Só para não olhar para os automóveis. E se realmente fosse Farid? E se o tique-taque não fosse imaginação dela?...
A gralha olhou desconfiada ao redor. Talvez ela tam-bém tivesse ouvido o tiquetaque, baixinho e inocente, nada mais do que uma língua que alguém batia contra os dentes. Mas o que significava aquilo? A não ser que alguém ali co-nhecesse a história do Capitão Gancho e de seu medo do crocodilo com o relógio na barriga... A gralha com certeza não conhecia. Mas Mo sabia que Meggie entenderia o seu sinal. Quantas vezes ele não a despertara com o tiquetaque, bem
pertinho de seu ouvido, tão pertinho que fazia cócegas? “Ca-fé-da-manhã, Meggie!”, ele sussurrava. “O crocodilo chegou!”
Sim, Mo sabia que ela reconheceria o tiquetaque que Peter Pan imitara para se aproximar do barco do Capitão Gancho e salvar Wendy. Foi um ótimo sinal.
“Wendy!”, pensou Meggie. Como é que continuava a história? Por um momento ela quase esqueceu onde estava, mas a gralha a fez lembrar. Bateu em sua cabeça com a palma da mão.
— Comece de uma vez, sua bruxinha! — ela disse entre os dentes. E Meggie obedeceu.
Ela retirou depressa o marcador preto de cima das le-tras. Tinha que se apressar, tinha que ler antes que Mo fizesse alguma besteira. Afinal, ele não sabia o que ela e Fenoglio planejavam.
— Agora vou começar, e não quero que ninguém me atrapalhe! — ela gritou. — Ninguém! Entenderam?
“Por favor!”, ela pensou, “Por favor, não tente fazer nada!” Alguns dos homens de Capricórnio que ainda estavam ali riram, mas este encostou-se e cruzou os braços com grande expectativa.
— Sim, gravem bem o que a menina falou! — ele ex-clamou. — Quem perturbar será servido para Sombra como aperitivo de boas-vindas!
Meggie enfiou dois dedos na manga do vestido. Ali es-tavam elas, as palavras de Fenoglio. Ela olhou para a gralha.
— Ela está me atrapalhando! — ela disse em voz alta. — Não consigo ler se ela ficar atrás de mim.
Capricórnio fez um sinal impaciente para a gralha. Mortola fez uma careta, como se ele tivesse lhe ordenado que comesse sabão, mas deu um passo para trás, dois, três passos hesitantes. Devia bastar.
Meggie ergueu a mão e tirou o cabelo da testa.
O sinal de Fenoglio.
Imediatamente, ele deu início à sua representação.
— Não! Não! Não! Ela não vai ler — ele exclamou, dando um passo em direção a Capricórnio, antes que Cocke-rell pudesse detê-lo. — Não posso admitir uma coisa dessas! Sou o inventor dessa história, e não a escrevi para que fosse usada para matar e assassinar!
Cockerell tentou tapar a boca de Fenoglio com a mão, mas ele mordeu seus dedos e esquivou-se com uma destreza que Meggie jamais esperaria do velho escritor.
— Eu o criei! — ele bradou enquanto Cockerell o per-seguia ao redor da poltrona de Capricórnio. — E me arre-pendo! Oh, criatura torpe com cheiro de enxofre!
Então ele correu para a praça. Antes de chegar à jaula com os prisioneiros, Cockerell o alcançou. Para se vingar da zombaria vinda dos bancos que a cena lhe rendeu, ele girou com tanta força o braço de Fenoglio que o velho deu um grito de dor. Mas ele parecia satisfeito quando Cockerell o arrastou de volta para o lado de Capricórnio, muito satisfeito, pois sa-bia que tinha dado tempo suficiente a Meggie. Eles haviam treinado bastante. Seus dedos tremeram quando ela puxou a folha de dentro da manga, mas ninguém percebeu que ela a enfiou entre as páginas do livro. Nem mesmo a gralha.
— Mas que velho mais fanfarrão! — exclamou Capri-córnio. — Por acaso eu tenho cara de quem foi inventado por alguém como ele?
Mais uma vez, irromperam as gargalhadas. A fumaça sobre a aldeia parecia ter sido esquecida. Cockerell tapou a boca de Fenoglio com a mão.
— Mais uma vez, e espero que seja realmente a última! — gritou Capricórnio para Meggie. — Comece! Os prisionei-ros já esperaram demais por seu carrasco.
Mais uma vez o silêncio se espalhou, mais uma vez ele cheirava a medo.
Meggie curvou-se sobre o livro em seu colo.
As letras pareciam dançar nas páginas.
“Venha!”, pensou Meggie. “Venha e nos salve. A todos
nós: Elinor e minha mãe, Mo e Farid. Salve Dedo Empoeira-do se ele ainda estiver aqui e, por mim, salve até mesmo Bas-ta.”
Ela sentia sua língua como um animalzinho que havia se refugiado em sua boca e agora batia com a cabeça em seus dentes.
— “Capricórnio tinha muitos homens”, ela começou. “E to-dos eles eram temidos nos vilarejos vizinhos. Eles fediam a fumaça fria, a enxofre e a tudo que cheirava afogo. Quando um deles aparecia nos cam-pos ou nas ruas, todos trancavam as portas e escondiam suas crianças. ‘Mãos-de-fogo’ era como as pessoas os chamavam, cães sanguinários. Os homens de Capricórnio tinham muitos nomes. Eram temidos durante o dia, e à noite entravam nos sonhos das pessoas para assustá-las. Mas havia alguém que era mais temido do que todos os outros homens de Ca-pricórnio.”— Meggie tinha a impressão de que sua voz crescia a cada palavra. Ela parecia estar por toda parte. — “Eles o cha-mavam de Sombra.”
Mais duas linhas, então virar a página. As palavras de Fenoglio esperavam ali. “Dê só uma olhada, Meggie!”, ele sussurrara ao lhe mostrar a folha. “Não sou um artista? Existe algo mais belo neste mundo do que as letras? Sinais mágicos, vozes dos mortos, peças de mundos maravilhosos, melhores do que este. Elas consolam e espantam a solidão. São guardiãs de segredos, arautos da verdade...”
“Saboreie cada palavra, Meggie”, a voz de Mo sussur-rava dentro dela. “Deixe-as derreter na boca. Está saboreando as cores? O vento e a noite? O medo e alegria? E o amor. Sa-boreie, Meggie, e tudo despertará para a vida.”
— “Eles o chamavam de Sombra. Ele aparecia apenas quando Capricórnio o evocava”— ela leu. Como o s sibilara, e que escuro saíra o o! — “Ora ele era vermelho como o Jogo, ora da cor das cinzas em que transformava tudo o que devorava. Como as chamas de uma fo-gueira, ele se erguia da terra em labaredas. Seus dedos, e até mesmo o seu hálito, traziam a morte. Ele se erguia dos pés do senhor dele,furtivo e sem rosto como um cão farejador, esperando que sua vítima fosse apontada.
Dizia-se que Capricórnio mandara que um duende (ou um dos anões que entendiam de tudo o que o fogo e a fumaça são capazes de produzir) cri-asse Sombra a partir das cinzas de suas vítimas. Ninguém sabia ao cer-to, pois dizia-se que Capricórnio mandara matar aquele que havia dado vida a Sombra. Apenas uma coisa se sabia: que ele era imortal e invul-nerável, e cruel como seu senhor.”
A voz de Meggie sumiu como se o vento a tivesse apa-gado dos lábios.
Algo se ergueu do cascalho que cobria a praça, cresceu nas alturas, estendeu seus membros cinzentos. A noite recen-dia a enxofre. O cheiro ardia tanto nos olhos de Meggie que todas as letras ficaram embaçadas, mas ela tinha que continuar a ler, enquanto a medonha criatura crescia, cada vez mais para o alto, como se quisesse tocar o céu com seus dedos de enxo-fre.
“Uma noite, porém, uma noite tépida e estrelada, quando Som-bra apareceu, ele não ouviu a voz de Capricórnio, e sim a voz de uma menina. Quando ela pronunciou seu nome, ele se lembrou de todas aque-las pessoas de cujas cinzas era formado, de toda a dor e toda a triste-za...”
A gralha apareceu atrás dos ombros de Meggie.
— O que é isso? O que você está lendo?
Mas Meggie levantou-se e esquivou-se antes que ela pudesse lhe arrancar a folha.
— “Ele se lembrou” — ela continuou a ler com voz bem alta — “e resolveu se vingar, se vingar de todos os que eram a causa daquela infelicidade, dos que haviam assombrado o mundo com sua cru-eldade.”
— Faça ela parar!
Era a voz de Capricórnio? Meggie quase tropeçou na borda do tablado ao tentar se esquivar da gralha. Darius estava ali, com o estojo na mão, como que embasbacado. E de re-pente, devagar como se tivesse todo o tempo do mundo, ele pôs o estojo no chão e agarrou a gralha por trás com seus braços finos. E não a largou, por mais que ela xingasse e se
debatesse. E Meggie continuou a ler, com o olhar voltado para Sombra, que estava diante dela e a encarava do alto. Ele real-mente não tinha rosto, mas tinha olhos, olhos terríveis, ver-melhos como o brilho que ardia entre as casas, como as brasas de um fogo oculto.
— Tirem o livro dela! — gritou Capricórnio. Ele estava de pé diante de sua poltrona, como se estivesse com medo de que as próprias pernas se recusassem a obedecer-lhe se ele desse um só passo em direção a Sombra. — Tirem o livro de-la!
Mas nenhum dos seus homens se mexeu, nenhum dos jovens, nenhuma das mulheres tentou ajudá-lo. Todos olha-vam apenas para Sombra, que estava ali imóvel e escutava a voz de Meggie como se ela lhe contasse uma história esqueci-da havia muito tempo.
— “Sim, ele queria se vingar” — Meggie continuou a ler. Se pelo menos sua voz não tremesse tanto, mas não era fácil matar, mesmo que alguém fizesse isso por ela. — “£ assim Sombra foi até o seu senhor e estendeu sua mão cinzenta...”
Como se movia com silêncio a figura assustadora e gi-gantesca! Meggie olhou para a próxima frase de Fenoglio: “E Capricórnio caiu de bruços e seu coração negro parou de bater.
Ela não conseguia dizer, não conseguia.
Tudo tinha sido em vão.
Então de repente havia alguém atrás dela, ela absoluta-mente não notara quando ele subira no tablado. O garoto que estava com ele carregava uma espingarda, que apontava para o banco de forma ameaçadora, mas ninguém se mexeu. Nin-guém mexeu um só dedo para salvar Capricórnio. E Mo tirou o livro da mão de Meggie, correu os olhos pelas linhas que Fenoglio havia acrescentado e, com voz firme, leu até o fim o que o velho homem escrevera.
— “E Capricórnio caiu de bruços e seu coração negro parou de bater, e todos que haviam incendiado e assassinado a seu serviço desapa-receram, como cinzas levadas pelo vento.

57. Apenas uma aldeia abandonada

Nos livros encontro os mortos como se estives-sem vivos, nos livros vejo o que está por vir.
Tudo se deteriora e desaparece com o tempo, toda a glória cairia no esquecimento se Deus não tivesse dado aos mortais o recurso dos livros.
Richard de Bury, citado por Alberto Manguel

Assim morreu Capricórnio, exatamente como Fenoglio descrevera. Cockerell desapareceu no mesmo instante em que seu senhor caiu no chão, e com ele mais da metade dos ho-mens que estavam nos bancos. Os demais fugiram, todos saí-ram correndo, os garotos e as mulheres também. Ao seu en-contro, vinham os homens que Capricórnio enviara para apa-gar o fogo e os que deveriam procurar o incendiário. Seus rostos estavam sujos de fuligem e cheios de horror, não por causa das chamas na casa de Capricórnio... eles já as haviam apagado. Não. Nariz Chato havia se dissolvido no ar diante de seus olhos, e com ele ainda outros. Eles haviam sumido como se tivessem sido engolidos pela escuridão, como se nunca ti-vessem existido, e talvez fosse isso mesmo. O homem que os havia criado também os havia destruído, apagado como erros num desenho, manchas no papel branco. Eles haviam desa-parecido, e os outros, que não eram fruto das palavras de Fe-noglio, correram de volta para relatar a Capricórnio o terrível fenômeno. Mas Capricórnio estava deitado de bruços, com seu terno vermelho sobre o cascalho, e nunca mais alguém lhe
contaria nada sobre fogo e fumaça, sobre medo e morte. Nunca mais.
Apenas Sombra estava ali, tão grande que os homens que haviam corrido para o estacionamento puderam vê-lo de longe, cinzento diante do céu negro da noite, com olhos feito duas estrelas incandescentes, e esqueceram o que tinham para contar. Todos dispararam em direção aos automóveis esta-cionados, tudo o que queriam era ir embora, para bem longe, antes que o ser que havia sido convocado como um cão de-vorasse todos eles.
Meggie só voltou a si quando todos haviam ido embo-ra. Ela enfiara a cabeça debaixo do braço de Mo, como sem-pre fazia quando não queria mais ver o mundo. Mo havia posto o livro debaixo do casaco, que de fato o fazia parecer um dos homens de Capricórnio, e a segurara enquanto tudo ao seu redor corria e gritava. Apenas Sombra estava ali, em silêncio completo, como se matar seu senhor tivesse exaurido suas forças.
— Farid — Meggie ouviu Mo dizer em algum mo-mento. — Você pode abrir a jaula ali?
Só então ela tirou a cabeça de sob o braço de Mo e viu que a gralha ainda estava ali. Por que ela não desaparecera? Darius ainda a segurava, como se tivesse medo do que acon-teceria se a soltasse. Mas ela não chutava nem se debatia mais. Olhava para Capricórnio, e as lágrimas escorriam pelo seu rosto anguloso e pelo seu queixo fino e pingavam como chuva em seu vestido.
Farid pulou do tablado, ágil como Gwin, e correu para a jaula sem tirar os olhos de Sombra. Mas ele não se mexia mais, estava apenas ali, como se nunca mais fosse se mexer.
— Meggie — sussurrou Mo em seu ouvido. — Vamos até os prisioneiros, está bem? A pobre Elinor parece meio a-balada, e além disso eu gostaria de lhe apresentar alguém.
Farid ainda não havia conseguido abrir a jaula, e as duas mulheres olhavam para ele.
— Não precisa me apresentar — disse Meggie, aper-tando sua mão. — Eu sei quem ela é. Eu já sei faz tempo, e gostaria tanto de ter lhe contado, mas você não estava aqui. Agora temos que ler mais uma coisa. As últimas frases.
Ela tirou o livro do casaco de Mo, e folheou até encon-trar a página escrita com a letra de Fenoglio.
— Ele escreveu no verso, não cabia mais. Ele não con-segue escrever com letra miúda.
Fenoglio.
Ela deixou cair a folha e olhou ao redor à procura dele, mas não conseguiu descobri-lo em nenhum lugar. Será que os homens de Capricórnio o haviam levado ou...
— Mo, ele não está aqui! — ela disse, atônita.
— Já irei procurá-lo — Mo a tranqüilizou. — Mas ago-ra leia, depressa! Ou prefere que eu leia?
— Não!
Sombra começou a se mexer novamente e deu um passo em direção ao corpo de Capricórnio, cambaleou para trás e virou-se, pesado como um urso dançarino. Meggie pensou ter ouvido um gemido. Farid agachou-se ao lado da jaula, quando os olhos vermelhos se voltaram em sua direção. Também a mãe de Meggie e Elinor recuaram. Meggie, porém, começou a ler. Com voz firme:
— “Sombra estava ali, e as lembranças lhe doíam tanto que quase o dilaceravam. Ele os ouvia em sua cabeça, todos os gritos e gemi-dos, e pensou ter sentido lágrimas em sua pele cinzenta. Seu medo quei-mava como fumaça em seus olhos. E então, deforma totalmente repentina, ele teve uma sensação diferente. Ela o fez cair ao chão, obrigou-o a se ajoelhar, e toda a sua tétrica figura desintegrou-se. De repente todos esta-vam ali novamente, todos de cujas cinzas ele fora criado: mulheres e ho-mens, crianças, cães, gatos, duendes,fadas e muitos outros.”
Meggie viu a praça vazia se encher, cada vez mais. Eles se apinhavam no lugar onde Sombra havia caído, olhavam ao seu redor como dorminhocos que tivessem acordado de um longo sono, e então Meggie leu a última frase de Fenoglio.
“Eles acordaram como que de um sonho ruim, e finalmente tudo ficou bem.”
— Ele não está aqui! — disse Meggie, quando Mo tirou a folha de Fenoglio de sua mão e a pôs de volta dentro do li-vro. — Ele se foi, Mo! Ele está no livro. Eu sei.
Mo examinou o livro e o pôs de volta debaixo do ca-saco.
— Acho que você tem razão — ele disse. — Mas, se for assim, não podemos mudar isso por enquanto.
Então ele puxou Meggie para perto de si, os dois des-ceram do tablado e passaram por todas as pessoas e seres es-tranhos que se aglomeravam na praça de Capricórnio, como se sempre tivessem estado ali. Darius os seguiu, ele havia fi-nalmente soltado a gralha, que estava de pé ao lado da cadeira na qual Meggie se sentara, com a mão nodosa no encosto, e chorava em silêncio, com o rosto imóvel como se consistisse apenas em lágrimas.
Uma fada minúscula, de pele azul, voou até os cabelos de Meggie e se desculpou com mil palavras, enquanto ela an-dava com Mo em direção à jaula onde estavam Elinor e sua mãe. Um sujeito cabeludo, parecendo meio gente, meio bicho, tropeçou nos pés de Meggie, e ela quase pisou num homen-zinho muito pequeno que parecia ser todo feito de vidro. A aldeia de Capricórnio recebera alguns estranhos novos mora-dores.
Farid ainda tentava abrir a fechadura quando eles che-garam. Irritado, ele enfiava alguma coisa nela sem parar de resmungar. Dedo Empoeirado lhe mostrara direitinho como se fazia, mas aquela era uma fechadura muito especial.
— Pois é, que maravilha! — disse Elinor com ironia, encostando o rosto na grade diante deles. — Infelizmente, como esse Sombra não nos comeu no jantar, teremos que morrer de fome nesta jaula. O que você me diz da sua filha, Mo? Não é uma garota muito corajosa? Eu não teria conse-guido dizer uma palavra, nem uma única palavra. Meu Deus, o
meu coração quase parou quando aquela velha quis tirar o li-vro dela.
Mo pôs a mão no ombro de Meggie e sorriu, mas olhou para outra pessoa. Nove anos são um tempo longo, muito longo.
— Consegui! Consegui! — exclamou Farid, empurran-do a porta da jaula.
Mas, antes que as duas mulheres pudessem dar um passo em direção à porta, uma figura se ergueu no canto mais escuro do canil, avançou com um salto e agarrou a primeira que estava no seu caminho: a mãe de Meggie.
— Parem! — disse Basta entre os dentes. — Parem, para que tanta pressa? Aonde você quer ir, Resa? Para a sua querida família? Você acha que eu não ouvi os cochichos lá embaixo na cripta? Ah, mas eu ouvi muito bem.
— Solte-a! — gritou Meggie. — Solte-a!
Por que ela não havia prestado atenção naquela trouxa escura, tão imóvel num canto? Como pudera pensar que Basta estaria morto como Capricórnio? Mas por que não estava? Por que ele não desaparecera, como Nariz Chato e Cockerell e todos os outros?
— Solte-a, Basta! — Mo disse em voz baixa, como se não tivesse forças para mais nada. — Você não sairá daqui, não com ela. Ninguém o ajudará, todos se foram.
— Oh, eu vou sair, sim! — retrucou Basta com voz maldosa. — Eu a estrangularei se você não me deixar passar. Vou quebrar seu pescocinho fino. Você sabia que ela é muda? Ela não pode dar nenhum pio, porque o charlatão do Darius a leu assim. Ela é um peixe mudo, um belo peixe, mas mudo. No entanto, pelo que conheço de você, sei que a quer assim mesmo, não é?
Mo não respondeu, e Basta riu.
— Por que você não está morto? — gritou Elinor. — Por que você não caiu morto como o seu senhor nem se dis-solveu no ar? Diga logo!
Basta sacudiu os ombros.
— Sei lá eu — ele rosnou, enquanto apertava o pesco-ço de Resa com a mão. Ela tentou chutá-lo, mas ele apenas apertou ainda mais. — Afinal de contas, a gralha também está aqui. Bem, mas ela sempre deixou o trabalho sujo para os ou-tros e, quanto a mim, talvez eu agora faça parte dos bons porque eles me puseram na jaula. Talvez eu ainda esteja aqui porque fazia tempo que eu não aprontava nada e Nariz Chato tinha muito mais prazer em matar. Talvez, talvez, talvez... seja lá como for, ainda estou aqui... e agora me deixe passar, sua devoradora de livros!
Mas Elinor não se mexeu.
— Não! — ela disse. — Você não sai daqui se não a soltar! Nunca pensei que esta história acabaria bem, mas aca-bou. E não vai ser um cretino como você que vai estragá-la no último minuto. Ou eu não me chamo Elinor Loredan!
Com um ar decidido, ela se plantou diante da porta da jaula.
— Desta vez você não está com a sua navalha! — ela continuou em tom ameaçador. — Você só tem essa sua boca suja, e acredite que ela não vai ajudar muito. Enfie os dedos nos olhos dele, Teresa! Chute e morda esse sujeitinho ordiná-rio!
Mas, antes que Teresa pudesse obedecer, Basta a em-purrou para a frente, com tanta força que ela tropeçou em E-linor e a derrubou. Elinor e também Mo, que estava indo so-corrê-la.
Basta correu para a porta aberta da jaula, empurrou Fa-rid e Meggie para o lado e saiu em disparada pelo meio de to-das as criaturas que vagueavam feito sonâmbulos pela praça da festa de Capricórnio. Antes que Farid e Mo pudessem cor-rer atrás de Basta, ele desaparecera.
— Bem, fabuloso! — murmurou Elinor, enquanto se arrastava com Teresa para fora da jaula. — Agora esse tipo vai me perseguir nos meus sonhos e, sempre que eu ouvir algum
ruído lá fora no meu jardim, vou imaginar que a navalha dele está no meu pescoço.
* * *
Não apenas Basta, mas também a gralha desapareceu sem deixar vestígios naquela noite. E quando eles se arrasta-ram cansados para o estacionamento em busca de um veículo que pudesse levá-los para fora da aldeia de Capricórnio, todos haviam desaparecido. Não havia mais um único automóvel no estacionamento escuro.
— Oh, não, por favor, diga que isso não é verdade! — gemeu Elinor. — Isso significa que teremos que ir a pé de novo, por todo esse maldito caminho cheio de espinhos?
— A não ser que por acaso você tenha um telefone — disse Mo. Ele não se afastara um só passo de Teresa desde que Basta se fora.
Olhara preocupado para o pescoço dela, onde ainda se viam as manchas vermelhas que os dedos de Basta haviam deixado. Ele tomara uma mecha de seus cabelos nos dedos e dissera que, escuros daquele jeito, eles eram quase mais boni-tos. Mas nove anos são de fato um longo tempo, e Meggie observou como eles se aproximavam um do outro com cui-dado, como duas pessoas em cima de uma ponte estreita que cruza um vasto nada.
Naturalmente, Elinor não tinha um telefone. Capricór-nio mandara confiscar o dela, e, embora Farid tivesse se ofe-recido imediatamente para procurá-lo na casa incendiada de Capricórnio, ele não foi encontrado.
Assim, eles finalmente decidiram passar uma última noite na aldeia, junto com todos os outros que Fenoglio havia resgatado da morte. A noite ainda estava maravilhosamente amena, e eles poderiam dormir muito bem entre as árvores.
Junto com Mo, Meggie arranjou cobertores em número suficiente. Não foi difícil encontrá-los na aldeia mais uma vez
abandonada. Eles só não entraram na casa de Capricórnio. Meggie não queria pisar novamente naquela soleira, e não era por causa do cheiro penetrante de queimado que ainda saía pelas janelas, nem das portas carbonizadas, mas sim das recordações que, só de olhar para a casa, a assaltavam como animais ferozes.
Quando estava deitada junto com Mo e sua mãe de-baixo dos velhos carvalhos à margem do estacionamento, ela não parava de pensar em Dedo Empoeirado, e se perguntava se Capricórnio realmente mentira no caso dele e se ele de fato não estaria enterrado em algum lugar nas colinas. “Provavelmente nunca saberei o que foi feito dele”, ela pensou, en-quanto uma fada azul balançava num dos galhos com uma expressão enigmática.
Toda a aldeia parecia encantada naquela noite. O ar estava cheio de murmúrios, e as figuras que vagavam pelo estacionamento pareciam ter saído de sonhos de crianças, e não das palavras de um velho homem. Meggie também se perguntou várias vezes naquela noite onde andaria Fenoglio e se ele estava gostando de fazer parte de sua própria história. Ela desejava muito que ele estivesse satisfeito, mas sabia que o escritor sentiria falta de seus netos e das brincadeiras de esconde-esconde no armário da cozinha.
Antes de fechar os olhos, Meggie viu Elinor perambu-lando entre os duendes e as fadas, com uma expressão tão feliz como ela nunca vira antes. A esquerda e a direita de Meggie, porém, estavam seus pais, e sua mãe escrevia, em folhas de árvores, no tecido de seu vestido e na areia. Havia tantas palavras que queriam ser contadas...

58. Nostalgia

Mas Bastian sabia que não poderia ir embora sem o livro. Agora ele se dava conta de que en-trara ali somente por causa daquele livro, que o livro o havia chamado de alguma forma misteri-osa, pois queria chegar até ele, pois na verdade sempre lhe pertencera!
Michael Ende, A história sem Jim

Dedo Empoeirado assistiu a tudo, de cima de um te-lhado, a uma distância que permitiu que ele se sentisse seguro contra Sombra e ao mesmo tempo acompanhasse tudo o que acontecia — com o binóculo que encontrara na casa de Basta. Inicialmente, ele pretendia ficar em seu esconderijo. Já vira Sombra matar tantas vezes! Mas uma sensação estranha, irra-cional como os amuletos de Basta, o impelia: a de que ele po-deria proteger o livro com sua simples presença. Enquanto se esgueirava pela rua, ele também sentiu outra coisa, algo que apenas admitia a contragosto: Dedo Empoeirado queria ver Basta morrer, com o mesmo binóculo que ele usara tantas ve-zes para observar suas futuras vítimas.
E então ele estava ali, sentado em cima de um telhado esburacado, com as costas apoiadas na chaminé fria e o rosto coberto de fuligem (pois o rosto é um clarão denunciador na noite), observando a fumaça subir no ponto onde ficava a casa de Capricórnio. Ele viu Nariz Chato sair correndo com alguns homens para apagar o fogo. Viu como Sombra se ergueu do
chão, como o velho homem desapareceu, com um espanto indescritível no rosto, e como Capricórnio morreu da morte que ele mesmo evocara. Basta infelizmente não morrera, o que era realmente irritante. Dedo Empoeirado o viu fugir. A gralha o seguiu, ele também viu.
Ele viu tudo: Dedo Empoeirado, o espectador.
Tantas vezes ele fora somente um espectador, e aquela nem era a história dele. O que ele tinha a ver com Língua En-cantada e sua filha, o garoto, aquela doida dos livros e a mu-lher que agora pertencia a um outro? Ela poderia ter fugido com ele, mas ficara na cripta, com sua filha. E ele a expulsara de seu coração, como sempre fazia quando alguém queria se acomodar ali de forma duradoura. Estava feliz por Sombra não a ter levado, mas ela não tinha mais nada a ver com ele. A partir de agora, Resa contaria a Língua Encantada todas as maravilhosas histórias que haviam espantado a solidão, as saudades e o medo. O que isso lhe importava?
E as fadas e os duendes que agora perambulavam pela aldeia de Capricórnio? Tinham tanto a fazer naquele mundo quanto ele, e também não o deixariam esquecer que ele estava ali apenas por um motivo. Apenas o livro ainda o interessava, apenas o livro. Quando ele viu como Língua Encantada o guardou no casaco, decidiu recuperá-lo. Pelo menos o livro seria dele, tinha que ser.
O velho agora estava lá dentro, o velho de rosto enru-gado. Louco. “Sim, o seu medo, Dedo Empoeirado!”, ele pensou, amargurado. “Você é e sempre será um covarde. Por que você não estava ao lado de Capricórnio? Por que você não se arriscou a ficar atrás dele, talvez então você tivesse desapare-cido no lugar do velho.”
A fada com asas de borboleta e rosto branco como leite voara atrás dele. Ela era uma criaturinha vaidosa. Toda vez que via o próprio reflexo em alguma janela, ficava ali um tempo, sorrindo esquecida da vida, virando e girando no ar, ajeitando os cabelos com os dedos, contemplando a si mesma
como se a cada vez se encantasse novamente com sua própria beleza. As fadas que ele conhecia não eram especialmente vaidosas, ao contrário, às vezes tinham um prazer especial em besuntar seus minúsculos rostinhos com lama ou pólen e en-tão perguntar entre risadinhas qual delas se escondia atrás de toda aquela sujeira.
“Talvez eu devesse capturar uma para mim”, pensou Dedo Empoeirado. Ela poderia me tornar invisível. Seria ma-ravilhoso poder voltar a ficar invisível. E um duende desses — eu poderia me exibir com ele. Todos acreditariam que ele não passava de um homem minúsculo, vestindo uma roupa de pele. Ninguém sabia plantar bananeira por tanto tempo quan-to um duende, ninguém sabia fazer caretas tão bem, e as suas danças divertidas então... Sim, por que não?
Quando a lua já havia percorrido metade do céu e De-do Empoeirado ainda estava no telhado, a fada com asas de borboleta começou a ficar impaciente. Seu tilintar soava estri-dente e furioso quando ela voava ao redor dele. O que ela queria? Que ele a levasse de volta para o lugar de onde viera, para o lugar onde todas as fadas tinham asas de borboleta e entendiam a língua dela?
— Você está falando com a pessoa errada — ele disse baixinho para ela. — Está vendo lá embaixo a menina e o homem que está sentado ao lado da mulher com os cabelos loiros escuros? Eles são as pessoas certas para levá-la ao seu mundo. Mas já vou lhe adiantando: eles são ótimos para tirar alguém do seu lugar, só que não entendem muito de mandar de volta. Mas tente mesmo assim! Talvez você tenha mais sorte do que eu!
A fada virou-se, olhou para baixo, lançou-lhe um último olhar indignado e saiu voando. Dedo Empoeirado viu como o seu brilho se misturou ao das outras fadas que voa-vam e brincavam entre os galhos das árvores. Elas esqueciam tão facilmente. Nenhuma preocupação durava mais do que um dia na cabecinha delas. E quem sabe talvez o ar tépido da
noite a tivesse feito esquecer que aquela não era a história dela.
Já estava amanhecendo quando finalmente todos dor-miram lá embaixo. Apenas o garoto vigiava. Era um garoto desconfiado, sempre de orelhas em pé, sempre alerta, exceto quando brincava com o fogo. Dedo Empoeirado sorriu quando se lembrou de seu rosto atento e de como ele havia chamuscado os lábios quando pegara escondido as tochas de sua mochila. O garoto não seria um problema. Não. Com certeza não.
Língua Encantada e Resa dormiam debaixo de uma ár-vore, Meggie estava no meio dos dois, protegida como um passarinho num ninho quente. A apenas um passo deles, dormia Elinor. Ela sorria no sono. Dedo Empoeirado nunca a vira tão feliz. Em seu peito estava deitada uma das fadas, en-colhida como num casulo; Elinor a envolvera com a mão. O rosto da fada quase não era maior do que a ponta de seu po-legar, e a luz da fada vazava através dos dedos fortes de Elinor como uma estrela aprisionada.
Farid levantou-se quando viu Dedo Empoeirado se aproximar. Ele tinha na mão uma espingarda, que com certeza pertencera a um dos homens de Capricórnio.
— Você... não está morto? — ele sussurrou, abismado.
O garoto ainda não usava sapatos. Também pudera, vi-via tropeçando nos cadarços e amarrá-los sempre lhe causara grandes problemas.
— Não, não estou morto. — Dedo Empoeirado parou diante de Língua Encantada e olhou para ele e para Resa. En-tão perguntou ao garoto: — Onde está Gwin? Espero que você tenha cuidado bem dele!
— Ele fugiu depois que atiraram contra nós, mas depois ele voltou! — havia orgulho na voz do garoto.
— Ótimo. — Dedo Empoeirado agachou-se ao lado de Língua Encantada. — Pois é, ele sempre soube a hora de se mandar, exatamente como o seu dono.
— Ontem à noite, nós o deixamos no acampamento, lá em cima na casa incendiada, porque sabíamos que as coisas iriam ser bem perigosas aqui — prosseguiu o garoto. — Mas eu ia buscá-lo, assim que acabasse o meu turno de vigia.
— Bem, eu mesmo posso fazer isso. Não se preocupe, ele deve estar bem. Uma marta como ele sabe se virar.
Dedo Empoeirado estendeu a mão e a enfiou debaixo do paletó de Língua Encantada.
— O que você está fazendo? — a voz do garoto soou preocupada.
— Apenas pegando o que me pertence — respondeu Dedo Empoeirado.
Língua Encantada não se mexeu quando ele tirou o li-vro de seu casaco. Ele dormia como uma pedra. O que pode-ria perturbar seu sono agora? Ele tinha tudo o que desejava.
— Não é seu!
— É, sim.
Dedo Empoeirado levantou-se. Olhou para os galhos em cima dele. Bem ali dormiam três fadas; ele sempre se per-guntara como elas podiam dormir em árvores sem despencar de lá de cima. Com cuidado, ele colheu duas delas de um ga-lho fino, soprou suavemente em seus rostos quando elas abri-ram os olhos bocejando e as enfiou no bolso.
— O sopro lhes dá sono — ele explicou ao garoto. — Apenas uma dica, caso você tenha que lidar com elas. Mas acho que funciona apenas com as azuis.
Ele não acordou nenhum duende. Os duendes eram um povo teimoso, demoraria muito tempo para convencê-los a ir com ele, e podia ser que Língua Encantada acordasse an-tes disso.
— Leve-me com você! — o garoto se pôs no seu ca-minho. — Aqui, estou com a sua mochila.
Ele a ergueu, como se com ela quisesse comprar a companhia de Dedo Empoeirado.
— Não. — Dedo Empoeirado pegou a mochila, pendurou-a nos ombros e lhe deu as costas.
— Sim! — O garoto correu atrás dele. — Você tem que me levar. Senão o que vou dizer a Língua Encantada quando ele notar que o livro sumiu?
— Diga que você pegou no sono.
— Por favor.
Dedo Empoeirado parou.
— E ela? Você gosta da garota. Por que você não fica com ela?
O garoto enrubesceu. Ele olhou por um longo tempo para a menina, como se quisesse gravar sua imagem. Então virou-se de novo para Dedo Empoeirado.
— Eu não sou como eles. — Também não é como eu.
Dedo Empoeirado deixou-o para trás mais uma vez, mas, quando já se encontrava a alguns metros do estaciona-mento, o garoto estava atrás dele. Ele tentava andar bem de-vagar para que Dedo Empoeirado não o ouvisse e, quando este finalmente se virou, o garoto parou como um ladrão a-panhado em flagrante.
— O que é isso? Não vou ficar aqui por muito tempo — ralhou Dedo Empoeirado. — Agora que tenho o livro, vou procurar alguém que possa me mandar de volta. E se for um gago como Darius e me mandar de volta com a perna manca ou com a cara achatada? O que você vai fazer então? Você estará sozinho.
O garoto sacudiu os ombros e olhou para ele com seus olhos negros como carvão.
— Eu já sei cuspir fogo muito bem! — ele disse. — Treinei bastante depois que você foi embora. Mas engolir a-inda não dá muito certo.
— E é mais difícil mesmo. Você é muito afobado. Eu já lhe disse mil vezes.
Eles encontraram Gwin nas ruínas da casa incendiada, dormindo, com penas grudadas no focinho. Ele pareceu satis-feito de ver Dedo Empoeirado, até mesmo lambeu sua mão,
mas logo foi atrás do garoto. Eles andaram até o dia raiar, sempre em direção ao sul, onde em algum lugar ficava o mar. Então eles pararam para descansar e se alimentar, com provi-sões da despensa de Basta: um pouco de salame picante, um pedaço de queijo, pão e azeite. O pão já estava um tanto duro e eles o mergulharam no azeite e comeram em silêncio, sen-tados na grama, e depois prosseguiram. Entre as árvores, flo-rescia uma sálvia selvagem azul e rosa-claro. No bolso de Dedo Empoeirado, as fadas começaram a se mexer, e o garoto ia atrás dele como uma segunda sombra.

59. Para casa

E ele navegou de volta
quase um ano inteiro,
e durante muitas semanas
e mais um dia,
até chegar ao seu quarto, onde era noite
e o jantar esperava por ele
e ainda estava quente.
Maurice Sendak, Onde vivem os monstros

De manhã, quando Mo notou que o livro sumira, a primeira coisa que Meggie pensou foi que Basta o havia leva-do, e ela se sentiu mal com a idéia de que ele estivera ali à noi-te enquanto eles dormiam. Mas Mo tinha outra suspeita.
— Farid também se foi, Meggie! — ele disse. — Você acha que ele teria ido com Basta?
Não, ela não achava. Farid teria ido apenas com uma pessoa. Meggie podia imaginar muito bem Dedo Empoeirado surgindo da escuridão, exatamente como naquela noite em que tudo havia começado.
— Mas e Fenoglio? — ela disse. Mo apenas suspirou.
— Não sei se eu teria tentado trazê-lo de volta, Meggie — ele disse. — Já saíram tantas desgraças desse livro, e eu não sou um escritor que saiba escrever as palavras que quer ler. Sou apenas uma espécie de médico de livros. Posso lhes dar novas capas, posso torná-los um pouco mais jovens, livrá-los das traças e impedir que com os anos as suas páginas caiam,
como pode acontecer com os cabelos de um homem. Mas continuar a tramar suas histórias, encher novas páginas com as palavras certas, isso eu não sei. Este é um ofício diferente, to-talmente diferente. Um escritor famoso escreveu uma vez: “O escritor pode ser visto como uma tríade: como contador de histórias, como professor ou como mago... mas o que predomina é o mago, o feiticeiro”. Sempre achei que ele tinha razão.
Meggie não sabia o que dizer. Só sabia que sentia falta do rosto de Fenoglio.
— E Sininho? — ela perguntou. — O que aconteceu com ela? Ela também vai ter que ficar aqui?
Quando acordara, a fada estava deitada na grama ao seu lado. Agora estava voando com as outras fadas. Olhando de relance, elas pareciam um bando de borboletas. Nem com to-da a boa vontade Meggie conseguia imaginar como ela fugira de Basta. Ele não a havia trancado num jarro?
— Bem, pelo que me lembro, em algum momento Peter Pan esqueceu que ela existia, por assim dizer — disse Mo. — Não é verdade?
Sim, ela também se lembrava desse detalhe.
— Mesmo assim! — ela murmurou. — Pobre Fenoglio!
Mas, no instante em que disse isso, sua mãe sacudiu energicamente a cabeça. Mo procurou papel em seus bolsos, mas tudo o que encontrou foi a conta de um posto de gasolina e uma caneta hidrográfica. Teresa pegou as duas coisas de sua mão com um sorriso. Então ela escreveu, enquanto Meggie se sentava na grama ao seu lado: “Não sinta pena dele. Ele não caiu numa história ruim”.
— Capricórnio ainda está lá? Você se encontrou com ele? — perguntou Meggie.
Quantas vezes ela e Mo haviam se perguntado isso? Afinal, Coração de tinta continuava a contar sobre ele. Mas tal-vez houvesse de fato algo atrás da história impressa, todo um mundo que se transformava como o mundo deles fazia a cada
dia.
“Só ouvi falar dele”, escreveu sua mãe. “As pessoas falavam dele como se ele tivesse viajado. Mas havia outros, tão ruins quanto ele. Era um mundo cheio de horrores e belezas e...”, as letras foram fi-cando tão pequenas que Meggie mal conseguiu decifrá-las, “... eu sempre entendi perfeitamente a saudade de Dedo Empoeirado.”
A última frase inquietou Meggie, mas, quando ela olhou preocupada para a sua mãe, ela riu e pegou a mão da menina. “Eu sempre tive mais saudade de vocês, muito mais”, ela escreveu na palma da mão, e Meggie fechou os dedos sobre as palavras como se dessa maneira pudesse retê-las. Ela ainda as lia no longo caminho para a casa de Elinor, e levou vários dias até que elas se apagassem.
Elinor não conseguia se conformar com o fato de te-rem que se aventurar a pé novamente pelas colinas cheias de cobras e espinhos.
— Estão loucos? — ela vociferou. — Só de pensar meus pés já estão doendo.
Então ela e Meggie puseram-se mais uma vez em busca de um telefone. Era uma sensação estranha andar pela aldeia agora realmente abandonada, passar em frente à casa de Ca-pricórnio, enegrecida pela fumaça, e pelo portal quase carbo-nizado da igreja. A praça em frente estava coberta pela água. O céu azul que se espelhava ali fazia parecer que ela havia se transformado num lago durante a noite. As mangueiras que os homens de Capricórnio haviam usado para salvar a casa de seu chefe estavam enroladas ali como serpentes gigantescas. De fato, o fogo se alastrara somente pelo andar térreo, mas mesmo assim Meggie não se atreveu a entrar e, depois de procurarem em vão em dezenas de casas, Elinor desapareceu sozinha atrás da porta queimada. Meggie lhe explicou como ela encontraria o quarto da gralha, e Elinor levou uma espin-garda para o caso de a velha ter voltado para salvar pelo me-nos alguns dos tesouros saqueados por seu filho. Mas a gralha desaparecera, assim como Basta, e Elinor voltou com um sorriso triunfante nos lábios e um telefone na mão.
Eles chamaram um táxi. Foi difícil explicar ao motorista que a barreira que ele encontraria na estrada não devia ser respeitada, mas pelo menos ele não acreditava nas histórias diabólicas que se contavam sobre a aldeia. Mo e Elinor o es-peraram na estrada para que ele não se deparasse com os du-endes e as fadas. Meggie ficou na aldeia com sua mãe, en-quanto os dois foram até a cidade mais próxima. Algumas ho-ras depois, eles voltaram com dois carros alugados, mais exa-tamente dois microônibus. Sim, pois Elinor decidira oferecer um lar a todos os estranhos seres que tinham ido parar em seu mundo. “Asilo”, como ela chamou. “Afinal de contas, o nosso mundo não tem tolerância nem muita compreensão com as pessoas que são um pouco diferentes. Que dirá daquelas que são azuis e voam?”
Demorou um tempo até que todos compreendessem a oferta de Elinor. Naturalmente, ela também valia para as pes-soas, mas a maior parte delas decidiu ficar na aldeia de Capricórnio. Ela as fazia lembrar de um lar que a morte deixara quase esquecido, e além disso Meggie contara às crianças so-bre os tesouros que ainda deviam estar no porão de Capricór-nio. Eles deveriam ser suficientes para sustentar todos os no-vos habitantes da aldeia de Capricórnio até o fim de suas vi-das. Os pássaros, cães e gatos que haviam fugido de Sombra já tinham desaparecido nas colinas, mas algumas das fadas e dois dos homenzinhos de vidro também decidiram — encantados com as flores da região, o cheiro de alecrim e as estreitas vie-las, em que cada pedra parecia sussurrar uma história antiga — ficar e fazer da outrora maldita aldeia o seu lar.
Apesar disso, ao final, dentro dos ônibus, pousadas nos encostos dos assentos cinzentos ou voando para lá e para cá, estavam quarenta e três fadas azuis de asas de libélula. Pelo jeito, Capricórnio havia matado fadas a torto e a direito, como outros fazem com mosquitos. Sininho estava entre as que ficaram, o que não deixou Meggie especialmente desapontada,
pois ela observara que a fada de Peter Pan era bastante volun-tariosa. Além disso o seu tilintar era mesmo irritante, e Sini-nho tilintava sem parar sempre que não conseguia o que que-ria.
Além dos quatro duendes, ainda subiram no ônibus de Elinor treze homens e mulheres de vidro, e também Darius, o infeliz leitor gago. Nada mais o prendia à antiga aldeia aban-donada, agora habitada novamente. Ali moravam muitas lem-branças dolorosas para ele. Ele se ofereceu para ajudar Elinor a reconstruir a sua biblioteca, e ela aceitou (Meggie tinha a le-ve suspeita de que ela secretamente aventava a idéia de fazer Darius voltar a ler, agora que a presença ameaçadora de Ca-pricórnio não o fazia mais tropeçar na língua).
Meggie olhou para trás por um longo tempo quando eles deixaram a aldeia de Capricórnio. Ela sabia que nunca esqueceria aquela visão, assim como não esquecemos certas histórias, mesmo que tenham nos dado medo, ou talvez jus-tamente por isso.
Antes de partir, Mo perguntara preocupado mais uma vez se para ela estava tudo bem se antes fossem para a casa de Elinor. Estranhamente, ela tinha mais saudade da casa de Eli-nor do que do velho sítio onde ela e Mo haviam passado os últimos anos.
No gramado atrás da casa, no ponto em que os homens de Capricórnio haviam incinerado os livros, ainda se via a mancha deixada pelo fogo, mas Elinor mandara remover as cinzas — depois de ter enchido um pote de geléia com o fino pó cinzento. Ele ficava no seu criado-mudo.
Muitos dos livros que os homens de Capricórnio ha-viam apenas arrancado das estantes já estavam de volta no lugar, outros esperavam para ser reencadernados na mesa de trabalho de Mo, mas as estantes da biblioteca ainda estavam vazias e, embora ela as tenha enxugado depressa, Meggie viu as lágrimas nos olhos de Elinor quando as duas estavam dian-te delas.
Nas semanas seguintes, Elinor fez compras. Comprou livros. Viajou por toda a Europa. Darius estava sempre com ela, e às vezes Mo também acompanhava os dois. Meggie, po-rém, ficou com a mãe na grande casa. Elas se sentavam juntas perto de uma janela e olhavam para o jardim lá fora, onde as fadas construíam seus ninhos, estruturas esféricas que ficavam penduradas nos galhos das árvores feito bolas de Natal. As criaturas de vidro acomodaram-se no sótão de Elinor, e os duendes cavaram suas moradias entre as grandes árvores ve-lhas que existiam em abundância no jardim de Elinor. Ela in-sistia para que eles saíssem o mínimo possível de seu terreno. Ela os advertia enfaticamente contra os perigos do mundo que havia além de sua cerca viva, mas não demorou muito e as fadas começaram a voar até o lago à noite, os duendes esguei-ravam-se pelas aldeias adormecidas à sua margem e os ho-mens de vidro desapareciam na relva alta que cobria as encos-tas das montanhas ali perto.
— Não se preocupe tanto — disse Mo, quando Elinor reclamou mais uma vez de tamanha falta de bom senso. — O mundo de onde eles vieram também não era um mundo exa-tamente inofensivo.
— Mas era diferente! — retrucava Elinor. — Não havia automóveis. E se as fadas voarem contra um pára-brisa? Também não havia caçadores com espingardas que atiram em tudo o que se mexe apenas para se divertir.
Entrementes, Elinor sabia tudo sobre o mundo de Co-ração de tinta. A mãe de Meggie havia usado muito papel para escrever suas lembranças. Toda noite Meggie lhe pedia que contasse mais, e elas se sentavam juntas. Teresa escrevia e Meggie lia. Às vezes, ela tentava desenhar o que sua mãe des-crevera.
Os dias se passavam e as estantes de Elinor se enche-ram com novos livros maravilhosos. Muitos estavam em es-tado lastimável, e Darius, que havia começado a fazer um ca-tálogo dos tesouros impressos de Elinor, interrompia muitas vezes seu trabalho para assistir ao de Mo. Com os olhos arregalados, ele se sentava ao seu lado, enquanto Mo libertava um livro de sua capa estragada, costurava páginas soltas, colava lombadas e fazia todo o necessário para conservar os livros por muitos anos.
Mais tarde, Meggie não saberia dizer em que momento, eles decidiram ficar para sempre com Elinor. Talvez tenha sido somente depois de muitas semanas, mas talvez eles já soubessem desde o primeiro dia. Meggie ficou com o quarto da cama muito grande, embaixo da qual ainda estava o seu baú de livros. Ela adoraria ter lido seus livros preferidos para sua mãe, mas agora entendia por que Mo lia em voz alta apenas muito raramente. E uma noite, quando mais uma vez ela não conseguia dormir porque pensara ter visto o rosto de Basta lá fora, ela se sentou à mesa que havia diante de sua janela e começou a escrever, enquanto as fadas tremeluziam no jardim de Elinor e os duendes farfalhavam pelos arbustos.
O plano de Meggie era o seguinte: ela queria aprender a inventar histórias, como Fenoglio fazia. Queria aprender a escolher as palavras, para que pudesse ler para sua mãe sem se preocupar que dali saísse alguém que olharia para ela com o-lhos cheios de saudades. As palavras apenas poderiam fazê-los voltar, todos aqueles que não eram feitos de outra coisa senão de palavras, e por isso Meggie decidiu que as palavras seriam o seu ofício. E onde se podia aprender isso melhor do que nu-ma casa em cujo jardim as fadas faziam seus ninhos e à noite os livros sussurravam histórias das estantes?
Como Mo dissera: o ofício de escrever histórias tem algo a ver com a magia.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Coração de Tinta - Capítulos 49 ao 54

49. O orgulho de Basta e a astúcia de Dedo Empoeirado

— De qualquer forma, eu gostaria de saber se alguma vez apareceremos em histórias e canções. Estamos numa, é claro, mas quero dizer: ser posto em palavras, sabe, contadas ao pé da larei-ra ou lidas de um grande livro grosso com letras vermelhas e pretas, anos e anos depois. E as pessoas dirão: “Vamos ouvir a história de Frodo e do anel!”. E elas dirão: “Essa é uma das minhas histórias preferidas”.
J.R.R.Tolkien, O senhor dos anéis

Basta reclamou o tempo inteiro quando levou Meggie para a igreja.
— Morder a língua? Como é que a velha foi cair numa dessas? E quem é que tem que levar a insolente para a cripta? Basta, quem mais seria? O que é que eu sou aqui, afinal? A única criada do sexo masculino?
— Cripta?
Meggie pensava que os prisioneiros ainda estivessem nas redes, mas quando entrou na igreja não viu nada deles, e Basta a empurrou impaciente por entre as colunas.
— Sim, a cripta — ele respondeu, irritado. — Lugar de guardar os que estão mortos e os que em breve estarão. Ali, para baixo. Vamos logo, tenho coisa melhor para fazer hoje do que servir de babá para a senhorita Língua Encantada.
Ele apontou para uma escada íngreme que descia para a escuridão. Os degraus estavam gastos, e eram altos e desiguais, fazendo com que Meggie tropeçasse a cada dois passos que dava. Lá embaixo estava tão escuro que ela nem notou que a escada havia acabado, e continuou tateando com o pé a pro-cura do próximo degrau até que Basta a empurrou para a frente.
— E agora mais essa? — ela o ouviu esbravejar. — Por que esse maldito lampião está apagado de novo?
Um fósforo se acendeu, e o rosto de Basta surgiu da escuridão.
— Visita para você, Dedo Podre! — ele anunciou em tom de zombaria enquanto acendia o lampião. — A filhinha de Língua Encantada quer se despedir de você. O pai trouxe você a este mundo, e a filha vai providenciar para que você o deixe esta noite. Por mim ela não viria, mas a gralha deu para amolecer depois de velha. A menina parece mesmo gostar de você. Não deve ser por causa do seu belo rosto, certo?
A risada de Basta ecoou lúgubre contra as paredes ú-midas.
Meggie andou até a grade atrás da qual estava Dedo Empoeirado. Olhou rapidamente para ele, e então seu olhar passou por cima dos ombros dele. A criada de Capricórnio estava sentada sobre o sarcófago de pedra. O lampião que Basta acendera espalhava uma luz escassa, mas suficiente para que Meggie reconhecesse aquele rosto. Era o rosto da foto de Mo. Apenas os cabelos que o emolduravam estavam mais es-curos, e do sorriso não havia mais nenhum sinal.
Quando Meggie se aproximou da grade, sua mãe er-gueu a cabeça e olhou para ela fixamente, como se não hou-vesse nada no mundo além de Meggie.
— Mortola deixou você vir aqui? — disse Dedo Em-poeirado. — Difícil de acreditar.
— A menina ameaçou morder a língua — Basta ainda estava na escada e brincava com a pata de coelho que trazia no
pescoço como amuleto.
— Eu queria lhe pedir desculpas — Meggie disse as palavras para Dedo Empoeirado, mas olhava para a mãe, que continuava sentada no sarcófago.
— Por quê? — Dedo Empoeirado deu seu sorriso es-tranho.
— Por hoje à noite. Porque vou ler.
Como ela poderia contar aos dois sobre o plano de Fenoglio? Como? — Bem, agora você já pediu desculpas — disse Basta, impaciente. — Venha, o ar aqui embaixo vai dei-xar sua vozinha ainda mais rouca. Mas Meggie não se virou. Agarrou-se à grade com toda a força.
— Não — ela disse. — Quero ficar mais.
Talvez lhe ocorresse alguma coisa, algumas frases que não despertassem suspeitas.
— Eu li mais uma coisa — ela disse para Dedo Empo-eirado. — Um soldadinho de chumbo.
— Ah! — Dedo Empoeirado sorriu novamente. Es-tranho, desta vez seu sorriso não lhe pareceu enigmático nem arrogante. — Bem, então nada mais pode dar errado hoje à noite, não é?
Ele olhou para ela, pensativo, e Meggie tentou lhe dizer com os olhos: “Nós vamos salvá-lo. As coisas não vão acon-tecer como Capricórnio pretende! Acredite em mim!”.
Dedo Empoeirado ainda olhava para ela. Ele tentou entender e ergueu as sobrancelhas com um ar indagador. En-tão olhou para Basta.
— Ei, Basta, como vai a fada? — ele perguntou. — Ela ainda está viva ou sua presença já a matou?
Meggie viu sua mãe se aproximar dela, hesitante, como se pisasse em vidro quebrado.
— Ela ainda está viva! — respondeu Basta, mal-humorado. — Mas não pára de tilintar, não consigo pre-gar um olho. Se continuar assim, vou dizer a Nariz Chato para torcer o pescoço dela, como ele faz com as pombas que fazem
cocô no carro dele.
Meggie viu sua mãe tirar um pedaço de papel do bolso do vestido, e colocá-lo discretamente na mão de Dedo Empo-eirado.
— Isso vai dar pelo menos dez anos de azar para vocês dois — disse Dedo Empoeirado. — Acredite. Você sabe que de fadas eu entendo. Ei, cuidado, tem alguma coisa atrás de você...
Basta virou-se como se alguém tivesse mordido sua nuca. Rápido como um raio, Dedo Empoeirado passou a mão pela grade e pôs o bilhete na mão de Meggie.
— Imbecil! — vociferou Basta. — Não tente fazer isso de novo, entendeu?
Ele se virou exatamente no instante em que os dedos de Meggie se fechavam em volta do papel.
— Um bilhete! Ora, vejam só!
Meggie tentou em vão manter a mão fechada, mas Bas-ta abriu seus dedos sem muito esforço. Então ele olhou para as letras diminutas que sua mãe havia escrito.
— Vamos, leia! — ele resmungou, segurando o papel diante dos olhos dela.
Meggie recusou-se.
— Leia! — Basta baixou a voz, ameaçador. — Ou vou ter que fazer no seu rosto um desenho tão bonito como o do nosso amigo aqui.
— Pode ler, Meggie — disse Dedo Empoeirado. — O cretino sabe que sou louco por um bom gole mesmo.
— Vinho? — Basta deu uma gargalhada. — Você quer que a menina arranje vinho para você? Como é que ela vai fazer isso?
Meggie olhou atentamente para o bilhete e gravou to-das as palavras até decorá-las. “Nove anos é muito tempo. Eu co-memorei todos os seus aniversários. Você é ainda mais bonita do que imaginei.”
Ela ouviu a risada de Basta.
— Sim, isso é típico de você, Dedo Empoeirado. — ele disse. — Você acha que pode afogar o seu medo no vinho. Mas um barril inteiro não seria suficiente.
Dedo Empoeirado deu de ombros.
— Mas valeu a tentativa.
Talvez ele tenha parecido um pouco satisfeito demais quando disse isso. Basta franziu a testa e examinou com um ar pensativo seu rosto marcado por cicatrizes.
— Por outro lado — ele disse lentamente —, você sempre foi um macaco velho. E ali tem letras demais para uma garrafa de vinho. O que você me diz, queridinha?
Ele mostrou o bilhete mais uma vez para Meggie. — Vai ler para mim ou terei que mostrar para a gralha? Meggie foi tão rápida que já havia escondido o bilhete nas costas en-quanto Basta ainda olhava para a sua mão vazia.
— Me dê aqui, sua pestinha! — ele disse entre os den-tes. — Me dê esse bilhete, ou vou cortar os seus dedos.
Mas Meggie recuou até encostar na grade.
— Não! — ela exclamou, agarrando-se com uma mão na barra. Com a outra ela passou o bilhete para dentro da cela. Dedo Empoeirado entendeu na hora. Ela sentiu o papel des-lizar de seus dedos.
Basta deu em Meggie uma bofetada tão forte que ela bateu com a cabeça na grade. Uma mão acariciou seus cabelos e, quando ela olhou em volta como que entorpecida, depa-rou-se com o rosto de sua mãe. “Logo ele vai notar”, ela pen-sou, “logo ele vai perceber tudo.” Mas Basta só tinha olhos para Dedo Empoeirado, que balançava o bilhete para lá e para cá atrás da grade, como uma minhoca na frente do bico de um pássaro faminto.
— Então, como é que é? — disse Dedo Empoeirado dando um passo para trás. — Vai ter coragem de entrar ou prefere lutar com a menina?
Basta permaneceu imóvel, como uma criança que ti-vesse levado uma bofetada de forma totalmente inesperada.
Então ele pegou o braço de Meggie e puxou-a para perto de si. Ela sentiu algo frio em seu pescoço. Não precisou ver para saber o que era.
Sua mãe deu um grito e puxou a mão de Dedo Empo-eirado, mas ele ergueu ainda mais o bilhete.
— Eu sabia! — ele disse. — Você é um covarde, Basta! Prefere encostar uma faca no pescoço de uma criança, porque não tem coragem de me enfrentar. Claro, se pelo menos Nariz Chato estivesse aqui, com seus ombros largos e seus punhos pesados... Mas ele não está. Vamos, coragem, você tem a na-valha! Eu tenho apenas as minhas mãos, que nem gosto muito de usar para lutar, você sabe.
Meggie sentiu Basta afrouxar o aperto. A lâmina não pressionava mais a sua pele. Ela engoliu a saliva e pôs a mão no pescoço, quase esperando sentir o sangue morno, mas não havia nada. Basta a soltou com um empurrão tão violento que ela tropeçou e caiu no chão úmido e frio. Então ele pôs a mão no bolso da calça e tirou de dentro um molho de chaves. A cólera o fazia arquejar, como um homem que tivesse corrido muito depressa. Com os dedos trêmulos, ele enfiou uma chave na fechadura da cela.
Dedo Empoeirado o observava com um olhar inex-pressivo. Ele fez um sinal para que a mãe de Meggie se afas-tasse da grade e também recuou, ágil como um dançarino. Seu rosto não revelava se ele tinha medo, apenas as cicatrizes pa-reciam mais escuras do que de costume.
— Para que isso? — ele disse quando Basta entrou na cela empunhando a navalha. — Ponha essa coisa para lá. Se você me matar, vai estragar todo o prazer de Capricórnio. E isso ele não perdoaria.
Sim, ele estava com medo. Meggie ouviu em sua voz, as palavras saíam de seus lábios um pouco depressa demais.
— Quem está falando em matar? — grunhiu Basta, enquanto fechava a porta da cela atrás de si.
Dedo Empoeirado recuou até o sarcófago.
— Ah, você quer enfeitar um pouco mais o meu rosto? — ele disse quase num sussurro. Agora havia algo mais em sua voz: ódio, repulsa, raiva. — Não pense que desta vez vai ser fácil. Aprendi algumas coisas nesse meio-tempo.
— É mesmo? — Basta estava a menos de um passo dele. — E o que seria? O seu amigo, o fogo, não está aqui pa-ra ajudá-lo. Nem mesmo a marta fedorenta está com você.
— Estava pensando em palavras! — Dedo Empoeirado pôs a mão no sarcófago. — Ainda não lhe contei? As fadas me ensinaram a lançar uma maldição. Sentiram pena do meu rosto cortado e sabiam como sou ruim de luta. Eu o amaldi-çôo, Basta, pelos ossos do morto que está neste túmulo. A-posto que já faz tempo que não há mais um sacerdote aqui, e sim alguém em quem vocês trataram de dar um sumiço, não é verdade?
Basta não respondeu, mas seu silêncio dizia mais do que qualquer palavra.
— Sim, é claro. Um túmulo tão antigo é um magnífico esconderijo. Dedo Empoeirado passou os dedos pelo tampo rachado, como se quisesse ressuscitar o morto com o calor da sua mão.
— O seu espírito irá atormentá-lo, Basta! — ele disse em tom conjurador. — Ele vai sussurrar o meu nome em seus ouvidos a cada passo que você der...
Meggie viu como a mão de Basta foi parar no pé de co-elho.
— Esse amuleto não vai ajudá-lo em nada! — A mão de Dedo Empoeirado continuava sobre o sarcófago. — Pobre Basta! Já está sentido o calor? Seus membros já começaram a tremer?
Basta investiu com a navalha, mas Dedo Empoeirado desviou-se da lâmina com grande agilidade.
— Me dê o bilhete que você pegou! — Basta gritou bem perto do rosto de Dedo Empoeirado, que enfiou o bi-lhete no bolso da calça.
Meggie estava parada ali, imóvel como uma boneca. Pelo canto do olho, viu sua mãe pôr a mão no bolso do ves-tido. Quando a tirou novamente, ela segurava uma pedra, de cor cinza e um pouco maior do que um passarinho.
Dedo Empoeirado passou as mãos no tampo do sarcó-fago e depois as estendeu na direção de Basta.
— Posso tocá-lo com as minhas mãos? — ele pergun-tou. — O que acontece com alguém que toca num túmulo onde jaz uma pessoa que foi assassinada? Diga. Você entende dessas coisas.
Ele deu mais um passo para o lado, como um dançari-no cortejando o seu par.
— Vou cortar os seus dedos nojentos se tentar encos-tar em mim! — berrou Basta, com o rosto vermelho de cólera. — Um por um, e depois a língua.
Ele investiu novamente com a navalha, mas cortou o ar com a lâmina reluzente, pois Dedo Empoeirado esquivou-se. Ele começou a pular cada vez mais depressa em volta de Bas-ta, abaixando-se, recuando e avançando de novo, até que de repente se perdeu em sua dança arriscada. Atrás dele havia apenas a parede nua, e à direita, a grade. Basta avançou para cima dele.
Nesse momento, a mãe de Meggie ergueu a mão. A pe-dra atingiu a cabeça de Basta. Aturdido, ele se virou para ela como se não se lembrasse quem era, pôs a mão na cabeça e sentiu o sangue. Meggie não entendeu como Dedo Empoei-rado fez isso, mas de repente ele estava com a navalha de Basta na mão. Basta olhou estupefato para sua própria lâmina, como se não pudesse conceber que ela se voltasse traiçoeira-mente contra o peito dele.
— E agora, qual é a sensação? — Dedo Empoeirado encostou a navalha na barriga de Basta. — Está sentindo co-mo a sua carne é macia? O corpo é uma coisa extremamente frágil, e não dá para comprar um novo. Como é mesmo que vocês fazem com os gatos e os esquilos? Nariz Chato gosta
tanto de contar...
— Eu não caço esquilos — a voz de Basta soou rouca.
Ele tentou não olhar para a lâmina, que estava a menos de um palmo de sua camisa branca.
— É mesmo, é verdade. Eu me lembro. Você não se diverte com isso tanto quanto os outros.
O rosto de Basta estava branco. Todo o vermelho da cólera desaparecera. O medo não é vermelho. O medo é páli-do como o rosto de um morto.
— E agora, o que você pretende fazer? — Basta per-guntou. Ele respirava pesadamente, como se estivesse sufo-cando. — Por acaso está achando que vai sair da aldeia com vida? Você será fuzilado antes que consiga chegar à praça.
— Bem, prefiro o fuzilamento a um encontro com Sombra — retrucou Dedo Empoeirado. — Além disso, ne-nhum de vocês é um exímio atirador.
A mãe de Meggie andou até ele. Ela fez um gesto como quem escreve com o dedo no ar. Dedo Empoeirado pôs a mão no bolso da calça e entregou-lhe o bilhete. Basta seguiu o papel com os olhos, como se pudesse atraí-lo usando o olhar. Resa escreveu algo no papel e o devolveu para Dedo Empo-eirado. Com o cenho franzido, ele leu o que ela escrevera.
— Esperar até que escureça? Não, eu não quero espe-rar. Mas talvez seja melhor a menina ficar aqui. — Ele olhou para Meggie. — Capricórnio não fará nada com ela, já que agora ela é o novo Língua Encantada dele. E em algum mo-mento o pai dela virá buscá-la.
Dedo Empoeirado guardou o bilhete novamente e passou a ponta da navalha ao longo dos botões da camisa de Basta. Eles estalaram quando o metal os tocou.
— Resa, vá para a escada. Eu vou resolver isto aqui, então atravessaremos a praça de Capricórnio bem devagar, como se fôssemos um casalzinho inocente.
Depois de hesitar um instante, Resa abriu a porta da cela. Ela parou diante da grade e pegou a mão de Meggie. Seus
dedos estavam frios e um tanto ásperos, eram dedos de uma pessoa estranha. Mas o rosto era familiar, embora na foto ti-vesse uma aparência mais jovem e não tão preocupada.
— Resa! Não podemos levá-la! — Dedo Empoeirado agarrou o braço de Basta e o empurrou contra a parede. — O pai desta menina vai me matar se atirarem nela lá fora. Agora vire-se e tape os olhos dela. Ou você quer que ela assista?...
A navalha tremeu em sua mão. Resa olhou para ele a-terrorizada e sacudiu energicamente a cabeça, mas Dedo Em-poeirado fez de conta que não viu.
— Você tem que fincar com firmeza, Dedo Podre! — sussurrou Basta, enquanto pressionava as mãos contra a pedra atrás de si. — Matar não é uma tarefa fácil. É preciso prática.
— Que nada! — Dedo Empoeirado o segurou pelo casaco e pôs a faca embaixo do seu queixo, como Basta havia feito com Mo aquele dia na igreja. — Qualquer imbecil pode matar. É fácil, tão fácil quanto lançar um livro no fogo, chutar uma porta ou meter medo numa criança.
Meggie começou a tremer, ela mesma não sabia por quê. Sua mãe deu um passo em direção à porta mas, quando viu a expressão de Dedo Empoeirado, ela parou. Virou-se, pôs o rosto de Meggie em seu peito e a envolveu firmemente com os braços. Seu cheiro pareceu familiar a Meggie, como algo esquecido havia muito tempo. Meggie fechou os olhos e tentou não pensar em nada, nem em Dedo Empoeirado, nem na navalha, nem no rosto pálido de Basta. E então, por um momento terrível, só desejou uma coisa: ver Basta estendido no chão, imóvel como um brinquedo que alguém jogou fora, um boneco feio e bobo, do qual sempre se teve um pouco de medo... A navalha de Basta estava a menos de um dedo de distância de sua camisa branca, mas de repente Dedo Empo-eirado pôs a mão no bolso da calça de Basta, tirou de dentro as chaves da cela e deu um passo para trás.
— Ah, que besteira, você tem razão, não entendo nada de matar — ele disse enquanto saía de costas da cela. — E
não é com você que vou aprender.
No rosto de Basta abriu-se um sorriso sarcástico, mas Dedo Empoeirado não reparou. Ele fechou a porta gradeada, pegou a mão de Resa e puxou-a para a escada.
— Solte-a! — ele insistiu quando viu que ela ainda se-gurava a mão de Meggie. — Acredite em mim. Não vai acon-tecer nada com ela, e não podemos levá-la!
Mas Resa sacudiu a cabeça e pôs o braço no ombro de Meggie.
— Ei, Dedo Empoeirado! — chamou Basta. — Eu sa-bia que você não ia ter coragem. Devolva a minha navalha. Você não sabe fazer nada com ela, mesmo!
Dedo Empoeirado não lhe deu atenção.
— Se você ficar, eles a matarão — ele disse para Resa, mas soltou sua mão.
— Ei, vocês aí em cima! — berrou Basta. — Aqui! Venham! Alarme! Os prisioneiros estão tentando fugir!
Meggie olhou assustada para Dedo Empoeirado.
— Por que você não o amordaçou?
— Mas com o quê, princesa? — disse rispidamente Dedo Empoeirado.
Resa puxou Meggie para junto de si e acariciou seus cabelos.
— Fuzilados, fuzilados, vocês serão fuzilados! — a voz de Basta soava esganiçada. — Eeeei! Alaaarme!
Gritando mais uma vez, ele começou a sacudir a grade.
Ouviram-se passos lá em cima.
Dedo Empoeirado lançou um último olhar para Resa. Então praguejou com voz abafada, virou-se e subiu os degraus gastos.
Meggie não conseguiu ouvir se ele chegou a abrir o portal, apenas os gritos de Basta soavam em seus ouvidos. Atônita, ela andou na direção do vilão, queria bater nele atra-vés da grade, naquele rosto que não parava de gritar. Ela ouviu passos novamente, gritos abafados... o que elas fariam agora?
Alguém vinha descendo a escada com passos pesados. Era Dedo Empoeirado que voltava? Não foi o seu rosto que sur-giu da escuridão, e sim o de Nariz Chato. Atrás dele, mais um dos homens de Capricórnio também descia a escada afobado. Ele parecia muito jovem, de rosto roliço e imberbe, mas foi logo apontando a espingarda para Meggie e sua mãe.
— Ei, Basta! O que você está fazendo atrás das grades? — perguntou Nariz Chato, estupefato.
— Abra, seu cabeça-oca duma figa! — ralhou Basta a-través das barras da grade. — Dedo Empoeirado fugiu.
— Dedo Empoeirado? — Nariz Chato passou a manga no rosto. — Então o garoto aqui tem razão. Ele acabou de me contar que viu o cuspidor de fogo atrás de uma coluna lá em cima.
— E você não foi atrás dele? Então você é mesmo tão tonto quanto parece!
Basta pressionou o rosto contra as barras como se as-sim pudesse atravessá-las.
— Ei, ei, cuidado com o que diz, entendeu? — Nariz Chato aproximou-se da grade e olhou para Basta com visível prazer. — Então Dedo Podre enganou você novamente. Ca-pricórnio não vai gostar nada disso.
— Mande alguém atrás dele! — berrou Basta. — Ou direi a Capricórnio que você o deixou fugir!
Nariz Chato tirou um lenço do bolso e assoou o nariz ruidosamente.
— Ah, é? E quem está atrás das grades, eu ou você? Ele não irá muito longe. No estacionamento há dois guardas, na praça mais três, e o rosto dele não é difícil de reconhecer. A-final de contas você deu um jeito nisso, não é verdade? — A risada de Nariz Chato soou como latido de cachorro. — Sabe de uma coisa? Eu poderia tranqüilamente me acostumar com esta visão! O seu rosto fica bem atrás das grades. Aí dentro você não pode ser arrogante nem esfregar a sua navalha no nariz de ninguém.
— Abra esta maldita porta de uma vez! — berrou Bas-ta. — Ou vou cortar esse seu nariz nojento.
Nariz Chato cruzou os braços.
— Acontece que eu não posso abrir — ele observou com voz entediada. — Dedo Podre levou a chave. Ou você está vendo alguma chave por aqui?
Ele se virou com um ar interrogativo para o jovem, que mantinha Meggie e sua mãe na mira da espingarda. Quando o garoto fez que não com a cabeça, Nariz Chato abriu um sor-riso que ia de orelha a orelha.
— Não, ele também não está vendo chave nenhuma. Bem, vou ter que falar com Mor tola. Talvez ela tenha uma cópia de reserva.
— Tire esse sorriso da cara! — gritou Basta. — Senão eu o arrancarei dos seus lábios pessoalmente.
— Cada coisa que você diz. Também não estou vendo a sua navalhinha. Dedo Empoeirado a roubou de novo? Se continuar assim, logo ele vai ter uma coleção.
Nariz Chato virou-se de costas para Basta e apontou para a cela ao lado dele.
— Prenda a mulher ali e fique vigiando até eu voltar com a chave — ele disse. — Primeiro vou levar a pequena Língua Encantada de volta.
Meggie debateu-se quando ele a puxou, mas Nariz Chato simplesmente a ergueu e a pôs sobre os ombros.
— Afinal, o que a menina estava fazendo aqui embai-xo? — ele perguntou. — Capricórnio sabe disso?
— Pergunte à gralha! — vociferou Basta.
— Eu, hein? Nem pensar — grunhiu Nariz Chato en-quanto arrastava Meggie pela escada.
Ela ainda viu o garoto empurrar sua mãe para dentro da outra cela com o cano da espingarda, depois só viu os degraus, a igreja e a praça poeirenta, pela qual Nariz Chato a carregava como um saco de batatas.
— Bem, tomara que sua voz não seja tão fina como
você! — ele grunhiu quando a pôs de pé diante da porta em que ela ficara trancada com Fenoglio. — Senão Sombra virá meio fraquinho, se é que de fato ele vai aparecer aqui esta noite.
Meggie não respondeu.
Quando Nariz Chato trancou a porta, ela passou por Fenoglio sem dizer uma palavra, subiu em sua cama e enfiou a cara no pulôver de Mo.

50. Azar para Elinor

Então Charley descreveu para ele a localização exata do posto policial, e além disso deu-lhe inúmeras instruções: como deveria ir em frente pelo caminho do portão e então no pátio subir os degraus à direita, e que ele deveria tirar o chapéu quando entrasse no recinto da repartição. Depois pediu-lhe que prosseguisse sozinho, e prometeu que esperaria por ele ali onde se despediram.
Charles Dickens, Oliver Twist

Elinor rodou mais de uma hora até finalmente encon-trar uma cidadezinha com um posto policial. O mar ainda es-tava longe, mas as colinas eram mais baixas, e nas encostas, em vez do matagal que cercava a aldeia de Capricórnio, cres-ciam vinhas. Seria um dia de calor terrível, um dia ainda mais quente do que a véspera, já dava para sentir. Quando desceu do carro, Elinor ouviu o estrondo de um trovão ao longe. O céu sobre as casas ainda estava azul, mas era azul-escuro, es-curo como águas profundas. Como um mau agouro.
“Não seja boba, Elinor!”, ela pensou enquanto andava em direção à casa amarela do posto policial. “É uma tempes-tade, só isso, ou você já está ficando supersticiosa como Bas-ta?”
Havia dois funcionários sentados no escritório estreito quando Elinor entrou. As jaquetas de seus uniformes estavam
penduradas nas cadeiras. O ar estava tão abafado que daria para engarrafá-lo, apesar do grande ventilador que girava no teto.
O mais jovem dos dois, grandão e de nariz curto como um buldogue, já começou a zombar de Elinor enquanto ela contava sua história, e perguntou-lhe se por acaso ela estava com o rosto vermelho daquele jeito por apreciar muito o vi-nho da região. Elinor o teria derrubado da cadeira se o outro não a tivesse acalmado. Era um tipo alto e magro com um olhar melancólico e cabelos escuros, mais ralos acima da testa.
— Pare com isso! — ele censurou o colega. — Pelo menos deixe que ela termine a história.
Ele escutou com o rosto imóvel quando Elinor contou sobre a aldeia de Capricórnio e seus homens vestidos de pre-to, franziu a testa quando ela contou sobre os incêndios e os galos mortos, e ergueu as sobrancelhas quando ela falou sobre Meggie e a execução planejada. Sobre o livro e sobre como a execução deveria acontecer, naturalmente ela nada mencio-nou. Afinal de contas, se alguém lhe contasse isso duas sema-nas antes, ela própria não teria acreditado numa palavra.
Quando ela chegou ao fim do relato, seu interlocutor ficou calado por um tempo. Ele arrumou os lápis em cima da escrivaninha, juntou alguns papéis e finalmente olhou para ela com um ar pensativo.
— Já ouvi falar dessa aldeia — ele disse.
— Claro, todo mundo já ouviu falar dela! — zombou o outro. — A aldeia do diabo, a aldeia maldita, que até mesmo as cobras evitam. As paredes da igreja são pintadas com san-gue, e pelas ruas perambulam homens de preto que na verda-de são assombrações e carregam fogo nos bolsos. É só alguém chegar perto e já se dissolve no ar. Puf!
Ele ergueu as mãos e bateu as palmas sobre a cabeça. Elinor mediu-o com um olhar gélido. Seu colega sorriu, mas então ele se levantou com um suspiro, vestiu lentamente a jaqueta e fez um sinal para que Elinor o seguisse.
— Vou dar uma olhada nisso! — ele disse por cima dos ombros.
— Se você não tem nada melhor para fazer! — excla-mou o outro atrás dele, e deu uma gargalhada tão sonora que por pouco Elinor não voltou para derrubá-lo da cadeira.
Alguns minutos depois, ela estava sentada no banco do passageiro de uma viatura policial e, à sua frente, serpenteava pelas colinas a mesma estrada sinuosa da ida. “Meu Deus do céu, por que eu não fiz isso antes?”, ela pensava a todo ins-tante. “Agora tudo vai ficar bem, tudo. Ninguém vai ser fuzi-lado nem executado, Meggie vai ter de volta o pai e Mortimer, a filha. Sim, tudo vai ficar bem! Graças a Elinor!” Ela poderia cantar e dançar (embora não soubesse dançar muito bem). Nunca em sua vida ficara tão satisfeita consigo mesma. Agora, alguém que viesse lhe dizer que ela não se dava bem no mun-do real...
O policial ao seu lado não disse uma palavra. Olhava somente para a estrada, fazia curva após curva numa veloci-dade que sempre acelerava dolorosamente as batidas do cora-ção de Elinor e de vez em quando beliscava o lóbulo da orelha direita com uma expressão ausente. Ele parecia conhecer o caminho. Não hesitou nem uma das vezes em que a estrada se bifurcou, e em todas elas escolheu a direção certa. Elinor lembrou-se da eternidade que ela e Mo haviam levado para encontrar a aldeia, e então, de forma totalmente repentina, teve um pensamento um tanto inquietante.
— Eles são muitos! — ela disse com a voz insegura quando ele fazia novamente uma curva, com tal velocidade que o abismo à sua esquerda ficou vertiginosamente perto. — Esse Capricórnio tem muitos homens. E eles estão armados, embora não tenham uma pontaria muito boa. O senhor não deveria pedir reforços?
Era sempre assim nos filmes, naqueles filmes ridículos em que havia apenas criminosos e policiais. Eles sempre pe-diam reforços.
O policial passou a mão nos cabelos ralos e fez que sim, como se ele também obviamente já tivesse pensado nisso.
— Claro! Claro! — ele disse enquanto pegava o apare-lho de rádio com uma expressão ausente. — Reforços sempre são úteis, mas eles devem se manter recuados. Afinal, antes de mais nada é preciso fazer algumas perguntas.
Ele pediu cinco homens pelo rádio. Não eram muitos contra os casacos-pretos de Capricórnio, na opinião de Elinor, mas era melhor do que nada. De qualquer forma, era melhor do que um pai desesperado, um garoto árabe e uma colecio-nadora de livros um pouco acima do peso.
— Ali está! — ela disse quando a aldeia de Capricórnio apareceu ao longe, cinzenta e discreta no meio de todo aquele verde-escuro.
— Sim, foi o que pensei! — respondeu o policial, que voltou a ficar calado.
Quando ele apenas acenou brevemente com a cabeça para a sentinela no estacionamento, Elinor não quis pensar em nada de ruim. Foi somente quando estava na igreja pintada de vermelho, diante de Capricórnio, entregue pelo policial como um objeto que ele encontrara e agora devolvia ao seu legítimo dono, é que ela teve que admitir para si mesma que nada fica-ria bem. Que agora estava tudo perdido e que ela fora muito ingênua, terrivelmente ingênua.
— Ela andou espalhando coisas ruins sobre vocês — ela ouviu o policial dizer. Ele evitava olhar para Elinor. — Disse alguma coisa sobre o seqüestro de uma criança. Isso seria uma coisa bem diferente dos incêndios...
— Que besteira! — Capricórnio respondeu enfastiado à pergunta velada. — Eu adoro crianças, desde que não che-guem muito perto de mim. De resto, só servem para atrapa-lhar os negócios.
O policial fez que sim, e contemplou as mãos com um ar infeliz.
— Ela também falou algo sobre uma execução...
— É mesmo? — Capricórnio olhou para Elinor como se estivesse de fato espantado com tão fértil imaginação. — Bem, você sabe, eu não preciso desse tipo de coisa. As pesso-as fazem o que eu digo sem que eu precise tomar medidas mais drásticas.
— É claro! — murmurou o policial. — É claro.
Ele estava com muita pressa de ir embora. Quando seus passos rápidos e cortantes não ecoaram mais, Cockerell, que ficara o tempo todo sentado na escada, começou a rir.
— Ele tem três crianças pequenas, não é? Sim, os poli-ciais deveriam ser proibidos de ter filhos pequenos. No caso desse aí foi bem fácil, Basta só precisou ficar plantado na frente da escola duas vezes. O que lhe parece? Devemos visi-tá-lo em casa mais uma vez? Para atualizar a boa impressão?
Ele lançou para Capricórnio um olhar indagador, mas este sacudiu a cabeça.
— Não, acho que não é necessário! É melhor pensar-mos no que vamos fazer com a nossa visita aqui. O que fa-zemos com quem espalha rumores tão ruins sobre a gente?
Os joelhos de Elinor amoleceram quando os olhos pá-lidos dele se voltaram para ela. “Se Mortimer se oferecesse agora para me enviar para dentro de algum livro, acho que eu aceitaria! E me contentaria com qualquer um.”
Atrás dela havia mais três ou quatro dos casacos-pretos, portanto não fazia sentido sair correndo. “Agora a única coisa que você pode fazer, Elinor, é se entregar à sua sina com dig-nidade”, ela pensou.
Mas ler sobre essas coisas era muito mais fácil do que fazer.
— A cripta ou o estábulo? — perguntou Cockerell, enquanto andava lentamente em direção a ela. “A cripta?”, pensou Elinor. Dedo Empoeirado havia dito alguma coisa sobre isso, sim. E não havia sido coisa boa...
— A cripta? Por que não? Precisamos nos livrar dessa mulher, antes que ela traga outra pessoa aqui. — Capricórnio
escondeu um bocejo atrás da mão. — Bem, então Sombra terá mais trabalho para hoje à noite. Ele vai gostar.
Elinor queria dizer alguma coisa, alguma coisa ousada, heróica, mas sua língua não estava em condições de ser utili-zada. Ela estava como que anestesiada dentro da boca. Coc-kerell já a havia arrastado até aquela estátua ridícula quando Capricórnio o chamou de volta.
— Esqueci completamente de perguntar a ela sobre Língua Encantada! — ele exclamou. — Pergunte se por acaso ela sabe onde ele se encontra no momento.
— Vamos, desembuche! — resmungou Cockerell, a-garrando Elinor pela nuca como se quisesse sacudir as pala-vras para fora. — Onde ele está?
Elinor apertou os lábios. “Depressa, Elinor, depressa, uma boa resposta!”, ela pensou, e de repente a sua língua vol-tou a funcionar.
— Por que você está perguntando isso para mim? — ela perguntou a Capricórnio, que ainda estava sentado em sua poltrona, tão pálido como se tivesse sido lavado por tempo demais, como se o sol que brilhava lá fora na praça o tivesse desbotado. — Você pode responder melhor do que qualquer um. Ele está morto. Os seus homens o mataram, a ele e ao garoto.
“Olhe para ele, Elinor”, ela pensou. “Com os olhos bem firmes, como você olhava para o seu pai quando ele a apanhava com o livro errado. Algumas lágrimas não cairiam mal. Ora, vamos, basta pensar nos seus livros, em todos os seus livros queimados! Pense na última noite, no medo, no desespero. E, se nada disso ajudar, belisque-se!”
Capricórnio a examinou, pensativo.
— Eu não disse? — exclamou Cockerell. — Eu sabia que tínhamos acertado!
Elinor ainda olhava para Capricórnio, que estava em-baçado atrás do véu de suas falsas lágrimas.
— Bem, vamos ver — ele disse lentamente. — Meus
homens já estão mesmo vasculhando a colina atrás de um pri-sioneiro que fugiu. Presumo que você possa me dizer onde eles devem procurar pelos dois mortos.
— Eu os enterrei, e naturalmente não vou dizer onde.
Elinor sentiu as lágrimas escorrerem pelo seu nariz. “Por todas as letras do mundo, Elinor!”, ela pensou. “Que grande atriz eu poderia ter sido!”
— Enterrou, sei, sei.
Capricórnio mexia nos anéis da mão esquerda. Ele u-sava logo três de uma vez, e ajeitou-os com o cenho franzido, como se tivessem saído do lugar sem autorização.
— Por isso eu fui até a polícia! — disse Elinor. — Para vingá-los, a eles e aos meus livros.
Cockerell riu.
— Os livros você não precisou enterrar, não é verdade? Eles queimaram muito bem, como lenha da melhor qualidade, e suas páginas tremeram como dedinhos brancos...
Ele ergueu a mão e imitou o movimento. Elinor não hesitou e desci fechou-lhe uma bofetada, com toda a sua for-ça, que não era pouca. O nariz de Cockerell começou a san-grar. Ele limpou-o com a mão e ficou olhando para ela, como se estivesse surpreso com o fato de que algo tão vermelho pudesse escorrer de seu corpo.
— Olhe só para isto — ele disse, e mostrou para Ca-pricórnio os dedos sujos de sangue. — Você vai ver, ela vai dar mais trabalho para Sombra do que Basta.
Quando ele a levou, Elinor foi andando ao seu lado de cabeça erguida. Somente quando viu a escada, que já após uns poucos degraus íngremes desaparecia num buraco escuro e sem fundo, ela perdeu a coragem por um momento. “A cripta, é claro”, agora se lembrava, “para onde vão os condenados à morte.” Pelo menos era esse o cheiro, um cheiro podre e ú-mido, exatamente como ela teria imaginado o perfume da morte.
No começo, quando viu a figura encolhida de Basta
encostada nas barras da grade, Elinor não acreditou em seus olhos. Achou que tivesse ouvido mal a última frase de Cocke-rell, mas ali estava ele, Basta, aprisionado como um tigre numa jaula, com o mesmo medo, a mesma falta de esperança nos olhos. Nem mesmo a visão de Elinor o animou. Ele olhou através dela, através dela e de Cockerell, como se eles fossem dois dos fantasmas que ele tanto temia.
— O que ele está fazendo aqui? — perguntou Elinor. — Agora vocês prendem uns aos outros?
Cockerell sacudiu os ombros.
— Devo dizer a ela? — ele perguntou para Basta, mas não obteve resposta, apenas o mesmo olhar vazio. — Primei-ro ele deixou Língua Encantada escapar, e agora Dedo Empo-eirado. Assim é claro que ele acabou se sujando com o chefe, mesmo sendo o queridinho dele. Bem, também já fazia anos que ele não deixava mais você botar fogo.
Em seu olhar, era visível a alegria que ele sentia com o sofrimento de Basta.
“Senhora Loredan, está na hora de pensar sobre o seu testamento!”, pensou Elinor, enquanto Cockerell a empurrava para a frente. “Se agora Capricórnio manda executar o seu cão mais fiel, certamente não hesitará em fazer o mesmo com vo-cê.”
— Ei, Basta, bem que você podia ficar um pouco mais alegre! — Cockerell exclamou, enquanto tirava do bolso do casaco o seu molho de chaves. — Afinal, agora você tem a companhia de duas mulheres.
Basta encostou a testa na grade.
— Vocês ainda não pegaram o devorador de fogo? — ele perguntou em tom inexpressivo. Sua voz soou como se ele estivesse rouco de tanto gritar.
— Não, mas a gorda aqui disse que pegamos Língua Encantada. Que ele está mortinho da silva. Ao que parece, Nariz Chato acabou acertando. Bem, pelo menos ele tinha treinado bastante com os gatos.
Atrás da porta gradeada que Cockerell abriu, algo se mexeu. Havia uma mulher sentada na escuridão, com as cos-tas apoiadas em algo que parecia ser um sarcófago de pedra. Inicialmente, Elinor não conseguiu ver o rosto. Então ela se ergueu.
— Companhia para você, Resa! — exclamou Cockerell, enquanto empurrava Elinor porta adentro. — Vocês podem tagarelar um pouco.
Rindo alto, ele saiu dali com seus passos pesados. Elinor, porém, não sabia se devia rir ou chorar. Preferiria ter encontrado sua sobrinha preferida em outro lugar.

51. Por um triz

— Eu não sei o que é — respondeu Fiver, infe-liz.
— No momento, aqui não há perigo, mas ele vi-rá, ele virá.
Richard Adams, A longa jornada

Farid ouviu os passos quando eles estavam preparando as tochas.
Elas tinham que ser maiores e mais firmes do que as que Dedo Empoeirado usava em suas apresentações. Afinal de contas, deveriam queimar por bastante tempo. Ele já havia cortado os cabelos de Língua Encantada com a navalha que Dedo Empoeirado lhe dera. Agora eles estavam curtos como uma escova, o que mudava pelo menos um pouco a aparência dele. Farid também lhe mostrara a terra que ele deveria esfre-gar no rosto para que sua pele parecesse mais escura. Desta vez ninguém podia reconhecê-los, ninguém. Mas então ele ouviu os passos. E vozes: uma voz xingava, a outra ria e ex-clamava alguma coisa. Elas ainda estavam muito longe para que eles pudessem entender as palavras.
Língua Encantada recolheu as tochas. Gwin tentou morder os dedos de Farid quando ele o enfiou dentro da mo-chila.
— Para onde, Farid, para onde? — sussurrou Língua Encantada.
— Eu sei!
Farid jogou a mochila nas costas e puxou Língua En-cantada consigo em direção às ruínas carbonizadas da casa. Ele pulou por cima das pedras negras, no lugar onde antiga-mente havia uma janela, caiu na grama ressecada atrás da pa-rede e se agachou. A prancha de metal que ele empurrou para o lado estava deformada pelo fogo e coberta de ervas floridas. Como neve, minúsculas florzinhas brancas espalhavam-se so-bre o metal. Farid descobriu a prancha uma vez que pulara em cima dela, nas longas horas que havia passado ali com Dedo Empoeirado, com o silencioso, o impenetrável Dedo Empo-eirado. Do muro para a grama, da grama para o muro, ele fi-cava pulando para espantar o silêncio e o tédio, até que notou um som oco e encontrou a prancha e um buraco embaixo de-la. Talvez o compartimento subterrâneo não fosse original-mente nada além de uma despensa para mantimentos perecí-veis, mas pelo menos uma vez ele já havia servido como es-conderijo.
Língua Encantada levou um susto quando tocou o es-queleto na escuridão. Ele parecia pequeno, mal possuía o ta-manho para ser o esqueleto de um adulto, e jazia pacifica-mente ali, no estreito compartimento subterrâneo, encolhido como se tivesse se deitado para dormir. Talvez Farid não sen-tisse medo por ele parecer tão pacífico. Se havia algum espíri-to ali embaixo, com certeza era aquele, mas não passava de uma figura triste e pálida, da qual não era preciso ter medo.
O espaço ficou apertado quando Farid tapou o buraco com a prancha novamente. Língua Encantada era grande, quase grande demais para o esconderijo, mas estar perto dele era tranqüilizador, mesmo o seu coração batendo tão depressa quanto o de Farid. O garoto sentia cada batida enquanto os dois estavam ali agachados, lado a lado, escutando o que a-contecia lá fora.
As vozes se aproximaram, mas ainda não era possível ouvi-las nitidamente, a terra as abafava como se fossem algo do outro mundo. Em certo momento um pé pisou no metal, e
Farid cravou os dedos no braço de Língua Encantada. Ele não o largou até o silêncio voltar sobre as suas cabeças. Demorou muito tempo para eles confiarem novamente no silêncio, um tempo tão interminavelmente longo que Farid chegou a virar a cabeça algumas vezes com a impressão de que o esqueleto se mexia.
Eles de fato não estavam mais lá quando Língua En-cantada ergueu a prancha com cuidado e espiou para fora. Apenas os grilos estrilavam sem parar, e um pássaro assustado levantou vôo do muro carbonizado.
Eles haviam levado tudo, os cobertores, o pulôver de Farid, dentro do qual ele se enfiava à noite como um marisco numa concha, até mesmo a atadura ensangüentada que Língua Encantada enrolara em sua cabeça na noite em que eles quase haviam sido fuzilados.
— E daí? — disse Língua Encantada, quando estavam ao lado dos restos da fogueira. — Hoje à noite não precisaremos dos nossos cobertores.
Então ele passou a mão nos cabelos escuros de Farid. — O que eu faria sem você, espião furtivo, caçador de coelhos e descobridor de esconderijos? — ele disse. Farid olhou para os pés nus e sorriu.

52. Uma criaturinha tão frágil

Quando ela disse achar que Sininho ficaria satisfeita, ele perguntou:
— Quem é Sininho?
— Peter! — ela disse chocada. Mas, quando ela explicou quem era, ele não conseguiu se lembrar.
— Existem tantas delas — ele disse. — Pensei que estava morta.
Acho que ele tinha razão, pois as fadas não vivem muito tempo, mas elas são tão pequeninas que o seu tempo breve não lhes parece tão curto assim.
James M. Barrie, Peter Pan

Os homens de Capricórnio estavam procurando Dedo Empoeirado no lugar errado, pois ele não conseguira sair da aldeia. Ele nem ao menos tentara. Dedo Empoeirado estava na casa de Basta.
Ela ficava numa viela logo atrás do pátio de Capricór-nio, cercada por casas vazias, habitadas apenas por gatos e ratos. Basta não gostava de vizinhos, não apreciava a compa-nhia de ninguém, a não ser a de Capricórnio. Dedo Empoei-rado não tinha dúvida de que Basta dormiria na soleira da porta de Capricórnio se lhe fosse permitido, mas nenhum dos camisas-pretas morava na casa principal. Eles montavam guarda lá, nada além disso. As refeições eram feitas na igreja, e as noites eles passavam numa das muitas casas vazias da aldei-
a, essa era uma regra inflexível. A maior parte deles se mudava constantemente, morava um pouco numa casa e, quando sur-giam goteiras, passava para outra casa. Apenas Basta morava no mesmo lugar desde que haviam chegado à aldeia. Dedo Empoeirado presumia que ele havia escolhido aquela casa porque ali, ao lado da porta, crescia um pé de arruda. Afinal, era a planta indicada para afastar o mal. Com exceção, é claro, do mal que habitava o próprio coração de Basta.
Era uma casa de pedras cinzentas, como a maioria das casas da aldeia, com janelas de madeira pintadas de preto, que Basta mantinha quase sempre fechadas e sobre as quais ele pintara um símbolo que, em sua opinião, afastava o azar, as-sim como as folhas azuladas da arruda. Ás vezes, Dedo Em-poeirado achava que o medo permanente que Basta tinha de maldições e desgraças repentinas devia-se ao temor que ele sentia do que se passava dentro dele mesmo, e da suposição de que o resto do mundo fosse constituído da mesma manei-ra.
Dedo Empoeirado tivera sorte de conseguir chegar até a casa de Basta. Mal havia saído da igreja, ele se deparara com todo um bando dos homens de Capricórnio. É claro que eles o reconheceram de imediato. Sim, Basta realmente cuidara disso, de uma vez por todas. Mas o espanto dos homens dera tempo suficiente para que Dedo Empoeirado desaparecesse numa das ruas. Felizmente, Dedo Empoeirado conhecia cada canto daquela maldita aldeia. Sua primeira idéia era chegar até o estacionamento e dali fugir para as colinas, mas então ele se lembrou da casa vazia de Basta. Ele passara por buracos em muros, se arrastara através de porões e se agachara atrás dos peitoris de sacadas nunca mais utilizadas. Na hora de se es-conder, o próprio Gwin não era melhor do que ele, e agora ele se beneficiava de sua estranha curiosidade, que sempre o leva-ra a explorar os cantos ocultos e esquecidos daquele e de ou-tros lugares.
Ele estava sem fôlego quando chegou à casa de Basta,
provavelmente o único em toda a aldeia de Capricórnio que trancava a porta de casa. Mas a fechadura não era um obstá-culo. Dedo Empoeirado se escondeu no sótão até as batidas do seu coração se acalmarem, embora ali em cima o assoalho estivesse tão podre que, a cada passo, ele tinha medo de que se partisse. Na cozinha de Basta, ele encontrou o bastante pa-ra comer; como um verme, a fome corroia as paredes de seu estômago. Nem ele nem Resa haviam recebido nada para co-mer desde que haviam sido pendurados nas redes, e agora encher a barriga com as provisões de Basta era um duplo pra-zer.
Quando já estava razoavelmente satisfeito, ele abriu uma fresta na janela para que pudesse ouvir a tempo os passos que se aproximassem, mas o único ruído que veio a seus ou-vidos foi um tilintar, tão fraquinho que quase passou desper-cebido. Só então ele se lembrou da fada, a fada que Meggie trouxera de um livro maravilhoso para aquele mundo sem en-cantos.
Ele a encontrou no quarto de Basta. Não havia nada ali além de uma cama e uma cômoda. Em cima dela, cuidadosa-mente enfileirados, havia tijolos, todos cobertos de fuligem. Corria pela aldeia o boato de que Basta levava um tijolo de cada casa que Capricórnio mandava incendiar, mesmo te-mendo o fogo como temia. Pelo jeito, a história era verdadei-ra. Sobre um dos tijolos havia um jarro de vidro, do qual vi-nha uma luz suave, não muito mais clara do que a de um va-ga-lume. A fada estava deitada no fundo, enrolada como uma borboleta que acabara de sair do casulo. Basta havia fechado o jarro com um prato, embora a frágil criaturinha não desse a impressão de ainda ter forças para voar.
Quando Dedo Empoeirado removeu o prato, a fada nem ao menos ergueu a cabeça. Dedo Empoeirado pôs a mão na prisão de vidro e tirou com cuidado a pequena criatura de dentro. Seus membros eram tão delicados que ele tinha medo de quebrá-los. As fadas que ele conhecia eram diferentes,
menores, mas de constituição mais forte, com pele a-zul-violeta e quatro asas cintilantes. Aquela tinha a mesma cor de pele de uma pessoa, uma pessoa muito pálida, e suas asas não se pareciam tanto com as de uma libélula, e sim com as de uma borboleta. Será que, apesar disso, seu alimento preferido era o mesmo das fadas que ele conhecia? Valia a pena tentar; ela parecia quase morta.
Dedo Empoeirado pegou o travesseiro da cama de Basta, colocou-o na cozinha sobre a mesa reluzente de limpa (tudo na casa de Basta era impecavelmente limpo como sua camisa branca) e deitou a fada sobre ele. Então encheu uma xícara com leite e a colocou em cima da mesa ao lado do tra-vesseiro. Ela abriu imediatamente os olhos. No que tangia ao olfato apurado e à predileção por leite, portanto, ela não pare-cia se distinguir das outras fadas que ele conhecia. Ele mergu-lhou o dedo no leite e deixou uma gota branca cair em seus lábios. Ela lambeu como um gatinho faminto. Uma após a outra, Dedo Empoeirado fez escorrer as gotas em sua boca, até que ela se sentou e bateu suavemente as asas. Seu rosto já recuperara um pouco da cor, mas do seu suave tilintar ele não entendeu uma só palavra, embora dominasse três idiomas de fadas.
— Que pena! — ele sussurrou, enquanto ela abria as asas e, ainda um pouco insegura, voava em direção ao teto. — Assim não posso lhe perguntar se por acaso você consegue me tornar invisível, ou bem pequenino para me carregar até a festa de Capricórnio.
A fada olhou para ele lá de cima, emitiu um som inde-cifrável aos seus ouvidos e sentou-se no canto do guar-da-comida.
Dedo Empoeirado sentou-se na única cadeira que havia na cozinha de Basta e olhou para a fada.
— Mesmo assim — ele disse —, é bom finalmente ver uma de vocês de novo. Se neste mundo o fogo tivesse um pouco mais de humor, se de vez em quando um duende ou
um homem de vidro aparecesse entre as árvores, talvez eu até pudesse me acostumar com o resto, com o barulho, com a pressa, com a multidão e com o fato de que é muito difícil escapar das pessoas, e também com as noites claras...
Ele ficou mais um tempo ali, na cozinha do seu pior inimigo, observando a fada, como ela voava pelo quarto, exa-minando tudo (as fadas são curiosas e aquela, ao que tudo in-dicava, não era uma exceção) e bebericando o leite a toda ho-ra, até que ele encheu a xícara novamente. De vez em quando alguns passos se aproximavam, mas sempre se distanciavam novamente. Ainda bem que Basta não tinha amigos. O ar que penetrava pela janela estava abafado e o deixou sonolento. A pequena faixa de céu sobre as casas ainda ficaria clara por ho-ras. Tempo suficiente para que ele refletisse se iria ou não à festa de Capricórnio.
Por que deveria ir? Ele poderia pegar o livro mais tarde, quando o tumulto na aldeia estivesse esquecido e o cotidiano voltasse a reinar. E Resa? O que aconteceria com ela? Sombra viria buscá-la. Ninguém podia mudar isso, nem mesmo Língua Encantada, se é que ele fosse mesmo louco a ponto de tentar. Mas ele não sabia nada sobre ela, e com a filha não era preciso se preocupar. Afinal de contas, agora ela era o brinquedo fa-vorito de Capricórnio. Ele não admitiria que Sombra fizesse mal a ela.
“Não, não irei”, pensou Dedo Empoeirado. “Para quê? Não posso ajudá-los. Ficarei escondido aqui por um tempo. Amanhã não existirá mais Basta, e isso por si só já é ótimo. Talvez então eu também desapareça, para sempre, para longe daqui...” Não. Ele sabia que não faria isso. Não enquanto o livro estivesse ali.
A fada tinha voado até a janela. Curiosa, ela espiava a rua.
— Esqueça. Fique aqui! — disse Dedo Empoeirado. — Lá fora não há nada para você, acredite.
Ela olhou para ele com um ar indagador. Então fechou
as asas e se ajoelhou no batente. E ali ficou, como se não conseguisse se decidir entre o quarto sufocante e a liberdade lá fora.

53. As frases certas

O terrível era isto: que das profundezas daquele lodo parecessem ecoar vozes e gritos, que a poeira amorfa se movimentasse e pecasse, que o que estava morto e não possuía corpo usurpasse a forma da vida.
Robert L. Stevenson, O médico e o monstro

Fenoglio escrevia sem cessar, mas as folhas embaixo do colchão não eram mais numerosas. Ele as pegava a toda hora, riscava e sublinhava, rasgava uma e punha outra no lugar.
— Não, não, não! — Meggie o ouvia resmungar. — Ainda não é isso, não.
— Em algumas horas estará escuro! — ela disse afinal, preocupada. — E se você ainda não tiver terminado?
— Eu terminei! — ele disse, irritado. — Já terminei dezenas de vezes, mas não estou satisfeito.
Ele baixou a voz num sussurro antes de prosseguir.
— É que há tantas perguntas: e se, depois de matar Capricórnio, Sombra vier para cima de você, de mim ou dos prisioneiros? E será que matar Capricórnio é de fato a única solução? O que acontecerá com seus homens depois? O que eu faço com eles?
— O que você faz? Sombra tem que matar todos eles — sussurrou Meggie de volta. — Senão como poderemos voltar para casa ou salvar a minha mãe?
Fenoglio não gostou dessa resposta.
— Céus, que menina mais sem coração você é! Matar todos! Você viu como alguns deles são jovens? — Ele sacudiu a cabeça. — Não, afinal de contas não sou um assassino de massas, sou um escritor! Ainda vai me ocorrer uma solução sem derramamento de sangue.
E então Fenoglio recomeçou a escrever... e a riscar... e a escrever de novo, enquanto lá fora o sol declinava cada vez mais, até que seus raios enfeitaram o cimo das colinas com uma cerca de ouro.
Sempre que se aproximavam passos no corredor, Fe-noglio escondia o que escrevera debaixo do colchão, mas ninguém foi conferir o que o velho rabiscava incansavelmente nas folhas em branco. Afinal, Basta estava na cripta.
As sentinelas, que montavam guarda entediadas diante da porta, receberam muitas visitas naquela tarde. Ao que tudo indicava, os homens das outras bases de Capricórnio também estavam na aldeia para a execução. Meggie encostou o ouvido na porta para ouvir a conversa. Eles riam muito, e suas vozes soavam alvoroçadas. Todos estavam alegres e ansiosos pelo que os esperava. Nenhum deles parecia sentir pena de Basta. Ao contrário, a morte do antigo favorito de Capricórnio na-quela noite parecia aumentar ainda mais sua excitação. Natu-ralmente eles também falaram sobre Meggie. Eles a chama-vam de pequena bruxa, bonequinha mágica, e nem todos pa-reciam convencidos de suas capacidades.
Sobre o carrasco de Basta, Meggie não conseguiu saber nada além do que o próprio Fenoglio lhe contara, e do que ficara em sua memória do trecho do livro que a gralha a fizera ler. Não era muito, mas ela ouvia o medo nas vozes diante da porta, e o terror respeitoso que dominava a todos quando ou-viam mencionar aquele nome indizível. Nem todos conheciam Sombra, só os que, como Capricórnio, provinham do livro, e também Fenoglio, é claro. Mas aparentemente todos já tinham ouvido falar dele — e pintavam com as mais negras tintas o modo como ele se lançaria para cima dos prisioneiros. Sobre
como ele matava as suas vítimas, parecia haver opiniões dis-tintas, mas as hipóteses que Meggie escutava foram ficando mais terríveis conforme a noite se aproximava, até que ela não agüentou mais ouvir, sentou-se à janela e tapou os ouvidos.
Eram seis horas — o sino da torre da igreja deu a pri-meira badalada — quando de repente Fenoglio largou o lápis e contemplou satisfeito o que havia posto no papel.
— Consegui! — ele sussurrou. — Sim, aqui está. Vai dar certo. Agora não tem erro.
Cheio de impaciência, ele fez um sinal para Meggie e lhe passou a folha.
— Leia! — ele sussurrou, com um olhar nervoso na direção da porta.
Lá fora, Nariz Chato estava se gabando de como eles haviam envenenado as provisões de azeitonas de um campo-nês.
— É só isso? — Meggie examinou incrédula a folha escrita.
— Sim, claro! Você verá, mais do que isso não é neces-sário. É preciso que sejam as frases certas. Leia de uma vez!
Meggie obedeceu.
Os homens lá foram riam e ela custou a se concentrar nas palavras de Fenoglio. Mas finalmente conseguiu. No en-tanto, mal havia terminado a primeira frase, de repente fez-se o silêncio lá fora, e a voz da gralha ecoou pelo corredor.
— Mas o que é isso, o chá das cinco?
Fenoglio pegou rapidamente a preciosa folha e a enfiou debaixo do colchão. Ele acabara de ajeitar o lençol quando a gralha abriu a porta bruscamente.
— O seu jantar — ela disse para Meggie, e pôs um prato fumegante em cima da mesa.
— E para mim? — perguntou Fenoglio em tom bas-tante jovial.
O colchão havia escorregado um pouco para o lado quando ele escondera o papel, e ele se encostou na cama para
que Mortola não visse, mas felizmente ela não tinha olhos pa-ra ele. Meggie tinha certeza de que a gralha o considerava um mentiroso e nada mais, e de que ela provavelmente se aborre-cia por Capricórnio não ser da mesma opinião.
— Coma tudo! — ela ordenou a Meggie. — E depois vista-se. Suas roupas são horríveis, e além disso estão duras de sujeira.
Ela fez um sinal para a criada que viera atrás dela. Era uma garota bem jovem, quando muito quatro ou cinco anos mais velha do que Meggie. Os boatos sobre os supostos po-deres mágicos de Meggie pelo jeito também haviam chegado até ela. Em seu braço estava pendurado um vestido branco como a neve, e ela evitou olhar para Meggie quando passou por ela para pendurá-lo no armário.
— Não quero esse vestido! — Meggie reclamou. — Quero vestir isto aqui.
Ela pegou o pulôver de Mo da cama, mas Mortola o arrancou de suas mãos.
— Que absurdo. Você quer que Capricórnio pense que a enfiamos dentro de um saco? Ele escolheu este vestido e você vai usá-lo. Ou você mesma faz isso ou nós a enfiaremos dentro dele. Assim que escurecer, virei buscá-la. Lave-se e penteie os cabelos, você está parecendo um gato sem dono.
A criada voltou de mansinho, com uma expressão tão preocupada como se temesse se queimar caso encostasse em Meggie. A gralha a empurrou para fora impaciente e foi atrás dela.
— Tranque a porta! — ela disse rudemente para Nariz Chato. — E mande os seus amigos embora. Você tem que vigiar.
Nariz Chato se arrastou até a porta com um ar entedi-ado. Antes que a fechasse, Meggie pôde ver a careta que ele fez pelas costas da gralha. Ela foi até o armário e passou a mão no tecido branco do vestido.
— Branco! — ela murmurou. — Não gosto de roupas
brancas. A morte tem cães brancos. Mo me contou uma his-tória sobre ela.
Fenoglio se pôs atrás de Meggie.
— Oh, sim, os cães brancos de olhos vermelhos da morte. Os fantasmas também são brancos, e os deuses antigos saciavam sua sede de sangue apenas com animais brancos, como se achassem a inocência mais saborosa. Mas, não. Não! — ele acrescentou rapidamente quando viu o olhar assustado de Meggie. — Acredite, Capricórnio com certeza não pensou em nada disso quando mandou o vestido para você. Como é que ele ia conhecer essas histórias? Branco também é a cor do começo e do fim, e nós dois, você e eu, vamos dar um jeito para que seja o fim de Capricórnio, e não o nosso.
Delicadamente, ele puxou Meggie até a mesa e sentou-a na cadeira. O cheiro de carne assada penetrava em seu nariz.
— Que carne é essa? — ela perguntou.
— Parece vitela. Por quê? Meggie empurrou o prato.
— Não estou com fome — ela murmurou. Fenoglio olhou para ela cheio de compaixão.
— Sabe, Meggie — ele disse. — Acho que a próxima história que escreverei será sobre você: como você salvou a nós todos, apenas com a sua voz. Com certeza seria muito emocionante...
— Mas também acabará bem?
Meggie olhou para a janela. Apenas mais uma, no má-ximo duas horas, e já estaria escuro. E se Mo também viesse para a festa? E se ele tentasse libertá-la mais uma vez? Ele não sabia o que ela e Fenoglio planejavam. E se atirassem nele de novo? E se tivessem acertado na noite anterior. .. Meggie pôs os braços na mesa e escondeu o rosto neles. Ela sentiu Feno-glio passar a mão em seus cabelos.
— Tudo vai ficar bem, Meggie! — ele sussurrou. — Acredite, minhas histórias sempre terminam bem. Quando eu quero.
— As mangas do vestido são muito estreitas! — ela
sussurrou. — Como vou tirar a folha de dentro sem que a gralha perceba?
— Eu vou distraí-la. Pode contar com isso.
— E os outros? Todos vão ver quando eu tirar a folha.
— Que nada. Você vai conseguir. — Fenoglio segurou o queixo dela. — Tudo vai dar certo, Meggie! — ele disse mais uma vez enquanto enxugava uma lágrima do rosto da menina com o indicador. — Você não estará sozinha, mesmo que na hora talvez pense que está. Eu estou aqui, e Dedo Empoeirado está em algum lugar lá fora. Acredite, eu o co-nheço como a mim mesmo, ele virá, mesmo que seja apenas para ver o livro, e talvez consegui-lo de volta... e depois o seu pai também estará por perto. E aquele garoto, que olhou tão apaixonado para você naquela praça em frente ao monumen-to, quando encontrei Dedo Empoeirado.
— Pare com isso! — Meggie deu uma cotovelada na barriga de Fenoglio, mas acabou rindo.
As lágrimas deixavam tudo embaçado, a mesa, suas mãos e o rosto enrugado de Fenoglio. Ela tinha a impressão de que nas últimas semanas havia gasto todas as lágrimas da sua vida.
— Por quê? Ele é um rapaz bonito. Eu não hesitaria em interceder em favor dele junto ao seu pai.
— Eu mandei parar!
— Só se você comer alguma coisa. — Fenoglio em-purrou o prato de volta para ela. — E essa amiga de vocês, como é mesmo que ela se chama...
— Elinor.
Meggie pôs uma azeitona na boca e mordeu até sentir o caroço entre os dentes.
— Isso mesmo. Talvez ela já esteja lá fora, junto com seu pai. Meu Deus, pensando bem, estamos quase em maioria.
Por pouco, Meggie não engoliu o caroço da azeitona. Fenoglio sorriu satisfeito consigo mesmo. Sempre que conse-guia fazê-la rir, Mo erguia a sobrancelha e fazia uma cara séria
e espantada, como se nem com toda a sua boa vontade pu-desse imaginar do que ela estava rindo. Meggie via tão nitida-mente seu rosto que quase estendeu a mão para tocá-lo.
— Logo você verá o seu pai novamente! — sussurrou Fenoglio. — E então vai contar a ele que encontrou sua mãe totalmente por acaso e, de quebra, a salvou de Capricórnio. Isso já é alguma coisa, não?
Meggie apenas fez que sim.
O vestido pinicava no pescoço e nos braços. Não pare-cia um vestido de criança, mas sim de uma mulher adulta, e ficava muito grande em Meggie. Quando deu alguns passos, ela pisou na barra. As mangas eram estreitas, mas a folha de papel, fina como uma pata de libélula, entrou facilmente. Meggie ensaiou algumas vezes — enfiar para dentro, puxar para fora. Finalmente, ela deixou a folha dentro da manga. Fazia um barulhinho quando ela mexia as mãos ou erguia o braço.
A lua pairava pálida sobre a torre da igreja, e a noite vestia sua luz como um véu diante do rosto quando a gralha voltou para buscar Meggie.
— Você não se penteou! — ela observou, irritada.
Dessa vez havia uma outra criada com ela, uma mulher atarracada com um rosto vermelho e mãos vermelhas, que não demonstrou o menor temor perante os poderes de Meggie. Ela passou o pente nos cabelos da menina com tão pouco cuidado que quase a fez gritar.
— Sapatos! — disse a gralha quando viu os pés nus de Meggie saindo para fora da barra do vestido. — Será que nin-guém pensou nos sapatos?
— Ela podia muito bem usar esses aí — a criada apon-tou para os tênis puídos de Meggie. — O vestido é longo, ninguém vai ver. Além disso, as bruxas não andam sempre descalças?
A gralha lançou-lhe um olhar que fez sua voz murchar nos lábios.
— Exatamente! — exclamou Fenoglio, que observara o tempo todo com um olhar zombeteiro como as duas mulheres se arranjavam com Meggie. — É verdade. Elas sempre andam descalças. Também devo trocar de roupa para a ocasião sole-ne? O que se deve usar numa execução? Suponho que me sentarei bem ao lado de Capricórnio, não é?
A gralha espichou o queixo. Ele era pequeno e suave, como se fosse de um outro rosto, mais delicado.
— Pode ficar como está. Prisioneiros não precisam trocar de roupa — ela disse enquanto punha uma fivela de pérolas nos cabelos de Meggie. O sarcasmo escorria de sua voz feito veneno.
— Prisioneiro? O que significa isso? — Fenoglio ar-rastou a cadeira.
— Sim, prisioneiro. O que mais seria? — A gralha deu um passo para trás e avaliou Meggie com o olhar. — Acho que assim está bom. Estranho, com os cabelos soltos ela me lembra alguém.
Meggie abaixou a cabeça depressa e, antes que a gralha pudesse refletir mais a fundo sobre o que percebera, Fenoglio desviou a atenção dela para si.
— Não sou um prisioneiro comum, minha senhora, vamos deixar isso claro mais uma vez! — ele estrilou. — Sem mim, nada disto aqui existiria, inclusive a sua desagradável pessoa!
A gralha mediu-o com um último olhar de desprezo e pegou Meggie pelo braço, por sorte não por aquele sob cuja manga estavam escondidas as preciosas palavras de Fenoglio.
— O guarda virá buscá-lo quando chegar a hora — ela disse enquanto puxava Meggie para a porta.
— Pense no que o seu pai lhe disse — exclamou Feno-glio, quando Meggie já estava no corredor. — As palavras só ganham vida quando você as saboreia na língua.
A gralha deu um empurrão nas costas de Meggie.
— Vamos de uma vez! — ela disse, e fechou a porta atrás de si.

54. Jogo

Mas de repente Bagheera deu um salto.
— Não! Já sei! Corra depressa para o vale lá em-baixo, para as cabanas dos homens, e pegue um pouco da Flor Vermelha que eles cultivam lá. Assim, quando chegar a hora, você terá um amigo mais poderoso do que eu ou Baloo ou qualquer um da alcatéia que goste de você. Pegue a Flor Vermelha!
Com “a Flor Vermelha”, Bagheera referia-se ao fogo; só que na selva ninguém o chamava pelo nome, pois todos o temiam como à morte.
Rudyard Kipling, O livro da selva

Eles partiram quando o crepúsculo se estendeu sobre as colinas. Gwin ficou no acampamento. Depois do que aconte-cera em sua última incursão noturna à aldeia de Capricórnio, o próprio Farid concordou que era melhor assim. Língua En-cantada deixou que ele fosse na frente. Não sabia sobre o medo que o garoto sentia de espíritos e de outras figuras no-turnas, Farid conseguira esconder bem isso dele, muito me-lhor do que de Dedo Empoeirado. Língua Encantada também não zombava de seu medo do escuro, como fazia Dedo Em-poeirado, e estranhamente isso tornava o medo menor, fazia-o encolher, como só acontecia na luz do dia.
Quando Farid começou a descer a encosta íngreme, com passos cautelosos e ao mesmo tempo firmes, ele ouviu
sussurrar os espíritos nas árvores e nos arbustos como na ou-tra noite. Mas agora eles não se aproximaram, como se de re-pente fossem eles que o temessem e ele pudesse comandá-los, como Dedo Empoeirado fazia com o fogo.
O fogo. Eles haviam decidido ateá-lo diretamente na casa de Capricórnio. Assim as chamas não alcançariam a coli-na tão depressa e ameaçariam o que Capricórnio mais prezava: sua câmara do tesouro.
Desta vez, a aldeia não estava silenciosa e deserta como nas noites anteriores. Havia um zunido no ar, como o de um vespeiro. Só no estacionamento patrulhavam quatro sentinelas armadas e, ao redor do alambrado que cercava o campo de futebol vazio, havia uma série de automóveis estacionados. Seus faróis acesos mergulhavam o campo numa luz ofuscante. O asfalto parecia uma toalha clara que alguém havia estendido na escuridão.
— Então é ali que o espetáculo vai acontecer — sus-surrou Língua Encantada, quando eles se aproximavam das casas. — Pobre Meggie.
No meio da praça haviam montado uma espécie de ta-blado, em frente ao qual havia uma jaula, talvez para o mons-tro que a filha de Língua Encantada deveria trazer do livro, ou então para os prisioneiros. Na margem esquerda do campo, de costas para a cerca de arame e para a aldeia, havia alguns ban-cos compridos de madeira, nos quais já estavam sentados al-guns casacos-pretos, como corvos empoleirados que haviam encontrado um lugarzinho quente e iluminado para passar a noite.
De início, eles pensaram em entrar na aldeia pelo esta-cionamento. No meio de tanta gente de fora, não seriam no-tados tão depressa; mas acabaram se decidindo por um cami-nho mais longo e mais escuro. Farid foi na frente de novo, usando cada tronco de árvore como cobertura, sempre se mantendo acima das casas, até que chegaram à parte da aldeia que não era habitada e parecia ter sido pisoteada por um gi-
gante. Mesmo ali, naquela noite patrulhavam mais guardas do que de costume. Várias vezes eles precisaram se esquivar na sombra de um portão, se agachar atrás de um muro ou pular uma janela e, prendendo a respiração, esperar que o guarda passasse. Felizmente havia muitos cantos escuros na aldeia de Capricórnio, e os guardas se arrastavam entediados pelas vie-las, como fazem os homens que têm certeza de que nenhum perigo os ameaça.
Farid estava com a mochila de Dedo Empoeirado, com tudo o que era necessário para acender um fogo rápido e efi-caz. Língua Encantada carregava a lenha que eles haviam re-colhido para o caso de as chamas não encontrarem alimento suficiente entre as pedras. Além disso, havia ali também os estoques de gasolina de Capricórnio. Farid ainda sentia aquele cheiro no nariz, da noite em que havia estado preso. Os tonéis eram vigiados de vez em quando, mas talvez nem fossem ne-cessários.
Era uma noite sem vento, as chamas queimariam tran-qüilas e constantes. Farid lembrou-se da advertência de Dedo Empoeirado: “Nunca faça fogo quando está ventando. O vento de repente mete as mãos dentro dele, e ele vai se es-quecer de você; então o vento vai começar a soprar e atiçar o fogo até ele pular em cima de você e arrancar a pele dos seus ossos com lambidas”. Mas naquela noite o vento estava dor-mindo, e o ar imóvel enchia as vielas como água morna num balde.
Eles esperavam encontrar a praça diante da casa de Ca-pricórnio vazia, mas, quando espreitaram de uma das vielas, viram meia dúzia de casacos-pretos na frente da igreja.
— O que eles ainda estão fazendo aqui? — sussurrou Farid, enquanto Língua Encantada o puxava para a sombra diante de uma porta. — A festa já vai começar.
Duas criadas saíram da casa de Capricórnio, cada qual com uma pilha de pratos. Elas os levaram para a igreja. Tudo indicava que, mais tarde, o sucesso da execução seria come-
morado ali. Na hora em que as criadas passaram pelos ho-mens, eles assobiaram. Uma das mulheres quase deixou cair a louça quando um deles tentou erguer sua saia com o cano da espingarda. Era o mesmo homem que reconhecera Língua Encantada na última noite, lá na aldeia. Farid pôs a mão na testa, que ainda sangrava, e o amaldiçoou com as piores pragas que conhecia. Desejou que ele contraísse a peste bubônica, uma sarna... Por que justamente ele estava ali? Mas, mesmo que conseguissem passar por ele sem ser reconhecidos, como iriam atear o fogo com os outros perambulando por ali?
— Calma! — sussurrou Língua Encantada. — Eles já estão indo embora. Agora precisamos descobrir se Meggie não está mesmo na casa.
Farid assentiu e olhou para o grande edifício. Atrás de duas janelas ainda havia luz, mas isso não devia significar na-da.
— Vou até a praça lá embaixo e vejo se ela já está lá — ele disse no ouvido de Língua Encantada.
Talvez eles já tivessem tirado Dedo Empoeirado da i-greja, talvez ele estivesse na jaula e Farid poderia sussurrar-lhe que haviam trazido seu melhor amigo, o fogo, para salvá-lo.
Apesar das lâmpadas claras, a noite preenchia muitos cantos entre as casas com suas sombras. Farid já ia partir dali quando a porta da casa de Capricórnio se abriu. A velha saiu de dentro, a velha que tinha cara de abutre. Ela puxava a filha de Língua Encantada, que ia atrás. Farid quase não a reco-nheceu no longo vestido branco. Atrás das duas, o homem que havia atirado neles saiu pela porta, com a espingarda na mão. Ele olhou para os lados, e então tirou um molho de chaves do bolso, trancou a porta e chamou um dos homens que estavam na frente da igreja com um sinal. Ao que tudo indicava, ele ordenou-lhe que vigiasse a casa. Uma sentinela, portanto, ficaria ali enquanto os outros iriam para a festa. Fa-rid sentiu como Língua Encantada, ao seu lado, retesava todos os músculos, como se fosse sair correndo atrás da filha, que
estava quase tão pálida quanto o vestido. Farid agarrou seu braço para adverti-lo, mas Língua Encantada parecia ter se esquecido dele. Um único descuido e ele sairia da sombra que os protegia!
— Não! — preocupado, Farid puxou-o de volta, da melhor forma que conseguiu; afinal de contas ele mal chegava à altura de seus ombros.
Felizmente, os homens de Capricórnio não estavam olhando na direção deles; seus olhos acompanhavam a velha, que atravessava a praça depressa, fazendo a garota tropeçar algumas vezes na barra do vestido.
— Ela está pálida! — sussurrou Língua Encantada. — Céus, você viu o medo que está sentindo? Talvez olhe para cá, talvez possamos lhe fazer um sinal de alguma maneira...
— Não! — Farid ainda o segurava firme com as duas mãos. — Temos que fazer fogo. Só isso pode ajudá-la. Por favor, Língua Encantada, eles podem ver você.
— Não me chame o tempo inteiro de Língua Encanta-da. Isso me dá nos nervos.
A velha sumiu com Meggie entre as casas. Nariz Chato ia atrás delas, lerdo como um urso no qual alguém vestira um terno preto, e então finalmente os outros também se foram. Rindo, eles desapareceram nas ruas, alegres e ansiosos com o que a noite lhes reservava: morte, temperada com medo, e a chegada de um novo horror à aldeia maldita.
Apenas o vigia da casa de Capricórnio ainda estava lá. Emburrado, ele seguiu os outros com o olhar, pisou num maço de cigarros vazio e bateu com os punhos na parede. Só ele perderia a diversão. A sentinela lá em cima, na torre da i-greja, pelo menos poderia assistir a tudo de longe...
Eles já contavam com a presença de um casaco-preto diante da casa. Farid explicara a Língua Encantada qual seria a melhor maneira de se livrar dele, e Língua Encantada concor-dara integralmente com o plano. Quando silenciaram os pas-sos dos homens de Capricórnio, e só se ouvia o burburinho
do estacionamento ao longe, eles saíram da sombra como se acabassem de chegar pela viela e foram andando, lado a lado, em direção ao guarda. Este olhou para os dois desconfiado, afastou-se da parede onde estava encostado e sacou a espin-garda que estava em seu ombro. Aquela espingarda era uma visão inquietante. Involuntariamente, Farid passou a mão na testa, mas pelo menos o vigia não era um dos homens que poderiam reconhecê-lo de imediato: nem o perna-de-pau, nem Basta, nem outro dos sanguinários cães particulares de Capri-córnio.
— Ei, você precisa nos ajudar! — exclamou Língua Encantada, sem dar atenção a espingarda. — Os idiotas se esqueceram da poltrona de Capricórnio. Temos que levar lá para baixo.
O guarda continuou com a espingarda apontada.
— Ah, é? Mais essa agora. Aquele trambolho é de moer o esqueleto, de tão pesado. De onde vocês são? — ele olhou para o rosto de Língua Encantada como se tentasse se lembrar se já o vira alguma vez. A Farid ele não deu nenhuma atenção. — Vocês são do norte? Ouvi falar que lá vocês têm diversão à beça.
— Temos mesmo. — Língua Encantada chegou tão perto do guarda que ele deu um passo para trás. — Agora venha, você sabe que Capricórnio não gosta nem um pouco de esperar.
O guarda assentiu, ainda mais emburrado.
— Está bem, está bem — ele resmungou enquanto o-lhava para a igreja. — Não faz nenhum sentido montar guarda aqui. O que eles estão achando? Que o cuspidor de fogo vai entrar aqui para roubar o ouro? Ele sempre foi um covarde, e já deu no pé há muito tempo...
Língua Encantada bateu com a coronha da espingarda em sua cabeça enquanto ele ainda olhava para a igreja, e ar-rastou-o para trás da casa de Capricórnio, onde a noite estava escura como breu.
— Você ouviu o que ele disse? — Farid enrolou uma corda nas pernas do homem inconsciente. Amarrar coisas era algo que ele fazia melhor do que Língua Encantada. — Dedo Empoeirado fugiu! O guarda só podia estar falando dele! Dis-se que ele deu no pé.
— Sim, eu ouvi! E estou tão contente quanto você, mas a minha filha ainda está aqui.
Língua Encantada pôs a mochila em seus braços e o-lhou ao redor. A praça continuava silenciosa e abandonada, como se não houvesse outras pessoas além deles na aldeia de Capricórnio. Da sentinela na torre da igreja não se ouvia nada, provavelmente naquela noite ela também estava olhando para o campo de futebol iluminado.
Farid tirou duas tochas e a garrafa com querosene da mochila de Dedo Empoeirado. “Dedo Empoeirado, o cuspi-dor de fogo, conseguiu escapar!”, ele pensou. “Ele escapou!” O menino quase riu alto.
Língua Encantada correu de volta para a casa de Ca-pricórnio, espiou em algumas janelas e finalmente arrombou uma delas. Depois tirou o casaco e o pressionou contra o vi-dro para abafar o ruído. Do estacionamento, subia o som da música e de risadas.
— Os fósforos! Não estou achando!
Farid remexeu em vão nas coisas de Dedo Empoeira-do, até que Língua Encantada tirou a mochila de sua mão.
— Me dê aqui! — ele sussurrou. — Prepare as tochas.
Farid obedeceu. Cuidadosamente, embebeu o algodão com o líquido de odor acre. “Dedo Empoeirado voltará para buscar Gwin”, ele pensou, “e então me levará com ele.” De uma das ruas vinham vozes, vozes de homens. Por alguns instantes terríveis, pareceu que se aproximavam, mas então elas sumiram novamente, engolidas pela música que vinha do estacionamento e enchia a noite como um perfume ruim.
Língua Encantada ainda procurava os fósforos.
— Droga — ele xingou baixinho, e tirou a mão da
mochila.
Seu polegar estava sujo de cocô de marta. Ele o limpou no muro mais próximo, pôs a mão mais uma vez na mochila e jogou uma caixa de fósforos para Farid. Então ele tirou mais uma coisa: o pequeno livro que Dedo Empoeirado guardava num bolso interno e que Farid havia folheado várias vezes. Havia fotos coladas, recortes de figuras de fadas, de bruxas, duendes, ninfas e árvores antiqüíssimas... Língua Encantada olhava para elas enquanto Farid embebia a segunda tocha. Então ele viu a foto, a foto da criada de Capricórnio que ten-tara ajudar Dedo Empoeirado e que deveria morrer naquela noite por causa disso. Será que ela também fugira? Língua Encantada olhava para a foto como se não houvesse mais na-da no mundo.
— O que foi? — Farid encostou o fósforo na tocha encharcada. A chama lambeu o ar, faminta e sibilante. Como era bonita! Farid molhou os dedos com a língua e passou a mão por ela. — Aqui! Tome!
Ele estendeu a tocha para Língua Encantada, era me-lhor que ele a jogasse pela janela, afinal ele era mais alto. Mas Língua Encantada estava olhando para a foto, totalmente ab-sorto.
— Esta é a mulher que ajudou Dedo Empoeirado — disse Farid. — A que eles prenderam também! Acho que ele está apaixonado por ela. Aqui.
Mais uma vez, ele estendeu a tocha flamejante para Língua Encantada.
— O que você está esperando?
Língua Encantada olhou para ele como se tivesse acor-dado de um sonho.
— Sei, sei, apaixonado — ele murmurou enquanto pe-gava a tocha de sua mão.
Então ele pôs a foto no bolso da camisa, olhou mais uma vez para a praça vazia e jogou a tocha dentro da casa de Capricórnio pela vidraça quebrada.
— Erga-me, quero ver como queima!
Língua Encantada atendeu ao seu desejo. O aposento parecia ser uma espécie de escritório, Farid viu papel, uma escrivaninha, uma foto de Capricórnio na parede. Alguém ali parecia saber escrever, apesar de tudo. A tocha ardeu no chão entre as folhas escritas, lambeu, crepitando alegremente, a mesa servida com abundância, subiu e então saltou mais lon-ge, da mesa para as cortinas diante da janela. Ávida, ela devo-rou o tecido escuro. Todo o quarto se encheu de vermelho e amarelo. A fumaça saiu pelo vidro quebrado e mordeu os o-lhos de Farid.
— Tenho que ir! — Língua Encantada o pôs de volta bruscamente no chão.
A música se calara. De repente, o silêncio era fantas-magórico. Língua Encantada começou a correr em direção à viela que conduzia ao estacionamento.
Farid seguiu-o com o olhar. Ele ainda tinha mais uma tarefa. Esperou até que as chamas saíssem pela janela, então começou a gritar:
— Fogo! Fogo na casa de Capricórnio! Sua voz ecoou na praça vazia.
Com o coração aos pulos, ele correu para a esquina da grande casa e olhou para a torre da igreja. A sentinela se puse-ra de pé num salto. Farid acendeu a segunda tocha e lançou-a diante do portal da igreja. Um cheiro de fumaça se espalhou pelo ar. O guarda parou um instante, estupefato, virou-se, e então finalmente começou a tocar o sino. E Farid saiu cor-rendo atrás de Língua Encantada.