sábado, 2 de abril de 2011

A Divina Comédia | Inferno - Cantos VII ao XII

Canto VII
— Pape Satàn pape Satàn aleppe! — começava Pluto com sua voz
rouca. Virgílio virou-se para mim e disse, com segurança:
— Não tenhas medo dele. Lembre-se que, por mais que ele
tenha poder, ele não pode impedir nossa descida. — Depois, dirigiu-
se a Pluto e gritou:
— Cala a boca lobo maldito! Consome em ti mesmo tua raiva.
Nossa descida não é sem propósito, pois é algo que se quer nas alturas!
Diante daquela voz revestida de autoridade, Pluto mal pôde
reagir. Logo fraquejou e diante de nós, tombou.
Aproveitamos, então, para descer pela beira que contorna o
quarto círculo. Lá vi mais almas que em todos os círculos precedentes.
Estavam organizadas em dois grupos que se enfrentavam, com
os peitos nus, rolando grandes pesos em sentidos contrários até colidirem
uns com os outros. Após o choque um grupo gritava “por
que poupas?”. O outro gritava “por que gastas?”. Depois do choque
seguiam em sentido contrário até se encontrarem novamente,
do outro lado do círculo. E assim continuavam por toda a eternidade.
Com o coração pungido de desgosto, perguntei:
— Mestre, quem são essas pessoas? Eram padres essas almas
que vejo aqui do lado, com corte de cabelos em cercilha?
— Todos — respondeu o mestre —, em sua vida terrena, não
foram judiciosos com seus gastos. Isto declaram, quando se

Notas 20 (Continuação da "Notas 19 - 7.4)
tica (se for pessoa rica), prejudica o equilíbrio das riquezas na sociedade (a roda
da fortuna). Por exemplo, optar por pagar mais caro por um produto pode fazer
pouca diferença para uma pessoa de posses, dará maior lucro ao vendedor
e, numa escala maior, influenciará o mercado a praticar preços mais altos, prejudicando
os que não podem pagar mais. A prodigalidade geralmente está associada
à ostentação, à necessidade de esbanjar riqueza, de impressionar, etc.
7.5 A roda da Fortuna: Comentário de Salvatore Viglio (Frei Cassiano): “O tema
da Fortuna não era novo. Os pagãos chegaram a endeusá-la e a dedicar-lhe
templos. Ela distribui os bens da terra rotativamente por não poderem pertencer
todos a todos ao mesmo tempo. Dela dependem o alternar-se de miséria e
riqueza, de bem-estar e de penúria por que passam os indivíduos e as nações. É,
em outros termos, a Divina Providência que os pagãos chamam de Fortuna. A
sua existência explicaria assim o estado de miséria em que vivem freqüentemente
os sábios e os bons, destituídos de bens materiais, mas ricos, em compensação,
dos tesouros da sabedoria e da virtude.” [Viglio 70]
7.6 “Cada esfera que brilha reflete sobre as outras”: refere-se às esferas do Paraíso
(os planetas, o sol, a lua e as estrelas). A Fortuna é comparada aos anjos
(que cuidam do movimento dos planetas).

Inferno 20

encontram nas suas culpas opostas. Esses de coroa pelada são clérigos,
papas e cardeais, nos quais a avareza se manifesta mais facilmente.
— Mestre — falei — em um grupo como este certamente serei
capaz de reconhecer alguém.
— É inútil a tua esperança. — respondeu o mestre — Sua
vida sem conhecimento os tornou imundos e agora é mais difícil
reconhecê-los. Eternamente se enfrentarão, aqueles de punho cerrado
e aqueles outros sem cabelos. Mal dar e mal guardar os tirou
do mundo, colocando-os nessa rinha. Mas não vale a pena mais falar
deles. Vês, filho, como de nada adianta os homens brigarem pela
fortuna? Pois todo o ouro que está ou já esteve sob a Lua não
comprará um minuto sequer de descanso para essas almas cansadas.
— Mestre meu — disse eu — me dize o que é a Fortuna de
que agora falas? Como é que ela é, essa que guarda todas as riquezas
do mundo em suas mãos?
— Aquele cujo saber tudo transcende — explicou-me o mestre
— fez os céus e lhes deu quem os conduz, e cada esfera que brilha
reflete sobre as outras, distribuindo igualmente a luz. Do mesmo
modo, para as riquezas mundanas designou uma ministra para
que ela cuidasse de permutar, de tempos em tempos, os bens profanos
entre as nações e famílias, livres do alcance da cobiça humana.
Então, enquanto uma nação impera, outra enfraquece, de acordo
com o arbítrio dela, que é oculto como uma serpente na relva.
Vosso saber não tem poder sobre sua lei, pois ela prevê, julga e rege
sobre seu reino. E ela nunca pára. É amaldiçoada até por quem deveria
louvá-la, mas como é beata, ela não os ouve, e continua a girar
a sua roda eternamente.

Notas 21
7.7 O Rio Estige (Styx) é um dos rios do inferno clássico. Os outros são o Aqueronte,
o Flegetonte, o Letes e o Cócito. O Estige é um rio pantanoso que cerca
a cidade de Dite (nota 8.2). É também o quinto círculo onde ficam submersos
os iracundos.
7.8 Os vencidos pela ira são amontoados no rio Estige juntos com seus semelhantes
que não conseguiram controlar a raiva. São submetidos assim aos efeitos
da ira causados por seus semelhantes, e então se mordem, se batem e se torturam.
No fundo do Estige estão os rancorosos que, por nunca terem externado
sua ira, não podem subir à superfície e ficam a gorgolar a lama no fundo do
rio.

Inferno 21

Não demoramos mais naquele lugar pois o dia já chegava ao
fim, e nosso tempo era curto. Descemos então para o quinto círculo
por uma vereda escura onde nascia uma fonte de água preta e
fervente. Atravessamos o riacho e acompanhamos suas encostas
através de um caminho estreito, até que chegamos finalmente às
margens de um vasto pântano chamado Estige, onde o riacho desaguava.
Apesar da escuridão, pude ver naquela água escura, vultos nus
cobertos de lama remexendo-se, com feições iradas. Eles esmurravam-
se com as mãos, batiam cabeças, se chutavam e arrancavam as
peles uns dos outros com os dentes.
— Filho — disse o bom mestre —, aqui tu vês as almas dos
vencidos pela ira, e vou dizer-te ainda, se me crês, que embaixo
d'água há gente que suspira, fazendo-a borbulhar. São aqueles vencidos
pelo rancor, a ira contida e passiva, porém igualmente destrutiva.
Eles gorgolam o lodo e formam as bolhas que pipocam sobre
esta lama fétida.
Depois demos uma grande volta, seguindo entre o rio e a orla
seca, sempre observando aqueles que engoliam a lama, até chegarmos
ao pé de uma alta torre, no final.

Notas 22
Dante e Virgílio no Inferno. Pintura de Eugène Delacroix (século XIX) mostrando
Flégias, o barqueiro, que faz a travessia do rio Estige levando Dante
e Virgílio. O rio está repleto de almas iradas. Avista-se, no horizonte, a
cidade de Dite e o fogo eterno. (Museu do Louvre, Paris)

Canto VIII

Eu devo explicar que, bem antes de chegarmos ao pé daquela
torre, já observávamos as duas chamas que havia
no seu cume. Na escuridão do rio, outra luz tão distante
que quase não se via, respondia com um sinal. Voltei-me ao mar de
toda sabedoria, e perguntei:
— Que sinais são estes? E aquela outra chama, o que ela responde?
Quem é que as provoca?
— Sobre esta lama imunda em breve poderás perceber o que
se espera — respondeu Virgílio.
Mal ele terminara de falar, da escuridão surgiu um barquinho pilotado
por um barqueiro solitário, cortando a água em nossa direção.
— Chegaste, alma culposa! — gritou ele ao ancorar.
— Flégias, Flégias, desta vez tu gritas em vão — respondeu o
meu senhor —, pois só vais nos levar à outra margem e nada mais.
Contendo a sua ira, o barqueiro concordou. Meu guia calmamente
embarcou e depois eu entrei, e só então o barco pareceu carregado.
No meio do caminho, um ser lamacento surgiu das águas e me
chamou, perguntando:
— Quem és tu que vens antes do tempo?
— Venho — respondi —, mas não demoro, mas quem és tu
tão revoltoso?
— Eu sou um dos que chora, como podes ver.
— Com choro e com luto, espírito maldito, que assim
permaneças, pois eu te conheço, mesmo tão sujo!
Inferno 22

Notas 23
8 Personagens e símbolos do Canto VIII
8.1 Flégias (Phlegyas) era o rei dos Lapitas. Teve sua filha Coronis violada pelo
deus Apolo e, por isso, incendiou o templo de Apolo em Delfos como vingança.
Por não conter a sua ira, foi condenado, no inferno clássico, a permanecer
logo abaixo de uma pedra enorme, pendente, sempre prestes a cair sobre ele.
[Longfellow 67]
8.2 A cidade de Dite (Dis) é a cidade dolente, habitada pelos hereges que duvidavam
da sua existência. Serve de divisão entre os pecados cometidos sem intenção
(culpa) e os pecados cometidos conscientemente (dolo).
8.3 Filippo Argenti é conhecido apenas das obras de Dante e do Decamerão, de
Boccaccio. Teria sido um guelfo muito rico, forte e orgulhoso, mas de pavio
curto. A menor provocação era respondida de forma explosiva e irada. Provavelmente
era um guelfo da facção dos Neri e que teve algum desentendimento
sério com Dante.

Inferno 23

Depois que eu lhe respondi, ele irritou-se e saltou sobre o barco,
tentando me agarrar. Virgílio, porém, foi mais rápido e conseguiu
lançá-lo de volta ao rio.
— No mundo este homem foi pessoa orgulhosa — disse o
mestre — e nada de bom resta em sua memória. Por isto é que sua
alma está aqui tão furiosa. Quantos lá em cima se julgam grandes
reis e aqui estarão como porcos na lama?
— Mestre — falei —, muito me agradaria também vê-lo aqui
afundado na lama antes que saíssemos deste lago.
— Antes que apareça a outra costa — respondeu o mestre —
teu desejo será satisfeito.
Pouco depois, ouvi seus companheiros o massacrarem. Eles
gritavam: “Vamos pegar Filippo Argenti!”. Deleitei-me ao ver aquele
florentino arrogante morder a si mesmo com os dentes de raiva.
E lá o deixei, e disso não falo mais. Comecei, então, a ouvir
vozes dolorosas, que me impeliram a olhar adiante.
— E agora meu filho — chamou-me o mestre — nos aproximamos
da cidade que se chama Dite, com seus tristes cidadãos e
grande companhia.
— Mestre, — observei — já posso ver as suas mesquitas logo
acima do vale infernal! Elas brilham, vermelhas como ferro em brasa.
— É o fogo eterno que arde no seu interior que faz esse brilho
rubro se espalhar pelo baixo Inferno. — completou Virgílio.
Entramos no fosso que cerca a cidade e Flégias deu uma grande
volta em torno dela, onde pude observar seus muros que pareciam
ser de ferro. Quando chegamos diante da entrada da cidade, Flégias
gritou alto com toda a força:
— Saiam! Saiam logo! É aqui a entrada.

Notas 24
Flégias (o barqueiro) realiza a travessia do Rio Estige levando Dante e
Virgílio. Dentro do rio estão condenados pelo pecado da ira. Ilustração
de Gustave Doré (século XIX).

Inferno 24

Descendo do barco, fomos recepcionados por um grupo de
demônios. Eles chegaram e perguntaram:
— Quem é esse que, sem morte, anda pelo reino da morta
gente?
O sábio mestre veio em meu auxílio. Dirigindo-se aos demônios,
fez sinais indicando que gostaria de falar com eles secretamente.
Responderam os diabos, disfarçando sua arrogância:
— Tudo bem, mas vem tu sozinho. E esse outro aí, que achava
que podia andar como rei nesta terra, que prove que pode voltar
sozinho se souber, pois tu que o guiaste até aqui vais ficar conosco!
Apavorei-me diante dessas palavras e temi não mais poder
voltar a ver o mundo outra vez.
— Caro meu guia — chorei, em desespero —, que tantas vezes
me deste segurança, não me deixes, por favor! Se não pudermos
prosseguir nesta jornada, que voltemos já sem demora!
Mas ele, confiante, me respondeu:
— Não temas, porque o nosso passo, ninguém pode impedir.
Mas espera aqui e descansa. Não deixes de ter esperança, pois podes
ter certeza que não te deixarei sozinho neste mundo baixo.
Ele falou e foi encontrar-se com os diabos, e eu fiquei só a observar
de longe. Não ouvi a conversa. Só vi a briga de longe e a porta
da cidade se fechar diante de Virgílio, que voltou para mim cabisbaixo,
em um passo lento.
— Olha só quem me nega a cidade da dor! — disse, triste —
Mas não temas, pois ainda vencerei esta prova. A esta hora já deve
estar no portal deste Inferno alguém por quem esta entrada será
aberta.

Notas 25
9 Personagens e símbolos do Canto IX
9.1 Proserpina (Perséfone): Filha de Zeus e de Demeter (deusa da agricultura) na
mitologia grega. Foi raptada por Pluto (Hades) e se tornou rainha do mundo
subterrâneo.
9.2 Medusa: é uma das três górgonas – horrendos monstros da mitologia grega
que se assemelhavam a dragões, cobertos de escamas douradas e tendo serpentes
no lugar dos cabelos. Tinham asas enormes e rostos arredondados e feios,
com a língua sempre de fora mostrando os dentes afiados. Olhar para uma górgona
transformaria a pessoa em pedra. Medusa era a única das três górgonas
que não era imortal. [Encarta 97]
9.3 Erínias (Fúrias): são divindades do inferno segundo a mitologia grega e romana.
Obedecem a Hades (Pluto) e a Perséfone (Proserpina).

Canto IX
medo me tomou quando vi o semblante do mestre,
que se aproximava, e dizia quase para si:
ajuda nos fora pro O — Precisamos triunfar, se não... Mas não, ora! A
metida! Como demora!
Eu vi muito bem como ele mudou de tom ao tentar encobrir o
que falara, ou a palavra que não havia pronunciado, por isso mais
medo tive ainda, pois a frase que ele deixara incompleta, eu completei
com sentido pior.
— Alguma vez já desceu, a estes círculos profundos do Inferno,
alguém do Limbo? — perguntei-lhe.
— Isto é raro — respondeu-me o mestre —, mas é verdade
que eu mesmo já fiz esta viagem e desci até o círculo mais profundo,
quando uma vez fui convocado. Não se preocupe, pois conheço
bem o caminho.
Virgílio continuou a falar, mas, de repente, minha atenção se
voltou para o céu onde vi três Fúrias infernais. Eram figuras femininas,
ungidas de sangue e com serpentes ferozes no lugar dos cabelos.
O mestre, que já conhecia as escravas de Proserpina, me
apontou:
— Veja! São as Erínias ferozes! Aquela é Megera, à esquerda, e
aquela que chora à direita é Aleto. Tesífone é a do meio.
Elas gritavam alto e com as unhas rasgavam o peito. Eu fui
para junto do poeta, tomado pelo medo.

Inferno 25

Notas 26
9.4 Teseu: foi um grande herói de Atenas, conhecido por várias façanhas, entre
elas, aquela em que matou o Minotauro (12.1) de Creta e escapou do labirinto
com a ajuda de Ariadne, filha de Minós (5.2). Teseu também fez uma viagem ao
inferno (Hades) com Piritous – rei de Lapitas, para ajudá-lo a raptar Proserpina.
Pluto (7.1) matou Piritous e manteve Teseu como prisioneiro, mantendo-o sentado
no trono do esquecimento. Hércules (25.3) desceu ao inferno para salvar
Teseu e arrastou Cérbero para fora do mundo subterrâneo, arrancando toda a
pele em volta de seu pescoço.

Inferno 26

— Vem Medusa, vem! — gritavam — vamos transformá-lo
em pedra! Que pena que deixamos Teseu escapar!
— Fecha os olhos e volta-te! — gritou Virgílio — pois se a
górgona vier e tu olhares para ela, não haverá mais volta ao mundo!
— e com estas palavras ele me virou de costas e, não confiando nas
minhas mãos que já estavam sobre os olhos, colocou as dele sobre
as minhas e lá as manteve.
De repente, ouvi um grande estrondo e uma ventania tomou
conta do ar levantando poeira e fazendo um barulho assustador.
Depois, o Inferno começou a tremer. Ele então tirou as mãos dos
meus olhos e disse:
— Agora vira-te e olha na direção do pântano, onde a bruma é
mais espessa.
Olhei e vi mais de mil almas apavoradas no ar, fugindo, saindo
do caminho de um ser que vinha, caminhando sobre o Estige, sem
molhar os pés. Ele afastava o ar sujo com as mãos, e essa aparentava
ser a única coisa que o incomodava. Eu tinha certeza, agora, que
ele vinha do céu. Voltei-me para o guia mas ele fez um sinal para
que eu permanecesse em silêncio.
O anjo chegou e tocou as portas de Dite com uma pequena
vara, fazendo com que elas abrissem sem esforço.
— Ó almas mesquinhas — ele começou, sobre as portas da
cidade sombria — por que resistis contra aquela vontade que nunca
pode ser negada e que, mais de uma vez, só fez aumentar vosso sofrimento?
Depois de falar, voltou pelo mesmo caminho por onde tinha
chegado. Nós depois prosseguimos, seguros por suas palavras sagradas,
e entramos sem dificuldades pela porta principal.

Notas 27
9.5 Cidade dos hereges: Dite, como cidade dos mortos, contém um cemitério que
abriga vários grupos hereges, entre eles, aqueles que não acreditaram na sua
existência, como os seguidores das doutrinas de Epicuro, que negava a sobrevivência
da alma após a morte corporal.


Inferno 27

Já dentro da cidade, encontramos um cemitério de tumbas
abertas, de onde se ouvia o lamentar de muitas vozes que queimavam
em brasa dentro das covas.
— Mestre — perguntei —, que sombras são estas que aqui jazem
e que só podemos perceber pelos seus lamentos?
— São os hereges e seus seguidores. — respondeu-me Virgílio
— Em cada tumba repousam os réus de uma mesma seita, que são
torturados pelo fogo eterno.
Dobramos, então, à direita, e continuamos a caminhar entre a
muralha da cidade e as sepulturas.

Notas 28
Mapa 1: INFERNO SUPERIOR (vestíbulo e círculos I a V)
Portal do Inferno: “... Abandonai todas as esperanças, vós que entrais!” (Canto III)
Ante-inferno (vestíbulo): Fúteis e indecisos – aqueles que não tomaram partido do
bem ou do mal (são rejeitados pelo céu e inferno). São torturados por vermes e
vespas por toda a eternidade (Canto III).
Rio Aqueronte: Rio que cerca o inferno. A travessia (sem volta) é realizada por
Caronte – o barqueiro (Canto III).
Círculo I (Limbo): Os que não pecaram, mas não foram batizados. Não sofrem
porém não têm esperanças (Canto IV).
Minós: Juiz dos mortos. Monstro que se enrosca no próprio rabo e despacha os
pecadores às suas penas (Canto V).
Círculo II: Luxuriosos. São agitados dentro de turbilhões de vento que nunca
cessam (Canto V).
Círculo III: Gulosos. Jazem submersos na lama onde são dilacerados por Cérbero
(Canto VI) e cortados pela chuva eterna.
Círculo IV: Avarentos e gastadores. Passam a eternidade empurrando pedras
uns contra os outros sem finalidade (Canto VII).
Círculo V e Rio Estige: Dominados pela ira e pelo rancor. Massacram uns aos outros
dentro do rio nojento (Canto VII) ou gorgolam a lama no seu fundo.
Cidade de Dite: a cidade da dor eterna, cercada pelo Estige, protegida por diabos
e fúrias. Flégias: barqueiro do Estige realiza a travessia (Canto VIII).
Inferno 28
Mapa 1: Inferno superior. Ilustração de Helder da Rocha.
Notas 29
Túmulos dos hereges dentro da cidade de Dite. Ilustração de
Gustave Doré (século XIX).

Canto X

Passávamos por um caminho secreto, entre a muralha e as
sepulturas, quando eu perguntei ao mestre:
vê-las? Pergu
— Mestre, estas pessoas aqui enterradas, podemos vê-las? Pergunto isto já que todas as tumbas estão descobertas e ninguém as guarda.
— Elas serão um dia fechadas — respondeu —, quando aqui
retornarem com os corpos que deixaram lá no mundo. Este cemitério
que aqui vês é para Epicuro e seus seguidores, que acreditavam
que a alma morreria junto com o corpo. E quanto à outra questão
que me fizeste, ela será em breve respondida, assim como o desejo
que escondes de mim será atendido.
— Ó meu bom guia — falei — eu não escondo meu coração,
e se pouco falo, é porque tu mesmo me pedisse isto outras vezes.
— Ó toscano que falais com tamanha honestidade. Por vosso
sotaque reconheço que sois de minha cidade natal. Daquela nobre
cidade que tratei, talvez, de forma muito dura.
Isto eu ouvi soar de uma das tumbas. Assustado, fui para mais
perto do mestre, que disse:
— Volta! O que estás fazendo? Vê Farinata que já se ergueu.
Tu o verás em pé, da cintura para cima.
Eu já lhe fixava o olhar, e lá estava ele, imponente, como se nutrisse
grande desprezo pelo Inferno. Virgílio guiou-me até ele, dizendo:
— Vai, e escolhe tuas palavras com cuidado.

Inferno 29

Notas 30
10 Personagens e símbolos do Canto X
10.1 Epicuro (341-270): filósofo grego que ensinou em Samos e Atenas. Sua filosofia
materialista defende que todas as coisas são formadas por átomos cujas
combinações dão ao mundo sua estrutura particular. A moral de Epicuro – diferentemente
da reputação que adquiriu junto à igreja – recomenda gozar os
bens materiais e espirituais com ponderação e medida, de forma que seja possível
perceber o que neles há de melhor. O Epicurismo na opinião da Igreja era
uma heresia, pois considerando todas as coisas materiais, negava a existência da
alma e da vida após a morte. [Larrousse 98]
10.2 Farinata degli Uberti foi um dos mais importantes líderes dos guibelinos em
Florença. Participou da sangrenta batalha de Montaperti (nota 10.6), onde os
guibelinos massacraram os guelfos (partido da família de Dante) e retomaram o
poder em Florença. Levantou-se, depois, contra a maioria dos seus aliados
quando eles propuseram destruir a cidade, pouco após a retomada da cidade. O
discurso de Farinata convenceu os guibelinos que desistiram do projeto. Apesar
de ter pontos de vista diferentes dos de Dante, este o respeita por suas atitudes
apartidárias em favor da população de Florença.
10.3 Guido Cavalcanti era poeta e amigo íntimo de Dante e, como seu pai, era incrédulo,
por isso é esperado por ele entre os hereges.
10.4 Cavalcante di Cavalcanti pai de Guido Cavalcanti, pertencente a influente
família guelfa. Dante menciona que seu filho não apreciava a poesia de seu guia,
Virgílio. Cavalcante entende o verbo no passado como indicação que seu filho
não mais vivia, o que era falso. Cavalcante é incapaz de saber o que ocorre no
presente.


Inferno 30

E quando eu estava diante de sua tumba, ele me olhou um
pouco, meio desdenhoso e perguntou:
— Quem foram os vossos ancestrais?
E eu, que só desejava contentá-lo, nada escondi e contei-lhe a
verdade. Com isto, ele levantou um pouco as sobrancelhas, mas depois
disse:
— Tão duros na oposição foram a mim, aos meus parentes e
ao meu partido, que por duas vezes eu os expulsei.
— Mas duas vezes eles retornaram — repliquei —, coisa que
os vossos partidários nunca conseguiram fazer.
Enquanto conversávamos, fomos repentinamente interrompidos
pelo surgimento de um outro vulto, residente naquela mesma
tumba, que pude ver apenas do queixo para cima. Creio que estivesse
de joelhos. Ele olhou em volta esperando ver alguém. Não encontrando
quem ele procurava, falou chorando:
— Se neste cárcere cego vais por grandeza de engenho, onde
está meu filho? Por que ele não está contigo?
— Eu não estou só — disse-lhe — aquele que ali espera me
guia por estas trevas; aquele por quem, talvez, teu Guido nutria um
certo desprezo.
Pelo seu modo de falar e pela sua pena, não foi difícil descobrir
de quem se tratava, por isso minha resposta foi tão direta. Mas
subitamente ele ficou em pé, e gritou:
— Como? Disseste que ele nutria? Então ele não mais vive?
Então a luz doce não mais brilha nos seus olhos?
E quando percebeu que a resposta demorava demais, ele subitamente
afundou e não apareceu mais. Farinata continuava no
mesmo lugar onde estávamos quando a conversa fora interrompida.

Notas 31
10.5 A profecia de Farinata refere-se ao exílio de Dante que acontecerá em menos
de 50 meses, ou 4 anos (1304).
10.6 A Batalha de Montaperti (monte da morte): Uma das mais sangrentas batalhas
de toda a história ocorreu quando o exército de Siena – cidade governada pelos
guibelinos, enfrentou o exército de Florença – governada pelos guelfos. Do
lado de Siena estava o guibelino florentino Farinata degli Uberti que estava exilado
e pretendia recuperar o poder em Florença. A batalha durou do amanhecer ao
por do sol do dia 4 de setembro de 1260. O exército guelfo era muito mais numeroso
que o dos guibelinos mas estes eram mais agressivos. Um momento decisivo
da luta ocorreu quando o guelfo florentino Bocca degli Abati traiu o seu próprio
exército e junto com seus aliados, que esperavam o momento certo para atacar,
voltaram-se contra os guelfos e deram uma vitória fácil aos guibelinos. Mas os
guibelinos não ficaram satisfeitos. Foram atrás dos guelfos em fuga e os mataram
cruelmente, mesmo aqueles que já haviam se rendido. O resultado foi um saldo
de mais de 10 mil mortos que banhou o rio Arbia de sangue. [HistoryNet]


Inferno 31

Não se incomodou e sequer olhou para ver o que acontecia. Ele
simplesmente continuou de onde tinha parado:
— Se eles não sabem como retornar, isto me dói mais que o
fogo deste leito. Retornar não é fácil. Em menos de 50 luas, vós
mesmo sabereis como é difícil retornar de um exílio. E como eu espero
que vós estareis de volta ao doce mundo, dizei-me, por que
vosso partido é tão duro com os meus, nas leis que cria contra eles?
— Certamente, tudo começou com o massacre que tingiu o
rio Árbia de vermelho. — respondi, e ele balançou a cabeça.
— Nisso não fui só eu — respondeu — mas certamente eu
também não teria ido se não fosse por uma boa causa, mas, quando
eles decidiram, unânimes, pela destruição de Florença, fui somente
eu que me levantei e ousei defendê-la de rosto aberto.
— Que agora encontre a paz, a vossa descendência — respondi-
lhe — mas gostaria que vós me esclarecesses uma coisa. A
mim pareceu, se bem entendi, que todos vós têm a capacidade de
ver o futuro, mas com o presente, o mesmo não ocorre.
— Os espíritos são capazes de prever o futuro, mas não podem
ver o presente. Um dia, quando a porta para o futuro for fechada
para sempre, todo o nosso conhecimento será findo.
— Então — pedi, arrependido — dizei àquele que desceu na
tumba que o filho dele ainda vive. Foi por não compreender que os
espíritos nada sabiam do presente, que eu fiquei em silêncio.
O mestre já me chamava, então, fiz uma última pergunta a Farinata.
Perguntei-lhe se havia outros conhecidos que com ele compartilhavam
aquela tumba.

Notas 32
10.7 Frederico II foi rei da Sicília e Imperador do Sagrado Império Romano (1215-
1250). Foi excomungado duas vezes: primeiro pelo papa Gregório IX, e depois
pelo seu sucessor, o papa Inocêncio IV. Grande incentivador da cultura. A sua
corte na Sicília foi chamada por Dante de berço da poesia Italiana.
10.8 Cardeal Ottaviano degli Ubaldini era conhecido por apreciar os valores
mundanos e ser amigo dos guibelinos (partido que rejeitava a autoridade da
Igreja em favor da monarquia imperial).


Inferno 32

— Com mais de mil jazo neste valo. — respondeu — O imperador
Frederico está comigo, e também o Cardeal Ottaviano. Sobre
os outros, eu me calo.
Depois disso, calou-se e desapareceu. Eu perguntei ao mestre
sobre o que esperar das previsões de Farinata e ele me respondeu:
— Guarda em memória tudo o que aqui ouviste contra ti, mas
espera até chegares a encontrar Beatriz, pois o olhar dela tudo
conhece.
Dobrando agora à esquerda, caminhamos do muro para o
meio, onde começava uma vereda que descia para um fosso profundo,
de um ar mais espesso e malcheiroso.

Notas 33
11 Personagens e símbolos do Canto XI
11.1 O papa Anastácio II (496 d.C.) acolheu em Roma o diácono Fotino e foi
com ele acusado de heresia [Mauro 98]. Fotino era diácono de Tessalônica e foi
culpado de heresia por dizer que o Espírito Santo não procedia do Pai e que o
Pai era maior que o Filho.
11.2 Círculo da violência: Enquanto nos círculos da incontinência são punidos os
pecados da culpa causada pela falta de auto-controle, nos círculos da violência
são punidos os pecados dolosos, ou seja, que foram cometidos de forma consciente
e por vontade do pecador, que teve que agir de alguma forma para escolher
o mal. A violência é uma característica bestial do ser humano. Os seres mitológicos
que habitam este círculo são seres meio humanos e meio animais
como os centauros, o Minotauro e as Hárpias.
11.3 Círculo da fraude (fraude simples): A fraude é uma característica humana, pois
exige o uso do intelecto. O pecador, portanto, não só procurou o mal por vontade
própria como o planejou, premeditou o seu ato na sua mente antes de executá-
lo. Os seres mitológicos que habitam o oitavo círculo mentem, enganam e
trapaceiam. São demônios.


Canto XI
Chegamos à beira de um precipício, onde havia um barranco
derrubado, cujas pedras formavam uma grande rampa
que permitiria nossa descida. Porém, o ar denso e fedorento
que emanava do abismo, nos afastou de sua borda, de forma
que tivemos que nos proteger sob a cobertura de uma tumba onde
estava escrito: “Aqui jaz o papa Anastácio que Fotino desviou do
bom caminho”.
— Nós teremos que atrasar um pouco a nossa descida para
que possamos nos acostumar com este ar poluído — disse Virgílio.
— Devemos então encontrar uma forma de aproveitar esse
tempo utilmente — sugeri.
Ele concordou. Iniciou, então, uma detalhada explicação sobre
a geografia dos três círculos restantes do Inferno.
— Meu filho, depois deste barranco há mais três círculos,
concêntricos, organizados em degraus, como os anteriores. — disse
ele. — Toda a maldade é alcançada ora através da violência ora através
da fraude. Embora ambas sejam odiadas pelo céu, a fraude, por
ser uma perversão exclusiva do homem, desagrada mais a Deus. Os
fraudulentos, portanto, são colocados nas valas mais profundas do
Inferno, onde sofrem muito mais.
O próximo círculo (sétimo) que nós encontraremos é o dos
violentos, que se divide em três giros, classificados de acordo com a
vítima da violência praticada. No primeiro giro estão aqueles que
praticaram violência contra o próximo ou contra os bens do próxi-

Inferno 33

Notas 34
11.4 Círculo da traição (fraude complexa): A traição é o pior dos crimes. É o mal
planejado e executado contra uma pessoa desarmada e indefesa que assim se encontra
por se sentir segura diante do agressor, no qual confia. Este pecado é representado
por Lúcifer, que traiu a Deus. O próprio Lúcifer se encontra no centro
da terra, no nono círculo onde tortura eternamente os traidores humanos.
11.5 A justiça infernal: respeita a filosofia de Aristóteles que afirma, no início do
livro VII da obra Ética a Nicômaco: “deve ser observado que há três aspectos das
coisas que devem ser evitados nos modos: a malícia, a incontinência e a bestialidade.”
A alma incontinente tem culpa, mas a culpa é menos grave que o dolo, a
vontade de pecar. Esta vontade, quando surge de ocasião, como manifestação da
natureza animal é ainda menos grave que aquele pecado que é cometido de
forma arquitetada, premeditada, usando a inteligência própria do ser humano a
serviço do mal. Ainda assim, é menos grave um indivíduo arquitetar e executar
um crime contra um desconhecido, que pode se defender de um estranho que o
ameaça, que ele fazer o mesmo com alguém que confia nele, e por isto está indefeso
e desarmado. A traição, portanto, recebe a justa punição máxima, nas profundezas
mais profundas do inferno. Mark Musa observa que a justiça do inferno
é um sistema dual, que pode ser ilustrada da seguinte forma [Musa 95]:
11.6 Ética a Nicômaco: obra de Aristóteles. Virgílio a chama de “sua Ética” porque
sabe que Dante a conhece bem. A Ética foi comentada por Tomás de
Aquino e tem influência na organização dos círculos do inferno. Veja nota 11.5.
11.7 Física: obra de Aristóteles. No livro II, capítulo 8, escreve “em geral a arte
humana ou completa o que a natureza é incapaz de fazer ou imita a natureza.”
11.8 O Gênese instrui o homem a tirar da natureza e de sua arte (trabalho) a sua sobrevivência:
“em fadiga comerás dela todos os dias da tua vida. Ela produzirá
também espinhos e comerás as ervas do campo. Do suor do teu rosto comerás
o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; pois és pó, e ao pó
tornarás.” (Genesis 3:17-19)
11.9 Cronologia: já é madrugada do sábado de aleluia, segundo Virgílio.
Pecados de incontinência (círculos 2 a 5)
malícia através da violência (círculo 7)
através da fraude (círculos 8 e 9)

Inferno 34

mo. Lá sofrem os assassinos, assaltantes e tiranos em grupos diferentes,
de acordo com a gravidade de seus crimes. No segundo giro
estão aqueles que praticaram a violência contra si próprios ou contra
seus próprios bens. Os suicidas e gastadores que arruinaram suas
próprias vidas (no jogo, por exemplo) se encaixam neste grupo.
No último giro do sétimo círculo estão aqueles que praticaram violência
contra Deus. São os que, orgulhosos, não acreditaram nele ou
que o atacaram com blasfêmias, através da destruição e desprezo
pela sua criação ou pela exploração da criação dos seus filhos através
da usura.
Nos dois últimos círculos estão os que praticaram a fraude.
Eles premeditaram seus atos e têm plena consciência do mal que
causaram. Um homem pode praticar dois tipos de fraude: contra
pessoas que confiam nele ou contra estranhos que podem suspeitar
dele. Este último tipo só destrói o vínculo do homem com a natureza
e é punido no oitavo círculo onde encontraremos hipócritas,
aduladores, ladrões, falsários, simoníacos, sedutores e trapaceiros.
O primeiro tipo de fraude desfaz não só o vínculo do homem com
a natureza, mas também aquele vínculo de confiança estabelecido
com outros homens. É, portanto, no menor dos círculos, no nono
e último, junto com Dite (Lúcifer), onde são punidos os que traíram
aqueles que neles confiaram.
Quando o mestre concluiu seu discurso, perguntei-lhe:
— Por que alguns pecadores cumprem suas penas (mais leves)
fora da cidade de Dite e outros cumprem penas mais pesadas dentro
da cidade? Por que todos não estão aqui?
— Será que tu já esqueceste o que diz a tua Ética — respondeu
—, quando ela explica em detalhes, as três coisas que ao Céu

Notas 35
Vista da cidade de Dite, sexto e sétimo círculos. Ilustração de Helder da
Rocha.


Inferno 35

mais desagradam: incontinência, malícia e bestialidade? A culpa por ter
pecado por causa de incontinência ofende menos a Deus. Se tu
lembrares com cuidado essa doutrina, entenderás por que aqueles lá
de cima foram separados destes maliciosos aqui em baixo.
A explicação foi bastante esclarecedora, mas uma dúvida ainda
me atormentava. Eu não entendia como a usura podia ser um pecado
de ofensa a Deus. Fiz, então, essa pergunta a Virgílio, que me
respondeu:
— Mostra a filosofia, àquele que a compreende, como a Natureza
se manifesta a partir do intelecto divino e da sua Arte. Se recorreres
a tua Física, encontrarás, bem no início, como a vossa Arte
também imita a Natureza. E, como o aprendiz que segue os ensinamentos
do seu mestre, a Arte, sendo filha do homem, torna-se
quase neta de Deus. Se lembras o que diz o Gênese, logo no início:
convém ao homem tirar da Natureza e de sua Arte os meios para a
sua sobrevivência. Mas o usurário, ao seguir outros caminhos, agride
à Natureza e a Arte, que dela deriva, pois em outra coisa (o dinheiro)
põe suas esperanças.
A aurora já se aproximava e o mestre me chamou para continuar
a jornada, pois ainda faltava muito antes que chegássemos à
descida para o rochedo.

Notas 36
12 Personagens e símbolos do Canto XII
12.1 O Minotauro: Monstro mitológico com corpo de homem e cabeça de touro.
Nasceu da recusa do rei Minós (5.2) em sacrificar um touro enviado por Netuno,
o que motivou o deus a fazer com que a esposa de Minós se apaixonasse
pelo touro e com ele tivesse um filho, que foi o Minotauro. Depois do seu nascimento,
o Minotauro foi aprisionado em um labirinto criado por Dédalo. O
labirinto era tão complexo que ninguém jamais conseguira escapar dele e, perdido,
sempre acabava devorado pelo Minotauro. O herói grego Teseu (9.4) entrou
no labirinto com um carretel de linha oferecido por Ariadne, filha de Minós,
conseguiu matar o Minotauro e escapar com vida.

Canto XII
Descemos por uma rampa formada por um enorme deslizamento
de pedras, causado provavelmente por um
terremoto ou pela contínua erosão. O barranco derrubado
esculpia vários caminhos íngremes e irregulares da beira do
precipício até embaixo, permitindo a descida com dificuldade.
Quando descíamos por esse caminho tortuoso, encontramos, na
beira do barranco destruído, o Minotauro de Creta. O touro ficou
tão enfurecido quando nos viu que mordeu suas próprias mãos de
raiva. Mas Virgílio logo o afastou, gritando:
— Pensas talvez que estás vendo o duque de Atenas, que no
mundo te trouxe a morte? Vai embora, besta, que este só vem aqui
para conhecer vossas penas!
Tentando escapar, assustado com aquela voz revestida de autoridade,
o Minotauro começou a bufar e espernear, escoiceando
como se tivesse sido ferido. O mestre, alerta, gritou:
— Vamos andando! Rápido! Vamos aproveitar para escapar
enquanto ele se consome em sua fúria.
Seguimos então pelas pedras, que eu freqüentemente sentia
balançarem sob os meus pés. Eu pensava sobre as ruínas quando o
mestre falou:
— Imagino que pensas sobre estas ruínas, guardadas por
aquela fera semi-humana. Quero que saibas que, quando aqui estive
da última vez, esta avalanche ainda não havia acontecido. Se eu bem
lembro, ela ocorreu pouco antes da descida Daquele que veio ao In-

Inferno 36

Notas 37
12.2 O rio Flegetonte (Phlegethon) é o rio de sangue fervente que tortura os pecadores
que foram violentos contra os seus semelhantes. Na mitologia grega é
um rio de fogo. Dante só revela o nome deste rio de sangue mais adiante.
12.3 Centauros: Monstros mitológicos que tinham o corpo de cavalo da cintura para
baixo e de homem da cintura para cima. Os centauros se destacavam por sua
natureza selvagem e violenta. A única exceção era o centauro Quirón.
12.4 Quirón foi o mais sábio dos centauros. Diferentemente dos outros da sua espécie,
Quirón não agia de forma selvagem e era conhecido por sua sabedoria e
bondade. Educou vários heróis gregos, entre eles Aquiles (5.8) e Jasão (18.4).
12.5 Os violentos contra o próximo: Como o Minotauro e os centauros que dividem
sua natureza animal com a sua natureza humana, os pecadores mergulhados
no rio Flegetonte mantém imersa sua parte animal – bestial e violenta, no
rio de sangue daqueles que oprimiram. Quanto mais grave o crime, maior a parte
imersa. Os assaltantes, dentro do rio, são indistinguíveis dos centauros, pois
têm apenas o peito de fora. São punidos por terem praticado violência contra
os bens de suas vítimas. Os homicidas só mantém fora a cabeça. Tiraram a vida
de suas vítimas. Os tiranos só mantém acima da superfície suas sobrancelhas.
Eles atentaram contra a vida e contra os bens de suas vítimas.

Inferno 37

ferno para levar os justos para o céu. Na ocasião, todo este abismo
tremeu. Não só aqui houve destruição, mas também em outras partes.
Mas olha lá para baixo que em breve avistarás o rio de sangue
fervendo as almas dos violentos contra seus semelhantes.
De lá do alto vi uma larga fossa, curva como um arco, assim
como o mestre me descrevera, que se estendia por todo o plano
abaixo. Na base do penhasco apareceu uma ala de centauros, armados
com flechas. Quando nos viram, três deles se afastaram do grupo
e vieram na nossa direção, armados, com as flechas esticadas,
prontas para atirar. Um deles então gritou:
— Vocês aí! O que querem? Que tortura procuram? Falem
logo ou eu atiro!
— Nossa resposta daremos somente a Quirón, teu chefe! —
gritou o mestre de volta. — Só com ele falaremos pois tu estás demasiado
nervoso. — Depois ele voltou-se para mim e disse —
Aquele ali é Nesso, que morreu pela bela Dejanira, e fez do seu
sangue sua própria vingança. O do meio, que contempla seu peito,
é o grande Quirón, que educou Aquiles; o último é Fólo, aquele que
nos ameaçou cheio de ira.
Quando estávamos diante dos centauros, ouvimos Quirón falar
aos outros dois:
— Vocês perceberam que aquele que está atrás move tudo o
que toca? Isto não é o que fazem normalmente os pés de um morto!
O mestre, que já estava diante do centauro e ouvira o final da
conversa logo lhe esclareceu:
— Ele está, de fato, vivo, e eu fui designado para guiá-lo por este
caminho. Ele faz esta viagem por necessidade e não por prazer. Ele
não é ladrão nem eu alma criminosa. — e pediu — Dá-me para nos

Notas 38
12.6 Nesso: Centauro que, ao morrer ferido por Hércules (25.3), disse à sua esposa
Dejanira que seu sangue era um poderoso afrodisíaco. Dejanira então banhou
uma túnica no sangue de Nesso e a deu para Hércules vestir. O sangue revelouse
um veneno e levou Hércules a morte.
12.7 Alexandre é provavelmente o tirano de Pherae (368-359 a.C), contemporâneo
de Dionísio, cuja crueldade extrema fora relatada nas obras de Cícero.
12.8 Dionísio (430-360 a.C.): foi tirano de Siracusa, Sicilia. Venceu várias guerras
contra Cartago e tornou Siracusa a cidade mais poderosa da Itália grega. Dionísio
era conhecido por patrocinar o teatro. Era também ator e freqüentemente
atuava nos festivais dramáticos de Atenas. [Encarta 97]
12.9 Azzolino: foi tirano da cidade de Pádua.
12.10 Obizzo d'Este: foi tirano da cidade de Ferrara.
12.11 Guy de Montfort: Em 1272, durante a missa numa igreja de Viterbo, Guy de
Montfort apunhalou e matou o príncipe Henrique, filho de Ricardo da Cornualha,
como forma de vingar a morte de seu pai, vítima do rei Eduardo I. De acordo
com Giovanni Villani, o coração de Henrique foi colocado numa taça de
ouro sobre uma coluna central da torre de Londres, onde até hoje o sangue
pinga sobre o Tâmisa. [Musa 95]
12.12 Átila, o Huno (406-453): chamado de flagelo de Deus, era rei dos Hunos. Invadiu
a Europa deixando um rastro de destruição e morte. Devastou o norte da Itália
mas morreu antes que pudesse invadir Roma.
12.13 Pirro: Segundo alguns comentaristas é o rei de Epiro, que venceu os romanos
três vezes entre 280 e 276 a.C.[Musa 95] Para outros é o filho de Aquiles. [Mauro
98]
12.14 Sexto: o filho mais novo de Pompeu, segundo a maioria dos comentaristas.
Outros acreditam que seja Sexto Tarquinio Superbo que estuprou e causou a
morte de Lucrécia, a esposa de seu primo. [Musa 95]
12.15 Rinier da Corneto e Rinier Pazzo: foram famosos salteadores nas estradas da
Toscana. [Mauro 98]

Inferno 38
guiar um do teu povo, para que nos leve à passagem onde o rio fica
raso e possa levar este nas costas, pois ele não é espírito que voa.
Quirón, então, voltou-se para Nesso e ordenou-lhe que nos
mostrasse o caminho. Partimos com a fiel escolta, margeando o rio
de sangue, onde almas ferviam e gritavam de dor. Lá eu vi almas
submersas até os olhos.
— Esses que tu vês mergulhados até os olhos — explicou o
centauro —, são os tiranos que tiraram o sangue e os bens de suas
vítimas. Aqui choram por seus feitos desumanos Alexandre e Dionísio,
que fez a Sicília sofrer durante anos. Aquele de cabelos negros
é Azzolino e o outro, louro, é Obizzo d'Este.
Pouco adiante, parou outra vez o centauro, e mostrou-nos alguns
que ficavam submersos no sangue até a garganta.
— Eis aquele que assassinou, durante a missa, aquele outro
cujo coração ainda sangra sobre o Tâmisa — indicou Nesso.
Mais adiante, eu mesmo pude reconhecer alguns dos réus cujo
peito já emergia. À medida em que caminhávamos o nível do sangue
ia baixando até que enfim só ardia a sola dos pés. Lá finalmente encontramos
um trecho raso por onde podíamos atravessar.
— Assim como vês o rio fervente aqui, deste lado, ficando
cada vez mais raso — disse o centauro —, do outro lado ele se torna
cada vez mais fundo, até chegar ao ponto de maior profundidade
que é onde sofrem os tiranos. É lá que a divina justiça atinge Átila,
que foi um flagelo na terra, e Pirro e Sexto; e para sempre espreme as
lágrimas que o sangue escaldante produz de Rinier da Cornetto e
Rinier Pazzo, que transformaram as estradas em campo de guerra.
Chegando a outra margem, descemos da garupa de Nesso. Ele
então, atravessou o rio novamente e se foi.

Notas 39
13
Centauros aguardam Dante e Virgílio diante do rio de sangue fervente
onde sofrem os culpados de violência contra o próximo (assaltantes,
assassinos e tiranos). Ilustração de Gustave Doré (século XIX).

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A Divina Comédia | Inferno - Cantos I ao VI

 Índice do Inferno
Na seção central deste livro, a numeração das páginas do
lado direito e do lado esquerdo é a mesma. Todo o texto
flui nas páginas à direita. Nas páginas à esquerda estão
localizadas, para fácil consulta, notas explicativas sobre personagens,
localidades e símbolos que aparecem no texto à direita.

Inferno
Canto I
A selva escura – As feras – Espírito de Virgílio ........................................2
Canto II
Razão da viagem – Beatriz ........................................................................5
Canto III
A porta do Inferno – Vestíbulo – Rio Aqueronte – Caronte .....................7
Canto IV
Limbo (Círculo 1) – Castelo dos iluminados ..............................................10
Canto V
Minós – Círculo da luxúria (2) – Espíritos de Paolo e Francesca ..............13
Canto VI
Cérbero – Círculo da gula (3) – Espírito de Ciacco ....................................16
Canto VII
Pluto – Círculo da avareza (4) – Círculo da ira (5) – Rio Estige ..............19
Canto VIII
Flégias – Demônios – A cidade de Dite – Erínias e Medusa .....................22
Canto IX
Círculo da heresia (6) – Túmulos ...............................................................25
13
14
Canto X
Espírito de Farinata – Espírito de Cavalcanti ........................................... 29
Canto XI
Túmulo do papa Anastácio – Explicação sobre a justiça infernal ............... 33
Canto XII
Minotauro – Centauros – Círculo da violência (7) – Rio de sangue ............ 36
Canto XIII
Hárpias – Selva dos suicidas ..................................................................... 39
Canto XIV
Deserto incandescente – Chuva de brasas – Riacho Flegetonte .................... 42
Canto XV
Espírito de Brunetto Latini ....................................................................... 45
Canto XVI
Espíritos de políticos florentinos .................................................................. 47
Canto XVII
Gerión – Espíritos de famílias da alta nobreza .......................................... 51
Canto XVIII
Malebolge – Círculo da fraude (8) – Valas dos sedutores e aduladores ....... 54
Canto XIX
Vala dos simoníacos – Espírito do papa Nicolau III ................................. 57
Canto XX
Vala dos adivinhos .................................................................................... 59
Canto XXI
Vala dos corruptos – Malebranche (demônios) ........................................... 61
Canto XXII
Escolta de 10 demônios .............................................................................. 64
Canto XXIII
Vala dos hipócritas – Frades gaudentes ..................................................... 67
Canto XXIV
Vala dos ladrões – Espírito de Vanni Fucci ............................................. 70
15
Canto XXV
Transformação em répteis ...........................................................................73
Canto XXVI
Vala dos maus conselheiros – Espírito de Ulisses .......................................76
Canto XXVII
Espírito do frade Guido de Montefeltro .......................................................78
Canto XXVIII
Vala dos separatistas – Espíritos de Maomé e Bertran de Born .................81
Canto XXIX
Vala dos falsários – Alquimistas ...............................................................85
Canto XXX
Falsificadores – Perjuros – Espírito de mestre Adamo ................................88
Canto XXXI
Gigantes – Nemrod – Efialte – Anteu ......................................................92
Canto XXXII
Lago Cócito – Caína – Antenora – Espírito de Bocca ...............................95
Canto XXXIII
Espírito do Conde Ugolino – Ptoloméia – Espírito do Frei Alberigo ..........98
Canto XXXIV
Judeca – Lúcifer – Bruto – Cássio – Judas – Centro da Terra ............... 102
16
Índice por pecado
s cantos a seguir estão organizados de acordo com os pecados
(grifados) e o círculo do inferno onde são punidos
(entre parênteses). O inferno de Dante divide-se
em dez regiões (nove círculos internos e uma área externa). Os círculos
mais profundos dividem-se ainda mais: o sétimo divide-se em
três, o oitavo em dez e o nono em quatro. Ao todo, são 24 regiões.
O
Ausência de opção pelo bem ou pelo mal Inferno
Indecisão, covardia: Canto III (Vestíbulo) ..............................................7
Ausência de pecado (desconhecimento da Verdade)
(1) Ausência de batismo: Canto IV (Limbo) ............................................10
Incontinência (pecados do leopardo)
(2) Luxúria: Canto V ..............................................................................13
(3) Gula: Canto VI .................................................................................16
(4) Avareza e gastança ostensiva: Canto VII ............................................19
(5) Ira e rancor: Canto VII a Canto VIII ..............................................19
Heresia (negação da Verdade)
(6) Heresia: Canto IX a Canto X ..........................................................25
Violência (pecados do leão)
(7.1) Tirania, assalto, assassinato (violência contra outros): Canto XII......36
(7.2) Suicídio, gastança auto-destrutiva (violência contra si): Canto XIII ..39
(7.3) Blasfêmia (violência contra Deus): Canto XIV..................................42
(7.3) Sodomia (violência contra a natureza): Canto XV e XVI ................45
(7.3) Usura (violência contra a arte): Canto XVII ....................................51
17
18
Fraude simples (pecados da loba)
(8.1) Sedução e exploração sexual: Canto XVIII ..................................... 54
(8.2) Adulação e lisonja: Canto XVIII ................................................... 54
(8.3) Simonia: Canto XIX ...................................................................... 57
(8.4) Magia e adivinhação: Canto XX ..................................................... 59
(8.5) Corrupção (barataria): Cantos XXI e XXII ................................. 61
(8.6) Hipocrisia: Canto XXIII ............................................................... 67
(8.7) Roubo e furto: Cantos XXIV e XXV ............................................ 70
(8.8) Maus conselhos: Cantos XXVI e XXVII ...................................... 76
(8.9) Cisma e intriga: Canto XXVIII ..................................................... 81
(8.10) Falsificação: Cantos XXIX e XXX ............................................ 85
Fraude complexa (traição)
(9.1) Traição contra parentes (Caína): Canto XXXII ............................. 95
(9.2) Traição contra a pátria (Antenora): Cantos XXXII e XXXIII .... 95
(9.3) Traição contra hóspedes (Ptoloméia): Canto XXXIII ...................... 98
(9.4) Traição contra benfeitores (Judeca): Canto XXXIV ......................102



Canto I
Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa
vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida
não mais seguia o caminho certo. Ah, como é difícil descrevê-
la! Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, que a sua
simples lembrança me traz de volta o medo. Creio que nem mesmo
a morte poderia ser tão terrível. Mas, para que eu possa falar do
bem que dali resultou, terei antes que falar de outras coisas, que do
bem, passam longe.
Eu não sei como fui parar naquele lugar sombrio. Sonolento
como eu estava, devo ter cochilado e por isso me afastei da via verdadeira.
Mas, ao chegar ao pé de um monte onde começava a selva
que se estendia vale abaixo, olhei para cima e vi aquela ladeira coberta
com os primeiros raios do Sol. A cena trouxe luz à minha
vida, afastou de vez o medo e me deu novas esperanças. Decidi então
subir aquele monte. Olhei para trás uma última vez, para aquela
selva que nunca deixara uma alma viva escapar, descansei um pouco,
e depois, iniciei a escalada.
Eu havia dado poucos passos, quando, de repente, saltou à
minha frente um ágil e alegre leopardo. Astuto, de pêlos manchados,
de todas as formas ele impedia que eu seguisse adiante. Não
adiantava desviar ou buscar um outro caminho pois no final, ele
sempre estava lá, bloqueando a minha passagem. Várias vezes tentei
vencê-lo. Várias vezes falhei.
Inferno 2

Notas 3
1 Personagens e símbolos do Canto I
1.1 O narrador é Dante – protagonista da história e autor do poema. O poema é
uma narrativa alegórica, ou seja, o autor descreve situações que não devem ser
interpretadas apenas pelo seu sentido literal. Portanto, o personagem Dante, o
peregrino, pode também ter representação simbólica. A história pode ser uma
espécie de sonho (ele fala que foi o sono, um cochilo que o levou à selva). Estudiosos
da obra de Dante dizem que o Dante da história simboliza qualquer
ser humano que, como ele, se encontra perdido naquela selva escura (que alegoricamente
representaria o pecado – veja nota 1.3).
1.2 Cronologia da viagem: Dante diz que está “no meio do caminho da nossa vida”.
Isto pode ter vários significados mas também pode indicar que ele está
com 35 anos (de acordo com os 70 anos reservados ao homem, segundo as filosofias
da época). O ano, portanto, é 1300, pois Dante nasceu em 1265. Esta
data também é confirmada em outras ocasiões, como no Canto XXI, onde também
se confirma que a viagem ocorre na semana santa. Em várias ocasiões, no
poema original, o autor descreve a posição das constelações e astros como forma
de nos informar a hora e a data. Através dessas observações, podemos deduzir
que o Canto I começa na noite da quinta-feira santa (quando se acreditava
que as posições dos astros seriam as mesmas de quando o mundo foi criado) e
termina no início da noite da sexta-feira.
1.3 A Selva Escura é, segundo a tradutora Dorothy Sayers, uma representação
simbólica da perdição no pecado, “onde a confusão é tão grande que a alma
não se acha capaz de reencontrar o caminho certo”. Uma vez perdido na selva
escura, um homem só poderá escapar se, através do uso da razão do intelecto,
descer de forma que veja o seu pecado não como um obstáculo externo (as feras),
mas como vontade de caos e morte dentro de si (inferno). [Sayers 49]




Inferno 3
O dia já raiava e o Sol nascia com aquelas mesmas estrelas que
acompanharam o mundo no seu primeiro dia. A luz e a claridade
daquele dia especial renovaram minhas esperanças, e me fizeram
acreditar que iria conseguir vencer aquela fera malhada.
Mas a minha esperança durou pouco e o medo retornou
quando vi surgir, diante de mim, um leão. Ele parecia avançar na
minha direção, com a cabeça erguida, tão faminto e raivoso que até
o próprio ar parecia temê-lo. E depois veio uma loba, magra e cobiçosa,
cuja visão tornou minha alma tão pesada, pelo medo que me
possuiu, que não vi mais esperança alguma na escalada. A loba
avançava, lentamente, e me fazia descer, me empurrando de volta
para aquele lugar onde a luz do Sol não entra.
Quando eu já me encontrava na beira daquele vale escuro,
meus olhos aos poucos perceberam um vulto que se aproximava,
que apagado estivera, talvez por excessivo silêncio.
— Tenhas piedade de mim — gritei ao vê-lo — quem quer
que sejas, sombra ou homem vivo!
— Homem não mais — respondeu o vulto —, homem eu fui
um dia. Nasci em Mântua, nos tempos de Júlio César e vivi em
Roma no império de Augusto. Fui poeta e narrei a odisséia de
Enéas, que fugiu de Tróia depois do incêndio. E tu, por que não
sobes o precioso monte, princípio e causa de toda glória?
— Tu és Virgílio? — perguntei, vergonhoso — Ora, tu és
meu mestre e meu autor predileto! Foi contigo que aprendi o belo
estilo poético que me deu louvor. Eu não subi o monte por causa
dessa fera. Ela me faz tremer os pulsos. Ajuda-me, sábio famoso!
Ajuda-me a enfrentá-la!

Notas 4
1.4 As três feras, na opinião de vários estudiosos, têm sentido figurado e representam
três tipos de pecados (que são discutidos no Canto XI) e também três subdivisões
do inferno. É uma representação alegórica dos pecados segundo a filosofia
de Tomás de Aquino, que influenciou Dante. A incontinência (leopardo), a
violência (leão) e a fraude (loba) refletem níveis de gravidade crescentes de acordo
com os conhecimentos da pessoa (quanto mais se sabe, mais grave é o pecado).
Segundo a tradutora e comentarista Dorothy Sayers, refletem três estágios da
vida humana (juventude, meia-idade e velhice). Os pecados cometidos na velhice
seriam mais graves pois a alma que os comete é mais experiente e já sabe diferenciar
o certo do errado. [Sayers 49]
1.5 Virgílio (70 a 19 a.C.) foi grande poeta da antiguidade e autor de várias obras
entre as quais as Geórgicas e a Eneida. Esta última conta a história da fundação de
Roma pelo troiano Enéas (veja nota 4.11). Dante conhecia as obras de Virgílio e
louva-o por ter influenciado seu estilo poético. De acordo com vários dantólogos,
Virgílio também tem um sentido alegórico: simboliza o intelecto, a razão do peregrino
Dante (veja nota 1.1). É a razão “que apagada estivera, talvez por excessivo
silêncio” que pode guiá-lo para fora da selva escura.
1.6 O monte, na interpretação de Sayers, “representa no nível místico a ascensão
da alma a Deus. No nível moral, é a imagem do arrependimento. Pode ser escalado
diretamente pela estrada certa, mas não pela selva selvagem porque ali os
pecados da alma são expostos e aparecem como demônios (as feras) com um
poder e vontade próprios, impedindo qualquer progresso.” [Sayers 49] O monte
pode ser uma representação alegórica da montanha do purgatório (veja nota
34.8) que não pode ser escalada pela selva escura.
1.7 O Lebreiro (L'veltro): Um lebreiro (ou lebréu) é um cão usado para caçar lebres.
O Lebreiro mencionado por Virgílio representa algum tipo de redentor ou
salvador, mas não é claro se deve ser interpretado como uma pessoa. Já foi objeto
de diversas interpretações por vários comentaristas. Para alguns, representa,
no sentido figurado, algum líder que resgataria a Itália da situação política em
que se encontra. Para outros, representa o estabelecimento de um reino espiritual
na terra (a vinda de Cristo que no juízo final levaria a Loba de volta ao inferno).




Inferno 4
— A ti convém seguir outra viagem — respondeu o poeta, ao
me ver lacrimejando — pois essa fera, essa loba, é a mais feroz e insaciável
de todas. Ela só partirá quando finalmente vier o Lebreiro
que para ela será a dura morte. Ele não se alimentará nem de dinheiro,
nem de terras; só a sua sabedoria, amor e virtude poderão
nutri-lo. Ele virá para salvar a tua Itália caída. Ele irá caçar essa fera
em todas as cidades até encontrá-la, quando então a matará e a
conduzirá de volta ao Inferno, de onde a Inveja, primeiro a trouxe
para este mundo.
Depois, me fez uma proposta:
— Eu acho melhor, para teu bem, que me sigas. Eu serei o teu
guia. Te levarei para um lugar eterno onde verás condenados gritando,
em vão, por uma segunda chance. Depois verás outros que
sofrem contentes no fogo, pois têm esperança de um dia seguir ao
encontro daquela gente abençoada. E depois, se quiseres subir ao
céu, lá terás alma mais digna do que eu, pois o Imperador daquele
reino me nega a entrada, porque à sua lei eu fui rebelde.
— Poeta — respondi —, eu te imploro, em nome desse Deus
que não conheceste, que me ajudes a fugir deste mal ou de outro
pior. Eu te seguirei a esses lugares que descreveste. Que eu possa
ver a porta de São Pedro e os tristes sofredores dos quais falaste!
Ele então moveu-se, e eu o acompanhei.
Notas 5
2 Personagens e símbolos do Canto II
2.1 Santa Luzia é padroeira dos que sofrem da vista [Sayers 49]. Dante era devoto
de Santa Luzia [Mauro 98] que o teria curado de um problema de vista no passado.
Na minha interpretação, Dante estava cego (não sabia mais onde era o
caminho certo), longe da luz (na selva escura), portanto Santa Luzia, que atende
aos que sofrem da vista, seria a indicada para ajudá-lo.
2.2 Beatriz é uma pessoa muito importante para Dante. Fonte de inspiração em
quase todas as suas obras, é retratada como símbolo de pureza e perfeição. A
Beatriz de suas obras provavelmente foi inspirada na Beatriz da vida real que
Dante conheceu quando tinha 9 anos (veja texto sobre a vida de Dante, na introdução).
Na Divina Comédia, Beatriz é símbolo do amor divino ou da religiosidade
(na opinião dos estudiosos de Dante). É ela que chama Virgílio (a razão)
para guiá-lo para fora da selva.
2.3 Limbo: veja nota 4.1.
2.4 A viagem pelos lugares eternos proposta por Virgílio consiste em atravessar
a terra, passando pelo inferno até chegar à montanha do purgatório do outro
lado. Virgílio só pode conduzir Dante até o purgatório, mas não pode entrar no
paraíso (a razão leva à fé, mas não se pode compreender o divino com a razão).
Lá terá “alma mais digna” que é Beatriz.




Canto II
Já anoitecia quando iniciamos a jornada. Ó Musas, ó grande gênio,
me ajudem para que eu possa relatar aqui sem erro esta viagem
que está escrita para sempre em minha mente! E então
comecei:
— Ó poeta que me guias, julga minha virtude e dize se é compatível
com o caminho árduo que me confias. Não sou ninguém diante
de Paulo ou Enéas. Não consigo crer que eu seja digno de tal,
nem acho que outro pensaria da mesma forma.
— Se eu de fato compreendi o que acabas de dizer — respondeu
o poeta —, tua alma está tomada pela covardia, que tantas vezes
pesa sobre os homens, os afastando de nobres empreendimentos,
como uma besta assustada pela própria sombra. Para te libertar
desse medo, deixa que eu te explique como cheguei até ti:
“Eu estava com os outros espíritos suspensos no Limbo
quando apareceu-me uma mulher beata e bela.
— Ó generosa alma mantuana, — disse ela —, ajude-me a socorrer
um amigo que está perdido na selva escura. Vai com tua fala
ornada e ajuda-o para que eu seja consolada. Eu sou Beatriz, que
pede que tu vás. Venho do céu e para o céu voltarei. Foi o amor
que me trouxe e é ele quem me faz falar.
— Ó mulher de virtude, tanto me agrada obedecer-te que basta
dizeres o que desejas que eu faça que eu o farei. Mas dize-me,
não tens medo de descer até este centro escuro?
Inferno 5

Notas 6
Dante e Virgílio diante do portal do Inferno. Ilustração de William
Blake (século XVIII).


Inferno 6
— Deve-se temer as coisas que de fato têm o poder de nos
causar mal — respondeu —, e mais nada, pois nada mais existe
para temer. A mulher gentil, que se compadeceu do que acontece
com aquele a quem te envio, pediu a Luzia, dizendo: ‘aquele teu
adepto fiel precisa de tua ajuda e a ti o recomendo.’ Luzia, inimiga
de toda crueldade, veio então a procurar-me, onde eu sentava com
a antiga Raquel. ‘Beatriz’, disse, ‘não vais salvar quem mais te amou
e que por ti se elevou do povo vulgar?’ Logo que ouvi tais palavras
desci aqui, do meu beato posto, por confiar na tua palavra honesta.
E assim ela me deixou, e eu cheguei para afastar aquela fera
que impedia que tu escalasses o belo monte.”
— Então o que é que há? Por que tu és tão covarde? Por que
não és bravo e corajoso, quando tens três mulheres abençoadas que
te guardam lá do céu?
Depois que ele terminou de falar, eu não era mais o mesmo.
Recuperei a coragem, perdi o medo e afastei todas as minhas dúvidas.
Imediatamente voltei a confiar na jornada que me fora proposta
e disse-lhe:
— Ó piedosa aquela que me socorreu, e tu que tão cortês
atendeste ao seu pedido. Com tuas palavras tornei-me outra vez
disposto. Vamos, que agora ambos queremos a mesma coisa. Tu serás
meu guia, e eu te seguirei.
E assim, seguimos por um caminho árduo e silvestre.

Notas 7
Dante e Virgílio diante da entrada do Inferno. Ilustração de Helder da Rocha.

Inferno 7

Canto III
POR MIM SE VAI À CIDADE DOLENTE,
POR MIM SE VAI À ETERNA DOR,
POR MIM SE VAI À PERDIDA GENTE.
JUSTIÇA MOVEU O MEU ALTO CRIADOR,
QUE ME FEZ COM O DIVINO PODER,
O SABER SUPREMO E O PRIMEIRO AMOR.
ANTES DE MIM COISA ALGUMA FOI CRIADA
EXCETO COISAS ETERNAS, E ETERNA EU DURO.
DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!
Estas palavras estavam escritas em tom escuro, no alto de um
portal. Eu, assustado, confidenciei ao meu guia:
— Mestre, estas palavras são muito duras.
— Não tenhas medo — respondeu Virgílio, experiente —
mas não sejas fraco! Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei,
onde encontraríamos as almas sofredoras que já perderam seu
livre poder de arbítrio. Não temas, pois tu não és uma delas, tu
ainda vives.
Em seguida, Virgílio segurou minha mão, sorriu para me dar
confiança, e me guiou na direção daquele sinistro portal.
Logo que entrei ouvi gritos terríveis, suspiros e prantos que
ecoavam pela escuridão sem estrelas. Os lamentos eram tão intensos
que não me contive e chorei. Gritos de mágoa, brigas, queixas
iradas em diversas línguas formavam um tumulto que tinha o som
de uma ventania. Eu, com a cabeça já tomada de horror, perguntei:

Notas 8
3 Personagens e símbolos do Canto III
3.1 O Portal do Inferno: não tem portas ou cadeados mas somente um aviso sobre
a entrada que adverte: uma vez dentro, deve-se abandonar toda a esperança
de rever o céu pois de lá não se pode voltar. As almas entram porque querem.
“No poema, o inferno está repleto das almas daqueles que morreram com a determinação
de entrar naquele portal; na alegoria, essas almas são a imagem do
pecado na pessoa ou na sociedade.” [Sayers 49]. A alma só tem poder de escolha
enquanto viva, portanto, viva se decide pelo céu ou pelo inferno. Depois de
morta, perde a capacidade de raciocinar e tomar decisões. Dante não deve temer,
diz Virgílio, porque ele ainda está vivo e ainda tem poder de arbítrio. O
personagem Dante cruza o portal do inferno na noite de sexta-feira da paixão
(veja notas 1.1 e 1.2) pois no início do Canto II, quando Dante escapa das feras, já
anoitece.
3.2 O ante-inferno é chamado também de vestíbulo. Serve como destino para as
almas que não podem ir para o céu nem para o inferno. “Sendo o céu e inferno
estados onde uma escolha é permanentemente recompensada (de forma positiva
ou negativa), deve também existir um estado onde a negação da escolha seja
recompensada, uma vez que recusar a escolha é escolher a indecisão.” [Sayers
49] O ante-inferno é, portanto, a morada dos indecisos, covardes e que passaram
a vida “em cima do muro”. Em vida nunca quiseram assumir compromissos,
tomar decisões firmes ou fazer qualquer coisa definitiva, por achar que assim
perderiam a oportunidade de fazer alguma outra coisa. A sua neutralidade e
falta de ação é retribuída na forma de um contrapasso (veja nota 3.3 abaixo) e agora
são obrigados a correr atrás de uma bandeira que não vai a lugar algum.
3.3 O contrapasso é a retribuição do inferno pelos atos do pecador. Reflete, de
forma simbólica, os efeitos do pecado cometido aplicados como punição. Se
baseia em uma justiça do tipo “olho-por-olho, dente-por-dente”.
3.4 O Rio Aqueronte (Acheron) é o primeiro dos rios do inferno. Como os outros
rios do mundo subterrâneo, este também não foi inventado por Dante. É
citado nas obras clássicas de mitologia como a Eneida de Virgílio e a Odisséia de
Homero.


Inferno 8

— Mestre, quem são essas pessoas que sofrem tanto?
— Este é o destino daquelas almas que não procuraram fazer
o bem divino, mas também não buscaram fazer o mal. — me respondeu
o mestre. — Se misturam com aquele coro de anjos que
não foram nem fiéis nem infiéis ao seu Deus. Tanto o céu quanto o
Inferno os rejeita.
— Mestre — continuei —, a que pena tão terrível estão esses
coitados submetidos para que lamentem tanto?
— Te direi em poucas palavras. Estes espíritos não têm esperança
de morte nem de salvação. O mundo não se lembrará deles; a
misericórdia e a justiça os ignoram. Deixe-os. Só olha, e passa.
E então olhei e vi que as almas formavam uma grande multidão,
correndo atrás de uma bandeira que nunca parava. Estavam
todas nuas, expostas a picadas de enxames de vespas que as feriam
em todo o corpo. O sangue escorria, junto com as lágrimas até os
pés, onde vermes doentes ainda os roíam.
Quando olhei além dessa turba, vi uma outra grande multidão
que esperava às margens de um grande rio.
— Quem são aqueles? — perguntei ao mestre.
— Tu saberás no seu devido tempo, quando tivermos chegado
à orla triste do Aqueronte. — respondeu, secamente.
Temendo ter feito perguntas demais, fiquei calado até chegarmos
às margens daquele rio de águas pantanosas e cinzentas.
Chegava um barco dirigido por um velho pálido, branco e de
pêlos antigos. Ele gritava:
— Almas ruins, vim vos buscar para o castigo eterno! Abandonai
toda a esperança de ver o céu outra vez, pois vou levar-vos às
trevas eternas, ao fogo e ao gelo!

Notas 9
3.5 Caronte (Charon) é o clássico barqueiro dos mortos na mitologia grega. Como
a maior parte das figuras mitológicas que aparecem no inferno, Caronte foi tirado
das mitologias clássicas. Os monstros do inferno “não são diabos ou almas
perdidas, mas as imagens de apetites pervertidos, e vivem nos círculos apropriados
à sua natureza.” [Sayers 49]. Nas obras da mitologia clássica, Caronte estava
encarregado de realizar a travessia de outro rio (o Estige – veja nota 7.7) e só
transportava almas que tivessem sido enterradas com uma moeda debaixo da
língua com a qual poderiam pagar a travessia.
3.6 O outro porto é o porto onde um anjo leva as almas que têm esperança para o
purgatório. Caronte reconhece que Dante não é uma das almas condenadas e
então diz a ele que o caminho dele é outro.
Porta do Inferno. Escultura de Auguste Rodin.


Inferno 9

Quando ele me viu, gritou:
— E tu, alma vivente, te afasta desse meio pois aqui só vem
morto! — Vendo que eu não me mexia, mais calmo, falou — Tu
deves seguir para outro porto, onde um outro barco, maior, te dará
transporte.
— Caronte, te irritas em vão! — intercedeu o mestre — Lá,
onde se pode o que se quer, isto se quer, e não peças mais nada!
Caronte então se calou, mas pude ver que seus olhos vermelhos
ainda ardiam de raiva. As almas, chorando amargamente, se
amontoavam na orla e Caronte as embarcava, uma a uma, batendo
nelas com o remo quando alguma hesitava. Depois seguiam, quebrando
as ondas sujas do rio Aqueronte, e antes de chegarem à outra
margem, uma nova multidão já se formava deste lado.
Enquanto Virgílio me falava sobre as almas que atravessavam
o rio, houve um grande terremoto, seguido por uma ventania que
inundou o céu com um clarão avermelhado. O susto foi tão intenso
que eu desmaiei e caí num sono profundo.

Notas 10
4 Personagens e símbolos do Canto IV
4.1 O Limbo é o local onde as almas que não puderam escolher Cristo, mas escolheram
a virtude, vivem a vida que imaginaram ter após a morte. Não têm a esperança
de ir ao céu pois não tiveram fé em Cristo. Aqui ficam os não batizados
e aqueles que nasceram antes de Cristo, como Virgílio. Na mitologia clássica, o
Limbo não fica no inferno, mas suspenso entre o céu e o mundo dos mortos.
Na poesia de Dante não se tem uma noção precisa de como se chega lá, pois o
poeta desmaia no ante-inferno e quando acorda já está no Limbo.
4.2 Personagens do Velho Testamento: Adão, Noé, Moisés, Abraão, David, Israel
e Raquel foram, segundo Dante, levados para o céu quando Cristo desceu ao
inferno após a crucificação.
4.3 Homero (século IX ou VI a.C.) foi um poeta grego a quem tradicionalmente se
atribui a autoria dos poemas épicos Ilíada, que narra a queda de Tróia, e Odisséia,
que narra o retorno de Ulisses da guerra de Tróia e suas viagens.
4.4 Horácio (65 a.C-8 d.C.) foi um poeta romano lírico e satírico, autor de várias
obras primas da língua latina, entre as quais Ars Poetica.
4.5 Ovídio (43 a.C-17 d.C.) foi o mais popular dos poetas romanos. Autor de várias
obras, entre as quais obras de mitologia como Metamorfoses.
4.6 Lucano (39-65) foi um poeta romano nascido em Córdoba forçado a cometer
suicídio por Nero. Autor de Farsália.
4.7 Heitor foi príncipe de Tróia, Heitor foi o mais valente dos guerreiros troianos
na Ilíada de Homero. Foi morto cruelmente por Aquiles (nota 5.8) que o matou
para vingar a morte de seu melhor amigo, morto na guerra pelo troiano.
4.8 Heráclito (540-475 a.C.): Filósofo grego que acreditava que o fogo era fonte de
toda matéria e que o mundo estava em constante mudança. Foi fundador da
metafísica.
4.9 Tales de Mileto (625-546 a.C.) é o pai da filosofia ocidental, do pensamento
científico e considerado um dos sete sábios da Grécia.


Canto IV
cordei ao som de um trovão, já nas bordas abissais do
fosso infernal, onde ecoam gritos infinitos. Tão escuro e
nebuloso era que, por mais que eu tentasse forçar a vista
ao fundo, não conseguia discernir A coisa alguma.
— Desçamos ao mundo onde nada se vê. — disse Virgílio —
Eu irei na frente e tu me seguirás. — e fez uma indicação para que
eu o seguisse. Ele estava com uma aparência muito pálida, e por
isso me assustei, hesitando por um instante.
— Como queres que eu te siga tranqüilo, se estás com medo?
— perguntei.
— Não é medo. — respondeu — A piedade me clareia o rosto,
por causa da angustia das gentes desamparadas que aqui sofrem.
Andemos, pois temos ainda um longo caminho pela frente.
E assim ele me guiou para o primeiro círculo que rodeia o poço
abissal. Naquele lugar não ouvi sons de lamentação, somente
suspiros. Só havia mágoa. Como não lhe perguntei nada, o poeta
resolveu me explicar que espíritos eram aqueles que eu estava vendo.
— Estes coitados não pecaram, mas não podem ir para o Céu
— explicou —, pois não foram batizados. Estão aqui as crianças não
batizadas e aqueles que viveram antes de Cristo, como eu. Aqui não
temos sofrimento, mas também não temos nenhuma esperança.
Senti pena dele enquanto falava e imaginei quanta gente de valor
deveria estar suspensa para sempre nesse limbo, e então perguntei-
lhe:

Inferno 10

Notas 11
4.10 Zenão (séc. 5 a.C.) foi filósofo e matemático de Eléia, conhecido por seus paradoxos
matemáticos.
4.11 Enéas é personagem da mitologia romana e herói da Eneida, de Virgílio. É filho
de Vênus e Anquises (príncipe troiano). Na Eneida, Enéas escapa de Tróia após
a guerra e funda a cidade de Roma.
4.12 Aristóteles (384-322 a.C.) foi filósofo e cientista grego. Um dos mais importantes
filósofos da antiguidade ao lado de Platão e Sócrates. Pai do empirismo e
autor de várias obras entre as quais Ética, Organon e Física.
4.13 Platão (428-347 a.C.): foi filósofo grego. Autor de inúmeros diálogos como A
República. Idealista, rejeitava o empirismo defendido por Aristóteles.
4.14 Sócrates (470-399 a.C.) foi um filósofo grego que teve grande influência sobre
a filosofia ocidental através dos seus diálogos, narrados nas obras de Platão.
4.15 Orfeu é, na mitologia grega, poeta e músico. Filho de Calíope (musa da poesia)
e Apolo (deus da música). A música de Orfeu era hipnotizante e surtia seu efeito
sobre todas as pessoas, animais e plantas. Amava a ninfa Eurídice. Quando
esta foi morta por uma picada de serpente, Orfeu fez uma viagem ao inferno
para tentar resgatá-la.
4.16 Júlio César (100-44 a.C) foi orador, general e magistrado romano que estabeleceu
as bases para a fundação do império romano. Em 59 a.C. foi eleito cônsul
de Roma e um ano depois, governador da Gália. Na época, a Gália Celta (norte
da Gália) ainda estava independente. César foi solicitado para evitar a invasão
dos helvécios na Gália. Depois ajudou a expulsar as forças germânicas. Em 57
a.C. a Gália estava de novo sob o controle de Roma. Em 52 a.C., Pompeu, cônsul
de Roma e antigo aliado, assumiu o comando absoluto do governo romano
e exigiu a renúncia de César. Em 49 a.C., César e suas tropas aliadas cruzaram o
rio Rubicon, que marcava a fronteira entre a Gália e a Itália, avançando sobre
Roma. A travessia marcou o início da guerra civil romana que César venceu,
esmagando as tropas de Pompeu em Farsália. César então se tornou ditador de
Roma e promoveu várias reformas, entre as quais uma reforma do calendário
que previa a existência do ano bissexto. Vários grupos estavam insatisfeitos
com o poder de César, entre eles, seus principais aliados. Em 44. a.C. um grupo de senadores tramou a morte de César que foi executada pelos senadores Cássio
e Bruto (veja notas 34.4 e 34.3).
4.17 Ptolomeu (100-170) foi um astrônomo e matemático cujas teorias sobre o universo
dominaram o pensamento científico até o século XVI. Segundo a teoria
de Ptolomeu, a terra é esférica e ocupa o centro do Universo. Em volta da terra
giram todos os planetas, sol e lua. No final, gira uma esfera de estrelas fixas.
4.18 Os outros personagens mencionados por Dante no Canto IV: 121-144 (original)
são: Electra – filha de Atlas e fundadora de Tróia; Camila – filha do rei
Metabus, morta na guerra de Tróia; Pentesiléia – rainha das amazonas que ajudou
os troianos contra os gregos e foi morta por Aquiles; o rei Latino, que
reinava sobre a península italiana, onde Enéas fundou Roma; Lavínia – filha do
rei Latino; Lucius Brutus – fundador da república romana; Lucrécia – esposa
de Colatino; Julia – filha de Júlio César e esposa de Pompeu; Márcia – segunda
esposa de Cato de Utica; Cornélia – mãe dos tribunos Tibério e Caio; Saladin
– sultão do Egito em 1174; Diógenes, Anaxágoras, Empedocles – filósofos
gregos; Dioscórides – cientista e médico grego (sec. 1 d.C.); Marcus Túlius
Cicero – orador e filósofo romano (106-43 a.C.), Linus – poeta e músico
grego; Lucius Annaeus Seneca (4 a.C. - 65 d.C.) - filósofo romano; Euclides –
matemático grego (300 a.C.), Hipócrates – médico grego (460-377 a.C.); Avicena
– filósofo e médico árabe (980-1037 d.C.); Galeno – médico conhecido
mundialmente (130-200 d.C.); Averroes (1126-1198 d.C.) – estudioso árabe conhecido
como comentarista de Aristóteles que serviu de base para o trabalho de
Tomás de Aquino.

Inferno 11

— Algum desses habitantes, por mérito seu ou com a ajuda de
outro, pôde algum dia ir para o céu?
— Eu era novato neste lugar — respondeu Virgílio —, quando
um Rei poderoso aqui desceu. Ele usava o sinal da vitória na sua coroa.
Veio, e nos levou Adão, Noé, Moisés, Abraão, David, Israel,
Raquel e vários outros que ele escolheu. E deves saber, antes que essas
almas fossem levadas, nenhuma outra alma humana havia alcançado
a salvação.
Não paramos de caminhar enquanto ele falava, mas continuamos
pela selva, digo, a selva de espíritos. Não tínhamos nos afastado
muito do ponto onde eu acordei, quando vi um fogo adiante, um
hemisfério de luz que iluminava as trevas. Mesmo de longe, pude
perceber que aquele lugar era habitado por gente honrosa.
— Ó mestre que honras a ciência e a arte, quem são esses,
privilegiados, que vivem separados dos outros aqui? — perguntei.
— O nome honrado que ainda ressoa no teu mundo lá em
cima, encontra a graça no Céu que o favorece aqui.
Mal ele terminara de falar, ouvi um chamado que partiu de um
dos vultos iluminados:
— Saudemos o altíssimo poeta. — gritou a alma — Sua sombra
que havia partido já está de volta!
Depois que a voz se calou, vi quatro grandes vultos se aproximarem.
Os seus rostos não mostravam tristeza, mas também não
mostravam alegria. Virgílio os apresentou:
— Este é Homero, poeta soberano, o outro é Horácio, o satírico,
Ovídio é o terceiro e por último, Lucano.
Quando chegamos até eles, o mestre falou-lhes em particular e
depois eles me saudaram, tratando-me com deferência, incluindome
como o sexto do seu grupo.
Prosseguimos, então, os seis, até finalmente chegarmos ao local
de onde emanava a luz. Lá se erguia um nobre castelo de muros
altos, cercado por um belo riacho. Sete muros o cercavam. Nós
passamos sobre o riacho como se fosse terra dura, depois, sete portões
atravessamos até chegarmos a um verde prado, onde muitas
outras pessoas conversavam. De lá mudamos para um local aberto,
luminoso e alto, onde podíamos ter uma visão completa de todos.
Reconheci várias grandes figuras como Enéas, Heitor e César, Aristóteles,
Sócrates e Platão, Orfeu, Heráclito, Tales, Zenão, Ptolomeu
e muitos outros. Exaltou-me a possibilidade de poder encontrar todos
esses espíritos, cuja sabedoria enchia de luz aquele lugar sombrio.
Havia mais. Muitos. Tantos eram, que não posso aqui listar
todos.
De todos, no final, restamos só eu e Virgílio, pois nossa jornada
nos impelia adiante. Chegamos, então, a um lugar onde nada
mais reluzia.
Grandes figuras da Antiguidade reunidas no Limbo.
Ilustração de Gustave Doré (século XIX).

Inferno 12

Notas 13
5 Personagens e símbolos do Canto V
5.1 Os círculos da incontinência (círculos 2 a 5) são a morada daqueles que pecaram
não por determinação de fazer o mal, mas por não conseguir controlar os
impulsos, falhando assim na escolha do bem. Aqui são punidos os pecados da
luxúria, da avareza e da gula.
5.2 Minós (Minos): na mitologia grega foi o rei lendário da ilha de Creta cuja esposa
é mãe do Minotauro (nota 12.1). Era filho de Zeus com a princesa Europa.
Depois de morto, desceu ao mundo subterrâneo onde se tornou um dos juizes
dos mortos. No inferno de Dante, Minós ouve as confissões dos mortos (que
sempre dizem a verdade, pois não têm mais o dom do intelecto) e os designa a
um círculo e subcírculo específico de acordo com a falta mais grave relatada.
5.3 Os luxuriosos: Dante classifica o pecado da luxúria como o menos grave de
todos, colocando-o no círculo mais externo. Isso é demonstrado também na
compaixão que sente pelos pecadores, se emocionando com o relato de Francesca.
A ventania é o contrapasso do pecado. Em vida, os amantes eram levados
por suas paixões, que os arrastava como o vento que os arrasta no inferno.
5.4 Semiramis: foi rainha da Babilônia por 102 anos. Era esposa do caçador Nino.
5.5 A viuva de Siqueu é Dido, que era, segundo a mitologia grega, filha de Belo,
rei de Tiro. Quando Siqueu, seu marido, foi morto pelo novo rei de Tiro, irmão
de Dido, ela fugiu para o norte da África onde fundou a cidade de Cartago. Segundo
a Eneida, de Virgílio, o príncipe troiano Enéas (nota 4.11) naufragou em
Cartago depois de fugir de Tróia. Dido recebeu bem os troianos e acabou se
apaixonando por Enéas. Os dois passaram a viver juntos como marido e mulher.
Enéas já estava para decidir que permaneceria em Cartago quando Júpiter
o lembrou que precisaria deixar a cidade para cumprir sua missão e fundar
Roma. Desesperada por causa de sua partida, Dido se matou numa pira funerária.
Na sua visita ao inferno (Hades), Enéas encontrou a alma de Dido mas esta
se recusou a falar com ele. [Encarta 97]
5.6 Cleópatra VII (69-30 a.C.): Rainha do Egito conhecida por seus casos de amor
com Júlio César e Marco Antônio.


Canto V
Assim que entramos no segundo círculo, lá estava Minós,
rangendo terrivelmente. Ele ficava na entrada e recepcionava
os pecadores, julgando-os um por um. Ouvia suas
confissões e proferia a sentença, se enrolando na própria cauda.
O número de voltas que dava a sua cauda indicava quanto deveria
descer o pecador para o seu lugar nas profundezas do Inferno. Uma
grande multidão se amontoava diante daquele juiz. Cada pecador
falava, ouvia sua sentença, e era atirado no abismo.
— Ó tu que entras no asilo da dor — disse Minós ao me ver,
interrompendo seu ofício —, vejas bem em quem confias e como
entras aqui. É fácil de entrar, mas não te enganes!
— Por que gritar? — respondeu Virgílio ao juiz dos mortos
— Não podes impedir esta jornada, pois lá, onde tudo o que se
quer se pode, isto se quer e não peças mais nada!
Minós se calou, e nós prosseguimos. Pouco a pouco comecei a
perceber sons tristes, muito pranto e lamentos. Neste lugar escuro
onde eu me encontrava, o som das vozes melancólicas se assemelhava
ao assobio do mar durante uma grande tormenta. Os tristes
sons emanavam de um enorme redemoinho. Eram almas sofredoras,
sacudidas pelo vento que nunca cessava. Entendi que era o castigo
pela transgressão da carne, que desafia a razão, e a submete à
sua vontade.
No escuro vento vi várias sombras que passavam se lamentando
e ao mestre perguntei:

Inferno 13

Notas 14
5.7 Helena foi a esposa do Rei Menelau que, na mitologia grega, cedeu às tentações
de Afrodite e deixou-se ser seqüestrada por Páris (nota 5.9), que a levou para
Tróia.
5.8 Aquiles foi o maior dos guerreiros gregos na mitologia grega. Quando criança,
sua mãe o imergiu no rio Estige (7.7), tornando-o imortal. A única parte do seu
corpo que não foi submersa foi o calcanhar, por onde sua mãe o segurou. Aquiles
lutou e foi vitorioso em muitas batalhas até ser mortalmente ferido no calcanhar
por Páris, que o encontrou quando, por estar apaixonado pela filha de
Priamo, entrou desarmado no templo de Apolo.
5.9 Páris: foi príncipe de Tróia na mitologia grega. Responsável pelo seqüestro de
Helena (arquitetado por Afrodite) que deu origem a guerra contra a Grécia narrada
na mitologia grega (Ilíada).
5.10 Tristão: foi personagem da mitologia celta que se consumiu na sua paixão impossível
por Isolda.
5.11 Paolo e Francesca: eram cunhados adúlteros que foram surpreendidos e mortos
pelo marido traído em Rimini (onde o rio Pó deságua), nos tempos de Dante
[Mauro 98]. Francesca diz que foram surpreendidos quando liam a lenda onde
Lancelote, apaixonado por Guinevere (esposa do Rei Artur), é induzido a
beijá-la por Galeoto. Galeoto, portanto, induz Paolo e Francesca a se beijarem
também, quando são surpreendidos e mortos. O assassino, por ter matado um
parente sem ter lhe dado oportunidade de defesa, é punido na Caína (veja nota
32.3) onde sofrem os traidores de parentes.
5.12 Lancelote e Guinevere: são amantes na mitologia celta e britânica. Guinevere
era esposa do rei Artur e era apaixonada pelo cavaleiro Lancelote. Galeoto era o
intermediário da relação.


Inferno 14

— Mestre, quem são essas pessoas que o vento tanto castiga?
— A primeira, cuja história deves conhecer — explicou o
mestre —, foi imperatriz de povos de muitas línguas. É Semíramis,
a sucessora e esposa de Nino. A que a segue é a viúva de Siqueu,
que se matou por amor. Ali tu vês Cleópatra, luxuriosa. Veja Helena,
e também Aquiles, Páris, Tristão. — e, uma por uma, me indicou
outras mil sombras que tiveram suas vidas desfeitas pelo amor.
— Poeta — eu falei — eu gostaria, se for possível, de falar
com aqueles dois, unidos, que tão leves parecem ser ao vento.
— Espera — respondeu —, em breve estarão próximos de
nós, e quando a fúria do vento diminuir, peça, pelo amor que os
conduz, que eles virão.
Então, quando a tormenta cedeu um pouco, eu chamei:
— Ó almas sofridas, falai conosco, se isto for permitido!
Elas ouviram, entenderam meu pedido. Deixaram o bando
onde estavam as outras e se aproximaram. Uma delas falou:
— Ó ser gracioso e benigno, o que desejares ouvir ou falar
conosco, nós ouviremos e falaremos, se o vento permitir. Nasci na
terra onde o Pó deságua. Amor, que ao coração gentil logo se prende,
tomou este aqui, pela beleza da pessoa que de mim foi levada, e
o modo ainda me ofende. Amor, que a nenhum amado amar perdoa,
prendeu-me, pelo seu desejo com tanta força que, como vês,
ele ainda não me abandona. Amor nos conduziu a uma só morte.
Caína aguarda aquele que tirou as nossas vidas.
Ao ouvir esse lamento, baixei o rosto, e permaneci assim, até
Virgílio me despertar. Voltei novamente àquele casal, e perguntei:

Notas 15
Virgílio e Dante observam as almas condenadas pelo pecado da luxúria
sendo carregadas pelo vento. No primeiro plano, Paolo e Francesca. Ilustração
de Gustave Doré (século XIX).
Paolo e Francesca. Pintura de Dante Gabriel Rossetti (século XIX).


— Francesca, o teu martírio me traz lágrimas aos olhos, mas
dize-me, como permitiu o amor que tomásseis conhecimento de
vosso sentimento recíproco?
— Não há maior dor que lembrar da felicidade passada —
disse ela — mas se teu grande desejo é saber, te direi como quem
chora e fala. Líamos um dia a sós, sobre o amor que seduziu Lancelote.
Várias vezes essa leitura nos ergueu olhar a olhar. Mas foi
quando chegamos àquele ponto que falava do sorriso que desejava
ser beijado por um perfeito amante, que este aqui que nunca me
seja apartado, tremendo, beijou-me na boca naquele instante. Nosso
Galeoto foi aquele livro e quem o escreveu. Desde aquele dia,
não o lemos mais adiante.
Enquanto uma alma contava a sua história triste, a outra chorava
sem parar ao seu lado, e eu, comovido de piedade e dor, desmaiei,
e caí como um corpo morto cai.
Dante desmaia após o relato de Francesca no segundo
círculo onde as almas são agitadas como turbilhões de
vento. Ilustração de William Blake (século XVIII).

Inferno 15

Notas 16
6 Personagens e símbolos do Canto VI
6.1 Os gulosos: O prazer solitário concedido pela gula é ampliado no inferno onde
os gulosos jazem solitários na lama, sem comunicação com seus vizinhos. O
contrapasso pelo prazer e o conforto de comer alegremente além dos limites
quando viviam é o desconforto de uma dolorosa chuva gelada e a presença de
Cérbero, que, com seu apetite insaciável, os morde pela eternidade.
6.2 As almas que sofrem no inferno não têm corpos. Elas apenas mantém a aparência
das suas formas corporais. Embora possam ser dilaceradas e assim sofrer
torturas físicas, são apenas fantasmas, sem peso.
6.3 Cérbero (Kerberos) é o cão de três cabeças que guarda a entrada do mundo
subterrâneo na mitologia grega. Cérbero deixa qualquer um entrar, mas não
deixa quem entrou sair. Poucos heróis conseguiram escapar da guarda de Cérbero.
Orfeu (4.15) o hipnotizou com sua lira, Hércules (25.3) o derrotou com as
mãos. Na mitologia romana, Enéas (4.11) e Psique conseguiram enganar Cérbero
com um pão de mel. Na alegoria do inferno de Dante, ele é a imagem do
apetite descontrolado.
6.4 Ciacco: De acordo com Boccaccio [Sayers 49], é o apelido de um nobre florentino
conhecido por sua gula. Ciacco também quer dizer “porco” e é “corruptela
de Giacomo” [Mauro 98].
6.5 Guelfos: Um dos partidos políticos de Florença que rejeitava o poder do imperador.
Representava a classe média. Em Romeu e Julieta (obra de Shakespeare), os
Capuletto eram uma família guelfa. Veja mais em Vida de Dante (introdução).
6.6 Guibelinos: Partido político de Florença aliado ao imperador. Representava a
nobreza. Em Romeu e Julieta (obra de Shakespeare), os Montecchio eram guibelinos.
Veja mais em Vida de Dante (introdução).
6.7 Negros e brancos: Os guelfos, na época que Dante fazia parte do governo de
Florença, se dividiram em duas facções: os Neri ou guelfos negros – radicais que
apoiavam a tirania do papa contra o imperador, e os Bianchi, ou guelfos brancos –
moderados que rejeitavam tanto a tirania do papa quando a tirania do imperador.
A rixa que dividiu os guelfos começou na cidade de Pistóia por causa deuma discussão familiar. A briga, que provocou a divisão da família Cancelliere,
teve início por causa de um assassinato cometido por um jovem chamado Focaccia
(nota 32.2), pertencente à família. O Cancelliere original tivera duas esposas.
A primeira se chamava Bianca e seus descendentes se apelidaram Bianchi
(brancos). Para fazer oposição, os descendentes da segunda esposa decidiram se
apelidar Neri (negros). Por ser uma grande família, quase toda a cidade tomou
partido por um dos lados. Houve intervenção dos guelfos de Florença para
manter a ordem na cidade. Os líderes da revolta foram então presos em Florença
na esperança de acabar com a briga em Pistóia. O resultado, porém, foi a extensão
do conflito para Florença, onde a família Cerchi decidiu apoiar a causa
dos Bianchi contra a família Donati, que ficou do lado dos Neri. Uma insensata
briga de rua por causa de um acidente com cavalos em 1300 foi o estopim para
a crise em Florença que em pouco tempo contaminou a cidade inteira.
6.8 Previsões de Ciacco: As previsões de Ciacco falam da luta entre as duas facções
em que se dividiu o partido dos guelfos, obrigando Dante a exilar os líderes
da revolta (guelfos negros). Ciacco prevê então que alguém (o papa Bonifácio)
apoiará os Neri e estes retomarão o poder, banindo de vez os Bianchi de
Florença.
6.9 O papa Bonifácio VIII fingiu neutralidade durante a divisão dos guelfos mas
depois traiu a confiança dos líderes de Florença ao apoiar o golpe dos Neri. Veja
mais sobre Bonifácio VIII na nota 19.2.
6.10 Farinata: veja nota 10.1.
6.11 Tegghiaio e Jacopo Rusticucci: veja nota 16.2.
6.12 Mosca: veja nota 28.9.


Canto VI
Quando acordei já estava no terceiro círculo, cercado de
mais tormentos e mais atormentados que surgiam de todos
os lados. Uma chuva, gélida, eterna, com neve e granizo,
caía sobre a lama podre que as almas encharcavam. Cérbero,
fera cruel e perversa, latia com suas três goelas para as almas submersas
na lama. Ele tem uma barba negra e seis olhos vermelhos,
ventre largo e garras aguçadas com as quais rasga os pecadores e os
tortura. Elas berravam como cães e se contorciam na lama, tentando
em vão se proteger das chicotadas da chuva dura.
Quando Cérbero nos viu, abriu suas três bocas e exibiu suas
presas, rangendo e estremecendo diante de nós. Meu mestre, cauteloso,
encheu suas mãos de terra e atirou nas goelas do cão danado.
O monstro, guloso, não hesitou em engolir a terra, se emperrou
com ela e ficou em silêncio, como um cão faminto que se ocupa
com o seu osso.
Caminhamos, então, por entre as almas, pisando espectros vazios
que se assemelhavam a formas humanas. Todos os espíritos jaziam
deitados, se confundindo com a lama que assumia suas formas,
transparentes, exceto um que se ergueu na hora em que passávamos
na sua frente.
— Ó tu que és guiado por este Inferno — falou — me reconhece,
se puderes, pois tu foste vivo antes que eu fosse desfeito.

Notas 17

Inferno 16

Inferno 17
— A angústia — disse eu — te deforma de maneira que eu
não consigo reconhecer-te. Mas dize-me quem tu és, condenado a
este lugar vil e submetido a tamanha tortura.
— A tua cidade — respondeu —, tão invejosa, um dia me
teve na vida serena. Teus conterrâneos me chamam Ciacco e por
causa da gula sofro na chuva, como estas outras almas, condenadas
por semelhante culpa.
— Ciacco — eu disse a ele —, teu estado miserável me causa
grande tristeza, mas dize-me o que vai acontecer, se souberes, com
os cidadãos de nossa Florença?
— Depois da paz, haverá guerra e sangue. — relatou Ciacco
— O partido rústico (os Bianchi) expulsará a outra parte brutal (os
Neri), mas, depois de três sóis, com a ajuda daquele que agora parece
estar dos dois lados (Bonifácio VIII), voltarão ao poder, e por
longos anos manterão os outros afastados, por mais que implorem
ou chorem.
Quando ele terminou de narrar sua terrível profecia, perguntei-
lhe:
— Onde estão Farinata e Tegghiaio, Jacopo Rusticucci, Arrigo,
Mosca, e tantos outros que usaram seu gênio para o bem? Estarão
eles aqui ou estarão eles no céu?
— Tu os encontrarás mais embaixo, nas valas abissais. — disse
a alma — Se desceres mais, poderás vê-los todos! Mas quando
voltares mais uma vez ao mundo doce, te imploro que leves minha
lembrança aos que lá deixei. Não mais te digo nem te respondo.
Depois que terminou de falar, Ciacco afundou e desapareceu
de repente. O mestre então falou:

Notas 18

Inferno 18
— Este não mais se levantará até o dia em que soar a trompa
angelical. Quando isto acontecer, a adversa potestade virá e cada
alma voltará à sua tumba, retomará sua carne e sua forma humana,
e ouvirá a voz que eterna soa.
E assim cruzamos aquela mistura suja de almas com chuva,
aproveitando para falar um pouco da vida futura. Perguntei:
— Mestre, quanto a este tormento, ele crescerá, será o mesmo
ou será atenuado após a grande sentença?
— Retorna a tua ciência na qual se ensina que o ser mais perfeito
mais sente seja o bem ou a ofensa. Embora essas almas malditas
nunca possam um dia chegar à perfeição, para lá, mais que para
cá, será sua sina.
Ao nos aproximarmos da entrada para o quarto círculo, encontramos
Pluto, grande inimigo.

Notas 19
7 Personagens e símbolos do Canto VII
7.1 Pluto (Plutão, Plutus) é, na mitologia romana, o deus dos mortos (Hades, na
mitologia grega), esposo de Proserpina (Perséfone, na mitologia grega). É associado
à riqueza que brota do chão. Sua característica de deus infernal da riqueza
o coloca de forma adequada no quarto círculo, dos que não souberam lidar com
a fortuna.
7.2 A frase de Pluto: Não há uma interpretação conhecida para a frase pronunciada
por Pluto no inicio do sétimo canto, porém, Benvenuto Cellini, na sua descrição
da Corte de Justiça de Paris, relata: “as palavras que ouvi o juiz falar, ao
ver que dois senhores queriam assistir ao julgamento a todo custo, e que o porteiro
estava tendo dificuldades em mantê-los fora, foram estas: ‘Paix, paix, Satan,
allez, paix’ (Silêncio! Silêncio, Satan! Vá, e nos deixe em paz). Nesta época
eu conhecia bem a língua francesa e, ao ouvir essas palavras, eu lembrei o que
Dante disse, quando ele entrou com seu mestre, Virgílio, nas portas do inferno
(Canto III). Dante e Giotto, o pintor, estavam juntos na França e visitaram Paris
com atenção, onde a corte de justiça poderia ser considerada o inferno. Portanto
é provável que Dante, que semelhantemente dominava a língua francesa, tenha
utilizado essa expressão; e me surpreende que ela nunca tenha sido entendida
nesse sentido.” [Longfellow 67] (Benvenuto Cellini, Roscoe's Memoirs Cap.
XXII)
7.3 Os avaros e pródigos: Seu contrapasso é completar o giro da roda da fortuna
que ajudaram a desequilibrar quando viviam. “Suas riquezas materiais se transformaram
em grandes pesos que um grupo deve empurrar contra o outro, pois
suas atitudes em relação à riqueza foram opostas.” [Musa 95]
7.4 Os pecados contra a fortuna: A avareza, segundo descrição de Santo Agostinho,
é a tendência em acumular e valorizar excessivamente coisas materiais.
Outros a definem como a posse individual de coisas que a pessoa não precisa,
ou que não precisaria ter só para si. Nesses termos, a avareza não se refere apenas
a dinheiro ou bens, mas também ao conhecimento e à glória. [Longfellow
67] (de citação de Chaucer) Sendo a avareza um pecado onde se retém coisas
materiais, a prodigalidade é o seu oposto, mas sempre em excesso. Pune-se aqui
o desperdício, a gastança incontida, que, mesmo não prejudicando quem a pratica (se for pessoa rica), prejudica o equilíbrio das riquezas na sociedade (a roda
da fortuna). Por exemplo, optar por pagar mais caro por um produto pode fazer
pouca diferença para uma pessoa de posses, dará maior lucro ao vendedor
e, numa escala maior, influenciará o mercado a praticar preços mais altos, prejudicando
os que não podem pagar mais. A prodigalidade geralmente está associada
à ostentação, à necessidade de esbanjar riqueza, de impressionar, etc.
7.5 A roda da Fortuna: Comentário de Salvatore Viglio (Frei Cassiano): “O tema
da Fortuna não era novo. Os pagãos chegaram a endeusá-la e a dedicar-lhe
templos. Ela distribui os bens da terra rotativamente por não poderem pertencer
todos a todos ao mesmo tempo. Dela dependem o alternar-se de miséria e
riqueza, de bem-estar e de penúria por que passam os indivíduos e as nações. É,
em outros termos, a Divina Providência que os pagãos chamam de Fortuna. A
sua existência explicaria assim o estado de miséria em que vivem freqüentemente
os sábios e os bons, destituídos de bens materiais, mas ricos, em compensação,
dos tesouros da sabedoria e da virtude.” [Viglio 70]
7.6 “Cada esfera que brilha reflete sobre as outras”: refere-se às esferas do Paraíso
(os planetas, o sol, a lua e as estrelas). A Fortuna é comparada aos anjos
(que cuidam do movimento dos planetas).